Tubarão

Com apoio da Sea Shepherd Brasil, Santos bane carne de cação na merenda

Secretarias de Educação e do Meio Ambiente da cidade dão mais um passo que dá exemplo a outras cidades a favor da preservação do oceano; município é o primeiro a firmar parceria do tipo com a Sea Shepherd Brasil

A Sea Shepherd Brasil, unidade brasileira da maior organização sem fins lucrativos de proteção da vida marinha e do oceano do mundo comemora a decisão definitiva da Secretaria de Educação da cidade de Santos, cidade litorânea do estado de São Paulo, de não oferecer carne de cação na merenda escolar de todas as escolas públicas de seu município, se tornando a primeira cidade brasileira a firmar o compromisso com a organização global. Em convite de aproximação do embaixador da Sea Shepherd Lawrence Wahba, a organização apresentou fatos e dados sobre os perigos do consumo de cação no Brasil e convenceu os órgãos públicos da cidade para esta decisão que é agora oficial. 

Desde 2010, esse tipo de carne, que pode ser de tubarões e até mesmo raias, já não faz parte do cardápio da rede municipal de ensino. Anualmente, o consumo de peixes na merenda escolar da cidade é de 40 mil kg por ano, o que representa aproximadamente 440 mil kg de carne de cação que foram poupados de ser consumida pelas crianças na cidade.

Tubarão

Sofia Bonna Boschetti, nutricionista e coordenadora de Merenda Escolar da Secretaria de Educação de Santos, conta que a escolha de um produto para a merenda escolar da cidade segue uma série de critérios, dentre eles o ambiental.

“Quando pensamos na gestão da alimentação escolar temos que avaliar uma série de fatores como o nutricional, mas não podemos deixar de analisar o impacto ambiental e os resíduos que geram a nossa compra”, avalia.

Esta decisão é a partir de agora definitiva, não abrindo brechas para o retorno do cação nas merendas escolares. A medida é mais uma iniciativa da prefeitura da cidade de Santos a favor da preservação do oceano. Em novembro de 2021, a cidade foi a primeira do mundo a estabelecer a cultura de preservação dos oceanos na rede de ensino, sob a Lei Municipal nº 3.935, fato reconhecido pela UNESCO.

De acordo com Marcus Fernandes, coordenador de políticas ambientais da Secretaria de Meio Ambiente de Santos (SEMAM), a medida é essencial e se soma a outras ações do Município. “A SEMAM já realiza diversos trabalhos voltados à preservação do oceano. Traduzimos para os países de língua portuguesa a cartilha Cultura Oceânica, da UNESCO, e em parceria com o Instituto de Pesca, criamos o Programa Pesca Fantasma, sobre o descarte de petrechos. Agora, com a Sea Shepherd, ampliaremos essas ações, lembrando que estamos na Década da Ciência Oceânica”.

Nathalie Gil, diretora executiva da Sea Shepherd Brasil, comemora mais uma conquista da campanha da Sea Shepherd ‘Cação é Tubarão’, que recentemente culminou também no cancelamento do edital que previa o fornecimento de 650 toneladas de carne de cação para escolas da rede municipal de São Paulo.

“Um braço essencial da Sea Shepherd é a educação e a disseminação de conhecimento sobre questões ambientais ligadas ao oceano. O consumo de cação, além de ser extremamente danoso para o meio ambiente, também traz graves riscos à saúde de quem consome, principalmente as crianças. Nosso objetivo é que este seja um marco que dê exemplo; e que todas as prefeituras sigam o exemplo de Santos e busquem alternativas mais saudáveis e sustentáveis para a merenda escolar”, analisa.

