Tubarão morto sobre poça de sangue

Manifestação contra a compra de 650 toneladas de carne de cação para a merenda em escolas públicas pela Prefeitura de São Paulo

Manifestação contra a compra de 650 toneladas de carne de cação para a merenda em escolas públicas pela prefeitura de São Paulo

No dia 10 de novembro de 2021, a Prefeitura de São Paulo realizou um leilão que visa a compra de mais de 650 toneladas de carne de cação congelada, em cubos e sem pele, destinada ao abastecimento das unidades educacionais vinculadas ao Programa de Alimentação Escolar (PAE). Estudos apontam que 70% das pessoas não sabem que o ‘cação’ é carne de tubarão – e muitas vezes, este é vindo de fora do país, sem fiscalização que garanta sua origem. Com isso, além de sérios riscos à saúde, como a ingestão de carnes que podem ser altamente tóxicas, o consumo da carne dita de “cação” pode causar graves danos ambientais, como colocar em risco espécies em extinção como tubarões-martelo e raias-viola, causando também o desequilíbrio do ecossistema.

Em repúdio ao edital, a carta abaixo foi enviada ao departamento de licitação da Secretaria da Educação da Prefeitura de São Paulo no início da noite do dia 10 de novembro de 2021. 

Neste cenário, o Instituto Sea Shepherd Brasil, organização da sociedade civil sem fins lucrativos que tem como foco a conservação marinha e de todos animais que habitam o oceano, vem a público se manifestar sobre o Edital de Pregão Eletrônico n° 75/SME/2021 Processo Eletrônico nº 6016.2021/0062237-5

Considerando que:

  • A carne de tubarões apresenta altas concentrações de metais e outros contaminantes tóxicos, como mercúrio e arsênio, substâncias que, quando ingeridas, podem causar danos à saúde, como no desenvolvimento neural de crianças. Isso porque esses animais ocupam altas posições tróficas na cadeia alimentar marinha, e acumulam essas substâncias tóxicas ao longo da vida; 
  • Um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública em 2008, demonstra que, em amostras de tubarão-azul (Prionace glauca), espécie de tubarão mais pescada e consumida no Brasil, os índices de mercúrio excederam em mais de duas vezes o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS); 
  • A Food and Drug Administration (FDA), agência federal americana (equivalente à ANVISA no Brasil), não recomenda a inclusão de tubarão no cardápio de grávidas, de mulheres que estejam amamentando e de crianças, seja em que quantidade for;
  • Tubarões são caracterizados por história de vida conservativa, por exemplo, baixa fecundidade, maturação sexual tardia, crescimento lento, alta longevidade, longos períodos de gestação (e geracionais), fidelidade a certas áreas e formação de agregações reprodutivas, conjunto de características que confere às populações, baixo potencial de reposição em caso de mortalidades excedentes ou aquelas ocorridas por causas não naturais;
  • No Brasil, a carne de cação comercializada trata-se de uma sub-rotulagem para carne de diferentes espécies de tubarões, incluindo espécies ameaçadas de extinção.
  • Em 2021, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) reportou que 1/3 da fauna global de elasmobrânquios (grupo que inclui tubarões e raias) está ameaçada de extinção;
  • Em 2018, o Instituto Chico Mendes para Conservação da Biodiversidade (ICMBio) considera que das 93 espécies de tubarões avaliadas no Brasil, aproximadamente 40% das espécies de tubarão encontram-se ameaçadas de extinção e 22% não possuem dados suficientes para serem avaliados;
  • Em 2019, a produção de tubarões no estado de São Paulo, segundo informações do Portal PropesqWeb (Instituto de Pesca/PMAP-SP), esteve em torno de 249.514,47 kg, devendo-se considerar que existe pouca (ou baixíssima) resolução taxonômica, onde a maioria das espécies é agrupada em grandes categorias que não permitem a identificação em nível específico;
  • No Brasil não existem estatísticas nacionais desde pelo menos 2007 e deve ser considerado que, excepcionalmente para elasmobrânquios, as estatísticas nacionais são deficientes há décadas (não diferenciam espécies na maioria das unidades da federação);
  • O controle do esforço pesqueiro, monitoramento de desembarques e eventuais cotas de captura, bem como a fiscalização eficiente sempre se apresentaram como grandes desafios para manejo e conservação adequados de recursos pesqueiros, principalmente de elasmobrânquios (não existe coleta sistemática de dados desde 2006; agências de fiscalização não têm corpo efetivo);
  • A Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura do Município de São Paulo (SME) torna público, processo de Licitação (Edital de Pregão Eletrônico n° 75/SME/2021, Processo Eletrônico nº 6016.2021/0062237-5) que tem por objeto a aquisição de PEIXE CONGELADO – CAÇÃO EM CUBOS SEM PELE (Lote 1 – 9.050 kg/mês com limite total de uso da Ata estimado em 162.900 kg  e Lote 2 – 27.150 kg/mês com limite total de uso da Ata estimado em 488.700 kg), destinado ao abastecimento das unidades educacionais vinculadas aos sistemas de gestão direta e mista do Programa de Alimentação Escolar (PAE) do Município de São Paulo;

