Editorial

Os malditos joguinhos de fome no rio Columbia

Comentário do Capitão Paul Watson

A Sea Shepherd tem orgulho de anunciar o lançamento da campanha Guardião da Represa 2013, para proteger os leões-marinhos da Califórnia ao longo do rio Columbia, em Washington e Oregon (EUA). Isso marca o segundo ano de organização de uma campanha pela Sea Shepherd em defesa desses animais naquela região. Nessa temporada, a Sea Shepherd tem planos de manter uma presença efetiva na represa de Bonneville e no local de armadilhas em Astoria, com uma equipe de mais de 30 voluntários internacionais programada para participar in loco.

Abaixo está um comentário do Capitão Paul Watson, originalmente publicado em 31 de maio de 2012.

Leão-marinho dolorosamente marcado por funcionários do governo para fins de monitoramento. Foto: Erwin Vermeulen

Desde que assumiu uma posição sobre a questão de defender os leões-marinhos na represa de Bonneville, no rio Columbia, a Sea Shepherd tem recebido alguns e-mails de ódio e críticas desagradáveis de algumas pessoas.
Meus favoritos são os que dizem: “Eu te apoiava na defesa das baleias e dos golfinhos, mas eu não apoio a defesa dos leões-marinhos”. Os comentários referem-se à nossa campanha com adjetivos como “equivocada”, “estúpida”, “irresponsável”, etc.

De acordo com alguns desses críticos, a Sea Shepherd não se preocupa com o salmão em perigo de extinção, os leões-marinhos são abundantes e pertencem ao mar (não ao rio), além de inúmeras outras queixas vindas de defensores de soluções letais para o que eles entendem como um problema.

Alguns dos nossos apoiadores dizem que não vão nos ajudar mais em nossos esforços para proteger as baleias, os golfinhos e outras espécies marinhas porque eles não concordam com a nossa campanha de defesa dos leões-marinhos.

“Você não vai receber um centavo a mais de mim por causa dessa campanha equivocada”, disse um possível ex-doador irritado.

Minha resposta é simplesmente esta: “fique com o seu maldito centavo para você, nós não comprometemos nossos clientes por causa de dinheiro, e a nossa clientela inclui os leões-marinhos da Califórnia e da Stellar. E, gostando ou não, não vamos abandonar seus interesses simplesmente porque alguns seres humanos não os estimam”.

A Sea Shepherd entende perfeitamente que o salmão está em perigo de extinção e também entende que eles não estão em perigo por causa dos leões-marinhos. Mais salmões são mortos pelas turbinas da barragem do que por leões-marinhos. Pescadores nativos, comerciais e desportivos retiram muito mais peixes do rio Columbia do que os leões-marinhos. A poluição mata mais salmões do que leões-marinhos.

Esses animais viraram bodes expiatórios porque (1) isso é conveniente; (2) eles não votam; (3) matá-los dá a impressão de que o salmão está sendo protegido e; (4) os burocratas do governo são simplesmente muito preguiçosos para lidar com o problema de um modo positivo e ecologicamente eficiente.

O salmão pode ser salvo com (1) a derrubada daquela barragem destrutiva; (2) a proibição da pesca comercial; (3) a proibição da pesca esportiva e; (4) a proibição da pesca nativa. E uma vez que nenhuma destas soluções seria aceitável política ou economicamente, os burocratas optaram pela solução ilusória de matar alguns leões-marinhos.

Esses mamíferos comem entre 1% e 4% do salmão. Os pescadores matam 17%, e a barragem mata outros 17%. Reduzir em 4% a cota dos pescadores já compensa a parte dos leões-marinhos.

Eles têm mais direito sobre os salmões do que os pescadores, nativos ou não nativos, porque os leões-marinhos estão naquela área e se alimentam dos peixes há dezenas de milhares de anos, muito antes de qualquer colonização humana nas Américas.

O maior assassino de salmões: a represa de Bonneville, no rio Columbia. Foto: Erwin Vermeulen

Para aqueles que acham que os leões-marinhos estão invadindo a bacia do rio Columbia, seria interessante notar que Lewis e Clark encontraram esses animais se alimentando de salmões muito acima do rio, no pé da Celilo Falls, junto com os ursos negros e pardos, cujo consumo é agora inexistente.