Tubarão

Problemas da carne de cação

A bióloga Bianca Rangel, cientista da Campanha Cação é Tubarão, da Sea Shepherd Brasil, alerta para os riscos de toxicidade da carne do animal. “O tubarão, por ser um animal de topo de cadeia, se alimenta de outros diversos animais. Por meio do processo de bioacumulação, todos os agentes contaminantes, incluindo metais pesados como mercúrio e arsênio, além de pesticidas e derivados de petróleo, se acumulam na carne, sendo um alimento longe de ser saudável, ainda mais para crianças”, aponta a cientista. A OMS recomenda um limite diário de consumo de 0.5mg desses metais para uma pessoa adulta – e não recomenda para crianças ou gestantes – e estudos já revelaram a presença de mais de duas vezes essa quantia em carne do animal. Os riscos do consumo vão desde intoxicação alimentar até mesmo danos cerebrais. Porém, o edital aceita o dobro da quantidade de mercúrio por posta de cação – portanto não seguindo protocolos seguros de ingestão, principalmente por crianças.

Já em relação aos riscos ambientais, além do desequilíbrio do ecossistema marinho, pelo fato do tubarão ser um predador de topo de cadeia alimentar. A carne de cação se refere a uma grande gama de espécies, que contempla raias e tubarões, o que muitas vezes acaba incluindo o consumo de espécies criticamente ameaçadas e proibidas de comercialização, como tubarões-martelo e raias-viola. A carne de cação é vista como um subproduto do mercado de barbatanas de tubarões, altamente consumidas em alguns países asiáticos. Como a carne do animal não é de interesse para a maioria dos países, o Brasil adquire a um preço atrativo, em comparação com outros animais, o que faz com que o país seja atualmente o 1º importador e consumidor de carne de tubarão em escala mundial.

Campanha Cação é Tubarão

Lançada em 2021, a campanha CAÇÃO É TUBARÃO da Sea Shepherd Brasil visa entender como e onde os tubarões e raias estão sendo comercializados no Brasil, quais são as espécies e de onde elas estão vindo, com o objetivo de alertar a sociedade acerca desta prática e auxiliar na informação para a influência de iniciativas governamentais.

Como parte da campanha CAÇÃO É TUBARÃO, a Sea Shepherd Brasil também está implementado a condução de um estudo científico baseado na coleta de informações via ciência cidadã e análise genética e de metais pesados com o objetivo de mapear a extensão do comércio da carne de tubarões e raias pelo Brasil e finalmente identificar as espécies envolvidas nesses comércio e seus nomes regionais.

Saiba mais em nossa página sobre a campanha.
Logotipo da campanha Cação é Tubarão

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Peixes mortos em cesto

Quem vai pescar o último peixe?

Desde 2004, a produção pesqueira tem apresentado queda e em contrapartida o consumo tem aumentado, a devastação dos oceanos já é uma realidade e a pesca predatória de cardumes nos chama atenção apenas quando nos deparamos com a mudança nos preços.

Podemos começar citando a dizimação dos atuns: o atum gordo e adulto se tornou um item tão raro que passou a ser disputado em leilões. “Dos 23 estoques de atum, a maior parte foi totalmente explorada (mais de 60%), alguns estão superexplorados ou esgotados (até 35%) e só um pouco parece estar subaproveitado”, lê-se no relatório O estado dos pesqueiros e da aquacultura mundiais – 2010, divulgado em 1º de fevereiro pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

Atum morto em rede

O atum, juntamente com o bacalhau, robalo e salmão são grandes predadores marinhos e todos estão ameaçados. No passado, avistar peixes de grandes proporções era algo comum nos oceanos. Atualmente, grandes predadores são raros e esses cardumes são formados por peixes que são apenas uma sombra de seus ancestrais: quando o homem mata os maiores peixes, além de reduzir a proporção desta espécie, ele beneficia a sobrevivência de peixes menores.

O bacalhau é outro exemplo: durante séculos foi tido como principal fonte de proteína animal pela população pobre de Portugal, até a década de 80 era considerado como um alimento barato.

Os estoques de bacalhau vêm variando muito desde os anos 1950. As avaliações de estoques feitas em diferentes regiões demonstram muita incerteza em relação à quantidade sustentável de peixes disponível. Em áreas como o oeste do Mar Báltico, a Escócia e o Mar Celta, os estoques sofrem efeitos severos da sobrepesca.

O salmão é um peixe que nasce em água doce, passa a vida adulta no mar e retorna ao rio onde nasceu para procriar e morrer. A construção de barragens, hidrelétricas e a poluição dos rios dizimaram quase todas as subespécies de salmão.