Insta que:

  • O Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Educação (SME) promova imediatamente o cancelamento do Edital de Pregão Eletrônico n° 75/SME/2021, Processo Eletrônico nº 6016.2021/0062237-5, sobre aquisição de peixe congelado – cação em cubos sem pele, destinado ao abastecimento das unidades educacionais vinculadas aos sistemas de gestão direta e mista do programa de alimentação escolar (PAE) do município de São Paulo.

Adendo – Importante adicionar:

  • A Food and Drug Administration (FDA), agência federal americana (equivalente à ANVISA no Brasil), exige menos de 0,5 mg de mercúrio por kg deste tipo de carne para adultos, e o edital em questão aceita o dobro desta quantidade, limitando a até 1,0 mg por kg desta carne.
  • Não está claro no edital se a venda será focada em fornecimento de importados ou produção nacional. Como este edital é aberto a grandes empresas, cooperativas e pequenos produtores, pode ser estendido para este fim. Com o conhecimento da problemática de a importação de elasmobrânquios no Brasil não exige classificação de espécie ou rastreio total da pesca, esta compra pode ser feita de produtos oriundos de pesca industrial internacional de barbatana de tubarão, assim como de espécies classificadas como em risco de extinção de acordo com a classificação internacional da IUCN.

Esta carta é acompanhada por um abaixo-assinado aberto dia 9 de novembro de 2021 às 20:00, convidando cidadãos brasileiros que apoiam esta manifestação. Última atualização em 10 de novembro de 2021 às 18:33 com 1.633 assinaturas.

Ainda, esta carta foi elaborada como uma decisão do ISSB em conjunto com a SBEEL – Sociedade Brasileira para o Estudo de Elasmobrânquios, que reúne especialistas das áreas acadêmica e técnica de institutos de pesquisas, universidades públicas e privadas, sociedade civil, órgãos governamentais, agências de fomento e setores da cadeia produtiva, todos devotados ao estudo dos mais variados aspectos da biologia destes animais com o objetivo de gerar subsídios à implementação de políticas públicas que visem manejo e conservação – levando em consideração todos os pontos técnicos dos especialistas da SBEEL e Instituto Sea Shepherd Brasil.

 

Voluntárias embarcadas em saída da Campanha Borrifos

Como é ser um voluntário embarcado da Sea Shepherd Brasil?

Voluntários relatam a experiência de uma primeira operação no mar

Nas redes sociais, recebemos muitas perguntas sobre como o voluntário da Sea Shepherd Brasil pode atuar e como funciona a rotina deles em uma embarcação independente de ser um ou mais dias embarcados. Considerando essa curiosidade, decidimos mostrar os relatos de quem vivenciou essa experiência.

São histórias interessantes e ricas, além de situações atípicas, que acabam por ser uma inspiração para aqueles que desejam vivenciar o novo. Nosso intuito é instruir aqueles que consideram realizar trabalho voluntário e se dedicar de fato a tal empreitada. Compartilhamos os relatos da Campanha Borrifos cujo propósito era monitorar a  migração de baleias jubarte em Ilhabela, litoral norte de São Paulo. Vale a pena conferir!