Eu diria que o direito de um leão-marinho pegar um salmão deve preceder o de qualquer ser humano, pois aqueles animais têm uma reivindicação anterior e estão protegidos sob a Lei de Proteção dos Mamíferos Marinhos. Eles também são completamente dependentes desse peixe para a sua sobrevivência.

Os requisitos estabelecidos para a caça aborígene de baleias e de focas e para a pesca exigem dois pressupostos oficiais. Primeiro, uma tradição ininterrupta e, segundo, uma necessidade de subsistência. Os leões-marinhos têm uma tradição ininterrupta de consumo de salmão no rio Columbia e têm também uma necessidade de subsistência.
Por que quase 500 leões-marinhos deveriam ser massacrados para que os seres humanos possam pescar por esporte?

O argumento de que o salmão está em perigo é negado pelo fato de que as pessoas estão autorizadas a pescá-lo. Sob a Lei de Espécies Ameaçadas, a pesca seria proibida se de fato o salmão estivesse listado como em perigo de extinção.

A Sea Shepherd Conservation Society está muito preocupada com o salmão e defende a proibição da pesca esportiva e comercial, a fim de permitir que tanto os salmões quanto os leões-marinhos possam sobreviver.

Matar os leões-marinhos não é uma solução. O vácuo criado pela morte de 500 desses animais irá trazer muitos outros mais para a área, já que os leões-marinhos que estão ali ganharam o território e a posse do peixe. Leões-marinhos ainda mais jovens irão reivindicar aquele território, o que levará a mais abates.

Não existe um único ser humano que vá morrer de fome se tiver seu direito de pesca negado. Os leões-marinhos, no entanto, não têm alternativa. A fome os leva até o rio e a fome também os leva a enfrentar o esquadrão da morte do governo mobilizado para destruí-los.

Ao longo da Costa do Pacífico, os humanos afastaram os leões-marinhos de seus habitats naturais. Nós os molestamos quando eles vêm a terra, os matamos simplesmente porque eles estão com fome, roubamos a comida de suas bocas no mar e nos rios, jogamos nosso esgoto e nossos resíduos químicos em seus habitats e, finalmente, os tornamos bodes expiatórios para dar a impressão de que o governo está preocupado em proteger o salmão.
O que os burocratas estão fazendo não é proteger o salmão. Eles estão se prostituindo a mando dos políticos que querem o voto dos pescadores.

Leões-marinhos em uma armadilha, antes de possivelmente serem sacrificados.

E para tornar as coisas ainda mais bizarras, há o fato de que qualquer tentativa de interferência para a proteção dos leões-marinhos ou com as armadilhas será considerada um ato de terrorismo devido à proximidade da Barragem de Bonneville. Salve um leão-marinho e vá para Guantánamo!

Assim, os guardiões da Sea Shepherd estão lá de forma legal e não-violenta para se opor à matança desses animais. Estamos apoiando a Humane Society of the United States em seu desafio em relação às mortes e estamos lá para chamar a atenção internacional sobre essa expiação vergonhosa de uma espécie que tem todo o direito de estar onde está, fazendo o que faz.

Então, para aqueles que dizem que não vão mais nos apoiar porque estamos defendendo leões-marinhos, a nossa posição é de que nós não precisamos do seu apoio. Não somos uma organização que pretende agradar a tudo e a todos. Nossa base de apoio pode ser humana, mas nossos clientes são as espécies marinhas, desde o plâncton até as grandes baleias, sem exceções.

Não há dinheiro que possa nos impedir de uma fidelidade total para com nossos clientes do mar. Nós não estamos aqui para fazer as pessoas se sentirem bem. Nós existimos para sermos eficazes, e eficácia significa salvar vidas e defender a biodiversidade e a proteção dos habitats marinhos.

Significa, também, assumir posições que podem ser odiadas, dizer coisas que as pessoas podem não gostar de ouvir e fazer aquilo que alguns preferem não fazer.

Esta pode muito bem ser uma posição detestável para algumas pessoas, mas a Sea Shepherd Conservation Society se opõe sim à matança de leões-marinhos pelo governo dos Estados Unidos nas águas do rio Columbia.

Traduzido por Maiza Garcia, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

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