“A primeira subespécie a desaparecer foi o salmão do nordeste brasileiro, ainda nos anos 1970”, diz o jornalista e pescador americano Paul Greenberg, autor de Quatro peixes – O futuro do último alimento selvagem. “Tudo começou com a extinção do salmão brasileiro”, diz.

Em seguida foi a vez das subespécies ibérica, francesa, inglesa, nórdica, americana do Atlântico, californiana e canadense. Hoje, a última subespécie selvagem sobrevivente é o salmão do Alasca. Atualmente, quase todo o salmão consumido no mundo é criado em fazendas na Escandinávia e no sul do Chile.

Salmão ferido

Desde 2004, quando atingiu o recorde de 84 milhões de toneladas de peixe extraídas dos mares, a produção cai ano a ano. Em 2009, apesar do aumento na frota pesqueira, o volume pescado ficou em 79,9 milhões de toneladas segundo o relatório da FAO. Enquanto isso, o consumo de peixe só cresce: em 2004, a humanidade devorou 104 milhões de toneladas e em 2009, foram 118 toneladas. Em 2016, a captura global de pescado atingiu 90,9 milhões de toneladas, com mais de 87% do volume proveniente dos oceanos. Os líderes mundiais em captura são China, Indonésia, Estados Unidos, Rússia e Peru.

As estatísticas de pesca vêm avançando lentamente e não refletem a realidade de sobrepesca, em que frotas industriais vêm buscando cada vez mais regiões, até então inexploradas, para acessar novos estoques e dar conta da crescente demanda mundial. Os dados mais recentes disponíveis mostram que, de 2012 a 2016, pelo menos 55% dos oceanos foram utilizados para prática de pesca. Esta área corresponde a quase quatro vezes a área usada para agricultura em terra e continua a aumentar ano após ano. Esse cenário afeta diretamente a pesca artesanal – com estoques reduzidos, os pescadores têm que ficar mais tempo no mar para conseguir capturar a mesma quantidade de pescado, trabalhando em condições cada vez mais precárias e expondo-se a mais riscos. Com menor capacidade de locomoção, estes trabalhadores também têm menos capacidade de conservação do pescado, o que compromete a qualidade do produto e sua competitividade, fragilizando ainda mais a categoria.

O declínio da pesca marítima é irreversível, a não ser que se estabeleça uma suspensão mundial, dando tempo para a recomposição dos cardumes. A medida, embora sensata, seria impensável. Caso a suspensão fosse aplicada, 40 milhões de pessoas que trabalham e dependem da pesca perderiam sua fonte de sustento.

Uma pesquisa realizada em 2017 com consumidores de todo o país revelou que, apesar de mais de 90% dos brasileiros consumirem peixe, a grande maioria (59,2%) o faz apenas a cada 15 dias, mensalmente ou em ocasiões especiais. A pesquisa, divulgada pelo Comitê Gestor da Semana do Peixe, mostra que boa parte dos brasileiros evita comprar pescado porque considera o preço alto ou por falta de costume. Apesar de o consumo interno estar abaixo da média mundial, o Brasil ocupa posição de destaque nas importações de pescado na América Latina, com um grande potencial de crescimento no segmento. Isto gera pressão sobre os ecossistemas marinhos e espécies de pescados brasileiros. Por este motivo, o cenário pesqueiro nacional demanda bastante atenção, principalmente pelas práticas pouco responsáveis e pela falta de uma gestão pesqueira eficiente.

O cenário da pesca no Brasil não tem sido animador. Atualmente, estima-se que 80% dos recursos pesqueiros do País estão sendo explorados além de sua capacidade natural de regeneração. Em outras palavras, peixes e outros frutos do mar estão sendo capturados em uma taxa superior à que conseguem se reproduzir, o que pode levar a um colapso da pesca no Brasil.