 

Thiago Bolivar

Após oito anos como voluntário e filiado da Sea Shepherd Brasil, recentemente tive a oportunidade de participar de uma saída embarcada. Em uma circunstância anterior, já havia representado a Sea Shepherd a bordo de uma embarcação: no Dia Mundial de Limpeza de Praias e Rios de 2019, quando, remando minha própria canoa junto à foz do Rio Iguaçu, na Tríplice Fronteira, atuei somando esforços ambientais de membros de organizações parceiras; porém, desta vez, minha  participação ocorreu de forma oficial em uma campanha consolidada e com propósitos científicos, em Borrifos, nos arredores da Ilhabela. 

Inicialmente, ressalto que a participação em operações semelhantes envolve mais que a simples vontade de colaborar: é necessário estar realmente apto para o trabalho e tudo o que ele envolve. Além disso, deve-se ter disposição para passar algumas horas (neste caso, foram três) no balanço do mar, diante de qualquer condição climática e é preciso saber como se comportar em uma embarcação, colocando-se sob a autoridade do capitão e do líder do grupo de pesquisa.

Voluntário Thiago Bolivar

Essa postura é necessária visto que, em situações similares, ter uma hierarquia de comando é essencial; em se tratando de uma saída com fins científicos, visando principalmente o registro de espécies avistadas, é solicitado ter bons conhecimentos a respeito da fauna marinha da região, bons olhos e um bom manejo de equipamentos como câmeras, binóculos, telêmetros e afins.

Campanha Borrifos - Baleia

As saídas da Operação Borrifos foram organizadas pela Coordenadora da Campanha Mara Lott durante o trânsito de baleias pela região; que salvo ocasiões excepcionais, ocorrem uma vez por semana durante o período em questão. Na oportunidade que descrevo, eu e a Coordenadora de Educação Giselle Reis nos somamos a dois pesquisadores de outras ONGs e a três membros da tripulação do pequeno barco. Nosso trabalho consistia em lançar olhares de varredura ao longo de todo o trajeto pelo canal que separa a ilha da costa de São Sebastião, e assim pudemos contabilizar, naquela tarde, o avistamento de uma baleia jubarte, uma tartaruga verde e dois pinguins de magalhães. Também tínhamos a expectativa de encontrar  raias-manta, o que não se cumpriu pois estas não deram o ar da graça no dia. De qualquer forma, esse revés  não foi exatamente inesperado visto que a  fauna  nem sempre irá aparecer onde e quando esperamos. Cabe destacar que os voluntários embarcados receberam a  contribuição de pesquisadores situados em terra,  e estes  comunicavam avistamentos realizados a partir de seus pontos de observação.

Os voluntários da Sea Shepherd Brasil vêm realizando, há muitas temporadas, esse inestimável trabalho científico que leva ao conhecimento de particularidades da fauna marinha brasileira, com a finalidade última de defender, conservar e proteger as espécies que frequentam nossas costas.

Como  voluntário estabelecido relativamente longe do litoral, levarei para sempre a lembrança desta primeira experiência, e aproveito a oportunidade para encorajar os colegas brasileiros a capacitarem-se para as diversas ações que a Sea Shepherd organiza no mar ou em terra.

 

Giulia Braz

No dia 2 de setembro de 2021 tive a oportunidade de acompanhar uma saída embarcada da Campanha Borrifos. Fiquei muito feliz em ver e aprender melhor como a campanha funciona na prática – a logística da Borrifos é totalmente diferenciada do que a maioria de nós, voluntários, vivenciamos na Sea Shepherd, porque trata-se de um estudo científico. A tripulação é reduzida e conta com a presença de coordenadoras de campanha e biólogos, cada um com uma função, tipo de registro e um lado do barco para observar. 

Como bióloga e fotógrafa, eu estava na função de fotoidentificação e também aprendi sobre todos os formulários que devem ser preenchidos e equipamentos que são frequentemente usados no dia a dia das saídas para a Campanha Borrifos com o objetivo de identificar os animais, analisar seus comportamentos e a interação com os barcos ao redor.

Voluntária Giulia Braz

Apesar da meta da campanha estar focada apenas nas baleias, a Sea Shepherd não deixa que nada passe em vão no mar, mesmo sem nenhuma baleia avistada nesta saída específica, pudemos observar outros animais e atuar retirando objetos que encontramos, e nunca deveriam ter sido perdidos no mar. Um colete salva vidas pertencente a uma embarcação de Santos foi avistado pelo capitão do barco e retirado pela tripulação, além de uma grande rede de arrasto, que já estava servindo apenas para captura de pesca fantasma há algum tempo, desta rede retiramos peixes, lagostas, siris e camarões vivos e mortos. Assim, salvamos a vida de diversos invertebrados emalhados, e impedimos futuros emalhes naquela rede. Não atingimos o foco da campanha neste dia em questão, mas continuamos contribuindo para a conservação do oceano.