Ter informações confiáveis sobre o estado das populações selvagens é necessário para uma gestão da pesca eficaz. No caso do Brasil, esse é um obstáculo ainda maior, visto que em nosso país não existe coleta sistemática de dados de pesca por parte do governo desde 2009. Logo, é possível que estejamos extinguindo espécies sem nem sequer termos conhecimento disso além do comprometimento da eficiência de todos os outros pontos da gestão pesqueira.

Fontes de Pesquisa: 

  • EcoDebate, 09/03/2011
  • Reportagem de Peter Moon, na revista Época, n.665
  • “The State of World Fisheries and Aquaculture 2010”, National Geographic e Sea Around Us
  • Guia de Consumo Responsável de Pescado no Brasil – WWF, 2019

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Tubarão

Tubarões não são assassinos. Pessoas que matam tubarões são.

Quando se trata de causas de morte, os tubarões estão longe de ser os principais causadores, ficando no final dessa lista.

Texto do fundador da Sea Shepherd, Capitão Paul Watson

Tubarões

Suas chances de morrer em um carro, ser baleado na rua, ser atingido por um raio ao jogar golfe, escorregar na banheira ou morrer de intoxicação alimentar em um restaurante são muito maiores.

No quesito reino animal, há muitos outros animais (especialmente os mosquitos) que são mais prováveis de atacar e matar um ser humano do que um tubarão. Ainda assim, nenhum animal é mais perigoso do que o animal humano.

Então, por que toda a histeria sobre os tubarões?

Os três principais culpados são: 1) a mídia; 2) políticos oportunistas; e 3) surfistas desavisados e pescadores com arpão.

A mídia começou a difamar os tubarões com aquele filme abominável de Steven Spielberg, Tubarão. Esse filme semeou dezenas de filmes B anti-tubarão e levou a retratos imprecisos e demonizantes de tubarões na televisão.

Os políticos, sempre rápidos em controlar os medos do público, aproveitam a histeria como uma forma barata de se fazerem parecer como defensores dos seus cidadãos mais crédulos contra monstros. Essa forma de comportamento dos políticos remonta aos dias da matança de dragões e até mesmo às cruzadas contra os lobos.

E agora temos os balidos covardes de uma minoria muito pequena de surfistas que querem que os tubarões sejam eliminados, então eles não precisam se preocupar com o fato de que suas pranchas e seu comportamento tendem a atrair os tubarões já que se parecem com comida desses animais, focas por exemplo. Da perspectiva de um tubarão sobre a superfície, um surfista em uma prancha definitivamente se parece com uma foca.

Os verdadeiros surfistas não são o problema. Eles entendem a situação e percebem que quando alguém se aventura no mar, é bom tomar alguns cuidados, como não surfar em áreas em determinada época do ano ou hora do dia em que os tubarões procuram comida. Também não usam relógios brilhantes, maiôs ou pranchas brancas.

Quanto aos pescadores com arpão, o peixe morto, recém arpoado, pode ser um ímã para os tubarões, que procuram presas fáceis.

O verdadeiro milagre de tudo isso é quão poucos ataques de tubarão realmente acontecem, considerando as dezenas de milhões de pessoas que surfam, nadam, pescam e mergulham no mar.

A razão para isso é que os tubarões simplesmente não atacam naturalmente os seres humanos e a maioria dos ataques de tubarão são simplesmente casos de identidade equivocada.

E por causa disso, o surfe e a pesca submarina são na verdade mais seguros do que jogar golfe, onde mais jogadores morrem a cada ano por causa da queda de raios no campo do que surfistas por ataques de tubarão.

Eu nadei, surfei e mergulhei com tubarões, incluindo tubarões-brancos, tubarões-martelo, tigres, touros e azuis, entre outros. Nunca fui ameaçado. Eu tive tigres em volta de mim e grandes brancos me lançaram um olhar curioso, mas nenhuma vez eu senti que minha vida estava em perigo.

Mergulho em rota de tubarões. Foto: Kadu Pinheiro

Mas, mesmo que fosse, compartilho da posição que meu amigo Kelly Slater mantém, de que o mar é o lar dos tubarões e não cabe a nós invadir e depois reclamar. 

Pois a verdade é que os tubarões são essenciais para a saúde e o bem-estar dos ecossistemas oceânicos. Precisamos de tubarões para manter essa saúde e bem-estar, pois a perda do tubarão em nosso oceano terá consequências muito graves e essas consequências impactarão negativamente a humanidade.

Por que houve um ligeiro aumento nos ataques de tubarão nos últimos anos? 

As razões são muitas e quase todas causadas pelo homem. A Austrália Ocidental envia centenas de milhares de ovelhas e vacas vivas para a Ásia todos os anos e essas embarcações de gado derramam sangue, urina e fezes nas águas e atiram centenas de corpos de animais mortos também ao mar, atraindo tubarões. As pessoas costumam ignorar os avisos nas praias. E provavelmente o fator mais significativo de todos é que os humanos estão esgotando os peixes do oceano e isso está fazendo com que os tubarões se aventurem em direção à costa em busca de comida; ainda assim, o número de ataques de tubarões é notavelmente baixo.

A maioria dos ataques de tubarão resulta da ignorância humana e da degradação dos ecossistemas oceânicos. Logo, o problema não está no tanto que tubarões matam pessoas. O problema são pessoas ignorantes que matam tubarões.

Texto do fundador da Sea Shepherd, Capitão Paul Watson

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Tubarão morto sobre poça de sangue

Manifestação contra a compra de 650 toneladas de carne de cação para a merenda em escolas públicas pela Prefeitura de São Paulo

Manifestação contra a compra de 650 toneladas de carne de cação para a merenda em escolas públicas pela prefeitura de São Paulo

No dia 10 de novembro de 2021, a Prefeitura de São Paulo realizou um leilão que visa a compra de mais de 650 toneladas de carne de cação congelada, em cubos e sem pele, destinada ao abastecimento das unidades educacionais vinculadas ao Programa de Alimentação Escolar (PAE). Estudos apontam que 70% das pessoas não sabem que o ‘cação’ é carne de tubarão – e muitas vezes, este é vindo de fora do país, sem fiscalização que garanta sua origem. Com isso, além de sérios riscos à saúde, como a ingestão de carnes que podem ser altamente tóxicas, o consumo da carne dita de “cação” pode causar graves danos ambientais, como colocar em risco espécies em extinção como tubarões-martelo e raias-viola, causando também o desequilíbrio do ecossistema.

Em repúdio ao edital, a carta abaixo foi enviada ao departamento de licitação da Secretaria da Educação da Prefeitura de São Paulo no início da noite do dia 10 de novembro de 2021. 

Neste cenário, o Instituto Sea Shepherd Brasil, organização da sociedade civil sem fins lucrativos que tem como foco a conservação marinha e de todos animais que habitam o oceano, vem a público se manifestar sobre o Edital de Pregão Eletrônico n° 75/SME/2021 Processo Eletrônico nº 6016.2021/0062237-5

Considerando que:

  • A carne de tubarões apresenta altas concentrações de metais e outros contaminantes tóxicos, como mercúrio e arsênio, substâncias que, quando ingeridas, podem causar danos à saúde, como no desenvolvimento neural de crianças. Isso porque esses animais ocupam altas posições tróficas na cadeia alimentar marinha, e acumulam essas substâncias tóxicas ao longo da vida; 
  • Um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública em 2008, demonstra que, em amostras de tubarão-azul (Prionace glauca), espécie de tubarão mais pescada e consumida no Brasil, os índices de mercúrio excederam em mais de duas vezes o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS); 
  • A Food and Drug Administration (FDA), agência federal americana (equivalente à ANVISA no Brasil), não recomenda a inclusão de tubarão no cardápio de grávidas, de mulheres que estejam amamentando e de crianças, seja em que quantidade for;
  • Tubarões são caracterizados por história de vida conservativa, por exemplo, baixa fecundidade, maturação sexual tardia, crescimento lento, alta longevidade, longos períodos de gestação (e geracionais), fidelidade a certas áreas e formação de agregações reprodutivas, conjunto de características que confere às populações, baixo potencial de reposição em caso de mortalidades excedentes ou aquelas ocorridas por causas não naturais;
  • No Brasil, a carne de cação comercializada trata-se de uma sub-rotulagem para carne de diferentes espécies de tubarões, incluindo espécies ameaçadas de extinção.
  • Em 2021, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) reportou que 1/3 da fauna global de elasmobrânquios (grupo que inclui tubarões e raias) está ameaçada de extinção;
  • Em 2018, o Instituto Chico Mendes para Conservação da Biodiversidade (ICMBio) considera que das 93 espécies de tubarões avaliadas no Brasil, aproximadamente 40% das espécies de tubarão encontram-se ameaçadas de extinção e 22% não possuem dados suficientes para serem avaliados;
  • Em 2019, a produção de tubarões no estado de São Paulo, segundo informações do Portal PropesqWeb (Instituto de Pesca/PMAP-SP), esteve em torno de 249.514,47 kg, devendo-se considerar que existe pouca (ou baixíssima) resolução taxonômica, onde a maioria das espécies é agrupada em grandes categorias que não permitem a identificação em nível específico;
  • No Brasil não existem estatísticas nacionais desde pelo menos 2007 e deve ser considerado que, excepcionalmente para elasmobrânquios, as estatísticas nacionais são deficientes há décadas (não diferenciam espécies na maioria das unidades da federação);
  • O controle do esforço pesqueiro, monitoramento de desembarques e eventuais cotas de captura, bem como a fiscalização eficiente sempre se apresentaram como grandes desafios para manejo e conservação adequados de recursos pesqueiros, principalmente de elasmobrânquios (não existe coleta sistemática de dados desde 2006; agências de fiscalização não têm corpo efetivo);
  • A Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura do Município de São Paulo (SME) torna público, processo de Licitação (Edital de Pregão Eletrônico n° 75/SME/2021, Processo Eletrônico nº 6016.2021/0062237-5) que tem por objeto a aquisição de PEIXE CONGELADO – CAÇÃO EM CUBOS SEM PELE (Lote 1 – 9.050 kg/mês com limite total de uso da Ata estimado em 162.900 kg  e Lote 2 – 27.150 kg/mês com limite total de uso da Ata estimado em 488.700 kg), destinado ao abastecimento das unidades educacionais vinculadas aos sistemas de gestão direta e mista do Programa de Alimentação Escolar (PAE) do Município de São Paulo;

Insta que:

  • O Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Educação (SME) promova imediatamente o cancelamento do Edital de Pregão Eletrônico n° 75/SME/2021, Processo Eletrônico nº 6016.2021/0062237-5, sobre aquisição de peixe congelado – cação em cubos sem pele, destinado ao abastecimento das unidades educacionais vinculadas aos sistemas de gestão direta e mista do programa de alimentação escolar (PAE) do município de São Paulo.

Adendo – Importante adicionar:

  • A Food and Drug Administration (FDA), agência federal americana (equivalente à ANVISA no Brasil), exige menos de 0,5 mg de mercúrio por kg deste tipo de carne para adultos, e o edital em questão aceita o dobro desta quantidade, limitando a até 1,0 mg por kg desta carne.
  • Não está claro no edital se a venda será focada em fornecimento de importados ou produção nacional. Como este edital é aberto a grandes empresas, cooperativas e pequenos produtores, pode ser estendido para este fim. Com o conhecimento da problemática de a importação de elasmobrânquios no Brasil não exige classificação de espécie ou rastreio total da pesca, esta compra pode ser feita de produtos oriundos de pesca industrial internacional de barbatana de tubarão, assim como de espécies classificadas como em risco de extinção de acordo com a classificação internacional da IUCN.

Esta carta é acompanhada por um abaixo-assinado aberto dia 9 de novembro de 2021 às 20:00, convidando cidadãos brasileiros que apoiam esta manifestação. Última atualização em 10 de novembro de 2021 às 18:33 com 1.633 assinaturas.