Como ser um voluntário da Sea Shepherd Brasil?

Se você quer atuar em diferentes frentes em prol dos oceanos com a gente, acesse https://seashepherd.org.br/voluntariado/ e preencha o formulário de inscrição. Será um prazer ter você a bordo!

 

E lembre-se: podemos ajudar a manter os mares limpos sem sair de casa. Saiba sempre a procedência dos alimentos que você consome, descarte o seu lixo de forma correta e busque sempre produtos que tenham um menor impacto no meio ambiente.

Expedição Boto da Amazônia

Expedição inicia um novo ciclo de esperança para a proteção dos botos da Amazônia

A Sea Shepherd, organização de conservação que protege baleias e golfinhos, e o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) finalizaram a primeira etapa de um estudo a longo prazo sobre os botos vermelhos e botos tucuxis na bacia da Amazônia. A pesquisa é importante para mensurar o impacto da pesca ilegal de piracatinga na conservação destas espécies.

Manaus-AM: Neste último dia 23 de outubro, véspera do Dia dos Golfinhos de Rio (24/10), o primeiro ciclo de pesquisas da Expedição Boto da Amazônia, organizada pela Sea Shepherd em parceria com o INPA, chegou ao fim. Foram 22 dias de viagem, com contagem de botos vermelhos (Inia geoffrensis) e de botos tucuxis (Sotalia fluviatilis) em 19 deles. 

Liderada pela bióloga Dra. Sannie Brum, doutora em ecologia populacional destas espécies, a pesquisa contou com mais quatro cientistas do Laboratório de Mamíferos Aquáticos do INPA: Andressa Castro, Israela de Souza, Lucas Spinelli e Rayane Gonçalves, e outros dois cientistas da Sea Shepherd, Giovanna Giannetto e Heloísa Brum

Também a bordo, estiveram Nathalie Gil, líder da expedição e CEO da Sea Shepherd no Brasil; a documentarista Alba Treadwell, experiente nas operações da Sea Shepherd no exterior; o fotojornalista Gustavo Fonseca e Ana Paula Machado, chef de cozinha que foi responsável pela alimentação à base de plantas dos membros da expedição, seguindo a política global da organização.

Tripulação posa no convés do navio

O barco da expedição foi o B/M Comandante Gomes III, capitaneado pelo comandante Valmiro Pacaio Barros. Na tripulação, contamos com Sidney Batista da Silva, Raimundo Alves da Silva Jr, Roberguen da Cruz Parente, Walcineide Oliveira dos Santos, Ana Carolina dos Santos e Antonio Marcos Lima da Costa.

Tripulação observa rio Amazonas

Nestes 19 dias de pesquisa, foram monitorados por volta de 1200 km de rios, lagos e paranás (canais que ligam rios ou lagos), com foco em quatro áreas:

  • Manacapuru, área de alta incidência de pesca e também famosa pela pesca da piracatinga, um tipo de peixe que é pescado com iscas feitas de carne de boto;
  • A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu – Purus, área reconhecida mundialmente por ter a maior densidade de golfinhos de rio no mundo;
  • A RDS Mamirauá, localidade onde foram realizados os estudos mais aprofundados sobre as duas espécies de botos;
  • A região do lago Badajós, também considerada de grande incidência destas espécies.

Estas localidades foram estrategicamente escolhidas para permitir a comparação entre áreas de alta incidência de pesca com áreas de manejo controlado, além de contrastar áreas de rios largos com áreas de paranás mais estreitos.

Foram identificados na expedição por volta de 1.400 botos e 3.200 tucuxis em uma cobertura de por volta de 1.200km de rio. É alarmante perceber a continuidade do contraste da densidade destes animais em regiões como Mancapuru – de alta concentração de pesca e conhecidamente de pesca ilegal de piracatinga – e da RDS Piagaçu-Purus, área protegida onde há experiências de manejo e controle de pesca.