Ainda, esta carta foi elaborada como uma decisão do ISSB em conjunto com a SBEEL – Sociedade Brasileira para o Estudo de Elasmobrânquios, que reúne especialistas das áreas acadêmica e técnica de institutos de pesquisas, universidades públicas e privadas, sociedade civil, órgãos governamentais, agências de fomento e setores da cadeia produtiva, todos devotados ao estudo dos mais variados aspectos da biologia destes animais com o objetivo de gerar subsídios à implementação de políticas públicas que visem manejo e conservação – levando em consideração todos os pontos técnicos dos especialistas da SBEEL e Instituto Sea Shepherd Brasil.

 

Empresa indiciada a pagar multa de R$1 mi por arrancar a barbatana de 36 mil tubarões

Ação civil pública movida em maio de 2009 pelo Instituto Sea Shepherd Brasil, juntamente com mais duas organizações não governamentais, levou à inédita condenação de empresa pela prática cruel e predatória.

Em ação civil pública movida em maio de 2009 pelo Instituto Sea Shepherd Brasil, juntamente com mais duas organizações não governamentais, o Juízo da 1ª Vara Federal de Rio Grande/RS condenou de forma inédita a empresa pesqueira Dom Matos Comércio de Pescados e Resíduos Ltda, sediada em Rio Grande/RS, pela prática do finning.

Foto: Arquivo

O caso começou em 2008, quando o Batalhão de Polícia Ambiental da Brigada Militar e o IBAMA autuaram em flagrante a empresa pesqueira Dom Matos Comércio de Pescados e Resíduos Ltda, pelo processamento e comercialização de 3,3 toneladas de barbatanas de elasmobrânquios. As barbatanas pertenciam a espécies marinhas seriamente ameaçadas de extinção, sendo elas o cação-anjo, a cação-cola-fina e a raia-viola. Pela quantidade de barbatanas, estima-se que cerca de 36 mil exemplares foram abatidos. A empresa estava também com sua licença vencida.

O finning, como é conhecida a pesca de tubarões para a retirada das barbatanas, é responsável pela morte de mais de 100 milhões de tubarões por ano no mundo.

O valor da condenação supera R$ 1 milhão de reais em razão do grave dano ambiental causado, valor este que deverá ser corrigido desde 2008 – data do fato – em decorrência do armazenamento, beneficiamento e comercialização ilegal das barbatanas. A empresa pesqueira ainda pode recorrer da sentença mas a multa já foi aplicada. Vale dizer que esta é a primeira ação judicial movida no Brasil contra a prática do finning.

A notícia desta condenação inédita no Brasil demonstra que estamos no caminho certo e nossos esforços não são em vão. Porém há ainda muito a fazer para a proteção dos tubarões no Brasil e no mundo.

CAÇÃO É TUBARÃO

A Sea Shepherd tem lutado contra a dizimação das populações de tubarões e arraias em todo o mundo desde o início da organização.

Anualmente, mais de 100 milhões de tubarões são mortos, o que já dizimou 90% da população mundial desses peixes. No Brasil, cerca de 43% das espécies de tubarão estão ameaçadas de extinção. No ritmo atual, muitas espécies estarão extintas em menos de dez anos.

O Brasil é o maior consumidor e importador de carne de tubarão do mundo. Apesar disso, poucos brasileiros sabem que estão contribuindo com esta matança, pois os consome sob o nome de ‘cação’. Indústrias de comércio de barbatana têm visto o país como uma ‘lavanderia’ para legalizar suas práticas insustentáveis. Para agravar a situação, não é exigida a rotulagem correta e as espécies são vendidas como ‘cação’, fazendo com que espécies criticamente ameaçadas – como os tubarões-martelo e raias-viola – sejam livremente comercializadas.

 

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Logotipo da campanha Cação é Tubarão

A campanha Cação é Tubarão, lançada em julho de 2021, busca entender como e onde os tubarões e raias estão sendo comercializados no Brasil, quais espécies e de onde elas estão vindo, alertar a sociedade acerca desta prática e cobrar que medidas governamentais imediatas sejam tomadas.

Viu ‘carne de cação’ à venda no mercado, feira, peixaria ou aplicativo de entrega de comida? Faça uma foto e nos envie o registro por meio deste formulário.

Saiba mais na página da campanha: https://seashepherd.org.br/cacao-e-tubarao/

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