Foram identificados aproximadamente 1.400 botos vermelhos e 3.200 tucuxis em cerca de 1.200km de rio. Porém, é alarmante perceber a diferença na densidade destes animais em regiões como Manacapuru, onde ocorre pesca ilegal de piracatinga, e da RDS Piagaçu-Purus, área protegida onde há experiências de manejo e controle de pesca.

Em Manacapuru, por exemplo, foram registradas 10 vezes mais presença de pontos de pesca do que na área de cobertura da RDS Piagaçu-Purus, que possui por volta de oito a nove vezes mais botos. 

Vale ressaltar que esses dados são iniciais: outras cinco expedições estão previstas para os próximos três anos, permitindo a coleta de dados mais aprofundados, e só então as organizações poderão compartilhar resultados concretos.

A pesquisa a longo prazo visa complementar um renomado estudo de mais de 25 anos de leitura populacional destas duas espécies de botos amazônicos, liderado pela Dra. Vera da Silva, chefe do Laboratório de Mamíferos Aquáticos do INPA. Foi esse estudo que permitiu  a identificação de um declínio populacional alarmante para as espécies, estimando que, infelizmente, as populações de botos vermelhos e tucuxis são reduzidas pela metade a cada 9 ou 10 anos.

Tripulação segura redes de pesca retiradas do rio
Navio da Sea Shepherd na margem do rio, visto por drone

Os dados levaram a IUCN, órgão que define o status de conservação das espécies no mundo, a considerar os dois tipos de botos como ameaçados de extinção. Mas a velocidade de seu declínio, em especial devido à pesca ilegal da piracatinga, indicam que elas podem estar mais ameaçadas do que se imagina.

Logo, a execução desta pesquisa se torna urgente, trazendo evidências sobre o real estado de conservação desses animais em mais pontos do rio.

A pesca da piracatinga, um peixe que normalmente se alimenta de carne morta, é geralmente feita com armadilhas específicas, como caixas de madeira ou um curral feito de rede fina, como um mosquiteiro, onde o pescador utiliza carne de jacaré ou de boto – ambas espécies cuja caça é proibida – para atrair os peixes à armadilha.

Desde os anos 2000, essa prática tem aumentado, o que resultou em uma moratória para proibir a pesca e comercialização da piracatinga, vigente desde 2015. Em junho, a moratória foi prorrogada por mais um ano, uma decisão tomada pela Secretaria de Aquicultura e Pesca do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Durante a viagem, também foi identificado pela primeira vez, por meio de um drone, um curral de pesca da piracatinga armado. Aparentemente, a pescaria aconteceria de noite, bem à frente da cidade de Manacapuru. Porém, no momento da filmagem, a isca estava coberta por um plástico preto, e não pode ser identificada.

A equipe de pesquisadores e ativistas também identificou em viagem três tucuxis mortos: dois na região de Manacapuru e um no entorno do porto de Coari. Os três eram machos. Estes avistamentos são raros de se obter, já que um animal morto no rio não dura muitas horas antes de ser predado por outros animais.

O primeiro era um adulto, com uma marca de rede em seu pescoço e uma ferida grande abaixo de sua nadadeira peitoral. Com cerca de 9 centímetros de profundidade, o ferimento pode ter sido causado por um arpão. O segundo era um juvenil, possivelmente filhote, com uma marca de ferida na cauda, também possivelmente ocasionada por um arpão.

Cadáver de boto é analisado

O terceiro era um adulto saudável, sem indicações de doenças e ferimentos. Estes avistamentos revelam uma outra ameaça para as duas espécies: o encontro com pescadores, com possível emalhe em rede de pesca e ataques com arpão. Como respiram do lado de fora da água, ficar preso numa rede de pesca pode levar à  morte em apenas alguns minutos.

Durante a expedição, a Sea Shepherd iniciou contato com diferentes comunidades no percurso, criando parcerias para um trabalho a longo prazo de educação ambiental e criação de modelos de gestão de resíduos nas comunidades. Houve mapeamento da atual gestão de resíduos de cada localidade, e foi realizado um trabalho inicial de sensibilização sobre o descarte de lixo no rio.

Além disso, foram realizadas palestras educativas sobre os mamíferos aquáticos da Amazônia, suas características e ameaças. Essas parcerias poderão futuramente servir como modelos de gestão para as outras comunidades do entorno.

Palestra em escola

Redução da população de krill afeta baleias Jubarte

Durante saída da Campanha Borrifos, alguns indivíduos identificados apresentaram sinais de magreza

A Campanha Borrifos vem atuando no Brasil desde abril através do estudo e monitoramento das baleias Jubarte na Ilhabela, litoral norte de São Paulo, com objetivo de fortalecer nas observações e nos trabalhos desenvolvidos ao longo dos anos, além de dar suporte e ação às medidas de conservação da espécie na costa brasileira. 

Nosso objetivo principal é analisar as interações antrópicas decorrentes do grande fluxo de embarcações e da atividade pesqueira. 

O que podemos afirmar diante dos dados coletados nessa temporada é que do total de 30 indivíduos avistados pela equipe – sendo 16 avistamentos a bordo e 14 avistamentos em ponto móvel terrestre no sul da Ilhabela -, 14 indivíduos foram foto-identificados e catalogados. Até o momento, todos são indivíduos novos, e acreditamos que 29 sejam juvenis.

Dentre os juvenis, os que pudemos observar a nadadeira dorsal através da foto-identificação, foi possível concluir que 5 indivíduos estavam com as vértebras aparentes apresentando sinais de magreza, como Pituca, da foto ao lado. Especula-se que possam estar chegando até a costa brasileira magras devido à fatores que envolvem a diminuição do Krill na Antártica.

Estudos recentes publicados na revista Nature, mostram que no setor sudoeste atlântico do oceano Antártico, onde abriga 70% da população de krill, não é somente uma das regiões mais afetadas pelo aquecimento global com o aumento rápido da temperatura do oceano mas também, vem ocorrendo um aumento significativo na captura do krill.

Acredita-se que possa estar ocorrendo na Antártica uma sobreposição entre a pesca e a desova do krill que mudou do verão para o inverno (época pesqueira na região). Dessa forma, a diminuição do krill tem como causa não somente o aquecimento global, mas também o aumento da captura – podendo ser consequência direta do que estamos observando durante essa temporada com a Campanha Borrifos, fazendo com que principalmente as juvenis estejam mais magras e em busca de alimento, podendo ficar presas em redes e instrumentos de pesca. 

​​A Geórgia do Sul e as Ilhas Sandwich do Sul, de onde a Jubarte parte rumo à nossa costa, estão no limite norte da distribuição do krill. O krill nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul não são autossustentáveis, dependem do movimento do krill para o norte nas correntes do Oceano Antártico e de seus locais de desova sob o gelo na Península Antártica e no Mar de Weddell, onde ficam protegidos. A reprodução do krill é altamente dependente das condições do gelo marinho e, portanto, de fatores ambientais, o que torna os fatores apontados acima como a mudança do período de desova e a maior temperatura já registrada preocupações centrais.

Redes fantasmas são coletadas em rota de migração da Jubarte

Instrumentos de pesca, que representam uma forte ameaça para a vida marinha, foram coletados durante a Campanha Borrifos

Para além das limpezas de praias, rios e lagos, nosso trabalho também está diretamente ligado ao estudo das espécies marinhas. Dessa forma, dentro da metodologia da nossa Campanha Borrifos, que trabalha pelo estudo e conservação das baleias Jubarte no nosso país, realizamos observações e coleta de dados a bordo ao menos uma vez na semana, de acordo com as condições ambientais.

No entanto, durante as saídas embarcadas da campanha – que ocorre justamente na rota de migração da Jubarte em Ilhabela, litoral norte de São Paulo – além dos avistamentos das baleias, infelizmente nos deparamos também com a poluição marinha, resultado do nosso impacto ambiental.

Somente na última semana, encontramos duas redes fantasma flutuando no oceano enquanto realizávamos nosso trabalho embarcado. Vale lembrar que as redes estavam na mesma localização em que avistamos todas as baleias catalogadas durante essa temporada de 2021, sendo portanto uma grande ameaça para essa e outras espécies. 

Uma das redes, com aproximadamente 3 metros de comprimento e tamanho de malha 12, era destinada para espécies-alvo como tainha, sardinha e cavalinha. Já a outra estava bastante emaranhada, especialmente por conta do vento e ondulação, o que demonstra que passou bastante tempo flutuando. Apesar de não termos conseguido medir seu comprimento, constatamos que pesava cerca de 30 kg.

Aproximadamente 200 pequenos crustáceos foram resgatados e retirados da rede, além de camarões, caranguejos e peixes da família Balistidae em estágio inicial de desenvolvimento.

 

Um caranguejo foi identificado como da família Majidae, caracterizado pela carapaça mais comprida ao invés de larga, formando uma ponta na frente; e pelo exoesqueleto coberto por cerdas, que apesar de servirem para prender algas e outros itens para camuflagem, podem fazer com que animais fiquem facilmente presos em redes de pesca como essa.

Uma das maiores ameaças à vida marinha são instrumentos de pesca como as redes, linhas, anzóis e armações perdidas ou descartadas no oceano. Acredita-se que anualmente cerca de 640 mil toneladas desses materiais flutuam no oceano, capturando, mutilando e matando centenas de animais marinhos.

Para ajudar a manter os mares limpos, saiba sempre a procedência dos alimentos que você consome. Além disso, procure sempre se informar e falar sobre o assunto, pois dessa forma você pode mudar seus hábitos de forma positiva e impactar mais pessoas sobre a problemática dos instrumentos de pesca.

Como você pode ajudar a sensibilizar pessoas sobre a poluição marinha?

Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, para sensibilizar as pessoas sobre questões ambientais não é preciso se resumir a compartilhar fatos biológicos e ecológicos sobre as espécies e a natureza, muito menos simplesmente narrar as ameaças que os ecossistemas estão sofrendo.

Aqui na Sea Shepherd, trabalhamos muito com a temática dos resíduos marinhos e sabemos que a importância da educação ambiental para evitar a geração de resíduos e promover o correto encaminhamento deles é inquestionável.

Porém, é bacana que a gente perceba como o papel de sensibilizar sobre essas questões não precisa ficar restrito aos biólogos, oceanógrafos ou outros profissionais da área ambiental.

Outras pessoas, não necessariamente da área ambiental, também podem se sentir à vontade para tornar os espaços onde já se encontram mais educadores, ao trazer para dentro deles oportunidades de engajar mais pessoas no combate à poluição marinha!

Como será que, dentro do seu dia-a-dia, seria possível contribuir para compartilhar informações, promover valores positivos e se engajar em ações práticas que ajudem a combater esse problemão que é o lixo no mar?

Quais atividades poderiam ser realizadas na sua escola, bairro ou ambiente de trabalho? 

Quem sabe repensar seus hábitos de consumo de plástico, fazendo trocas conscientes na sua rotina e dando exemplo para os demais?

Talvez visitar e conhecer mais lugares que te conectam com o mar?

Se informar sobre a cooperativa de reciclagem da sua cidade?

Acompanhar e apoiar influenciadores digitais que buscam sensibilizar pessoas para a importância dos oceanos?

Ou participar de um mutirão de limpeza na praia?

Nos ambientes que você frequenta, já tem alguém puxando essa discussão?

Mutirão de limpeza na praia

Todas essas atividades podem nos fazer refletir sobre como as nossas práticas estão alinhadas com os nossos valores, muitas vezes nos levando a ressignificar os nossos hábitos diários, em nível individual e coletivo. Só você sabe qual é, dentro da sua rotina, a melhor maneira de fortalecer a luta por mares mais limpos!

Também vale lembrar que, como a Educação Ambiental é uma área transversal, é possível abordar a questão dos resíduos marinhos em todas as disciplinas escolares – não precisa necessariamente ser papel do professor de Ciências ou de Biologia! 

É justamente por isso que não existe uma disciplina exclusiva sobre Educação Ambiental na escola. Então, se você é professor, não deixe de associar esse assunto com os conteúdos das suas aulas, seja em textos, problemas matemáticos, músicas ou atividades artísticas!

Além disso, apesar da educação ambiental ainda ser muito associada com crianças, a legislação brasileira prevê que essas atividades sejam desenvolvidas em todos os níveis, do Ensino Infantil ao Ensino Superior, acontecendo também fora da escola e da universidade, em espaços de educação não-formais (como museus, zoológicos, aquários e jardins botânicos) e informais (como o núcleo familiar, cinema, teatro, igreja, clube, local de trabalho ou meios de comunicação).

Se você tem a intenção de sensibilizar sobre a temática dos resíduos marinhos, lembre-se: É possível tornar praticamente qualquer lugar um espaço mais educador! 

O que está ao seu alcance?