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Nem tudo é o que parece: a hiperestabilidade da tainha

O fenômeno da hiperestabilidade nos induz a pensar que há muita tainha no mar, ampliando a pesca de maneira insustentável. Saiba mais abaixo!

Sabia que o Brasil tem uma das maiores pescarias de tainha (Mugil liza) do mundo?

Todos os anos, pescadores artesanais e frotas industriais se mobilizam para pescar milhares de toneladas de tainhas na região sul e sudeste do Brasil.

Também chamada de “safra da tainha”, essa atividade acontece normalmente entre maio e julho. Nessa época, as tainhas se juntam em grandes cardumes para migrar pela costa brasileira. Assim, esse comportamento natural também favorece a captura de uma grande quantidade de indivíduos ao mesmo tempo, tornando a espécie muito vulnerável à pesca.

No entanto, existe um motivo pelo qual as tainhas se agrupam: o período de reprodução, que é a razão por trás da migração. Inclusive, com a captura das fêmeas cheias de ovas (vendidas sob o nome de bottarga e muito valorizadas no mercado exterior), muitos filhotes nunca nascem.

Inclusive, além de ser pescada em plena época de reprodução, a tainha também é capturada tanto na fase juvenil (em lagoas e estuários) quanto na fase adulta (no oceano). Por fim, a espécie demora muito para atingir a maturidade sexual e conseguir se reproduzir. Assim, todos esses fatores contribuem para aumentar a sua vulnerabilidade às atividades pesqueiras.

A pesca da tainha acontece justamente durante o período reprodutivo, o que prejudica o equilíbrio das populações. Inclusive, suas ovas são vendidas como uma iguaria. Foto/Reprodução: Tainha (Mugil liza) na praia do Cassino (Rio Grande – RS), em 14 de maio de 2022. Foto tirada por Vinicius Domingues – INaturalist.

Hiperestabilidade, um perigo silencioso

Além de todas essas questões, existe mais um perigo escondido: podemos estar subestimando a diminuição dos estoques de tainha por erros de cálculo, causados por um fenômeno chamado hiperestabilidade!

Em resumo, a hiperestabilidade ocorre quando se explora espécies que formam grandes cardumes. Por conta dela, há uma aparente estabilidade – ou até aumento! – do rendimento da pesca, mesmo quando a abundância populacional está sendo reduzida.

Na prática, acontece assim: com a sobrepesca, o número de indivíduos nos cardumes reduz. Então, os animais restantes vão se reunindo em cardumes cada vez maiores e mais densos. Assim, aumenta a taxa de capturabilidade da espécie, refletindo no sucesso da produção pesqueira. Porém, apesar do número de peixes do cardume aumentar… a população total está diminuindo!

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O esquema acima explica como funciona o comportamento de hiperestabilidade da tainha, e a influência desse fenômeno para a sobrepesca que, por sua vez, alimenta o ciclo. Imagem: Sea Shepherd Brasil.

Ora pois, veja o caso da hiperestabilidade do bacalhau

Inclusive, vale lembrar que a hiperestabilidade não é uma exclusividade da tainha. Para muitas outras espécies que formam grandes cardumes, conforme se removem indivíduos da população, os grupos tendem a se tornar mais densos. Então, a pescaria se mantém constante ou até aumenta… apesar da população estar diminuindo!

De fato, isso acontece com alguns peixes amazônicos… e até mesmo com o famoso bacalhau, velho conhecido das festividades cristãs. Aliás, foi por conta da hiperestabilidade que uma das espécies de bacalhau acabou em risco de extinção, já que se utilizava a quantidade de peixe capturado para calcular a população estimada da espécie!

Por exemplo, em 1999, pesquisadores já demonstravam que mudanças na distribuição do bacalhau do norte (Gadus morhua) influenciaram os valores de capturabilidade (que é a proporção entre a captura e a abundância da espécie) em pescarias do Canadá, levando ao declínio da espécie.

O que eles descobriram é que, apesar do número de indivíduos estar diminuindo, os valores de captura se mantiveram elevados (hiperestáveis). A verdade é que eles não refletiam a abundância da população como um todo – e, sim, das densidades locais!

Esse erro induziu cientistas, gestores e indústria pesqueira a acreditarem que o estoque de bacalhau estava saudável – quando, na verdade, estava totalmente sobrepescado!

Além disso, diversos outros estudos demonstram que a captura pode permanecer alta, mesmo em situações em que as populações estão em declínio (Rose & Kulka, 1999; Harley et al., 2001; Sadovy & Domeier, 2005; Erisman et al., 2011).

Moral da história: nem tudo é o que parece! E, quando as aparências enganam, estamos pescando no escuro… enquanto comprometemos a saúde dos ecossistemas marinhos. Será que é a história do bacalhau irá se repetir com nossos cardumes de tainhas?

Tainhas do sul e sudeste: cardumes em declínio

De acordo com a avaliação de estoque da tainha, um estudo aprofundado sobre a população da espécie, os cardumes das regiões Sul e Sudeste do país estão em declínio desde 2009, com população abaixo do esperado. Além disso, a captura dos últimos anos esteve acima da capacidade de reposição da espécie. 

Ainda, a sobrepesca e a exploração da espécie em fases reprodutivas torna os números de indivíduos maduros cada vez menores. Para piorar, faltam estudos conclusivos sobre o estado de conservação desse animal.

Além disso, em 2019, um estudo da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) ressaltou que a condição atual do estoque de tainha já é de sobrepescada (ou seja, sua biomassa é menor que o necessário para manutenção do estoque). O estudo também reforça que há evidências de que o estoque siga sofrendo sobrepesca, com taxas de exploração maiores do que o estoque pode suportar.

Assustadoramente, a tainha é uma das únicas 3três espécies alvos de pescaria que possui avaliações de estoque atualizadas. Como essa é uma informação fundamental para se criar um plano de gestão de pesca, podemos dizer que seguimos pescando a maioria das espécies sem a menor clareza do impacto que essa atividade pode ocasionar em nossas águas – tanto do ponto de vista econômico quanto do ambiental.

Um mar de impactos socioambientais

Na prática, toda pescaria deveria respeitar, no mínimo, as teorias de Ecologia de Populações, que é a área da Biologia que estuda as interações entre grupo de indivíduos da mesma espécie e seu ambiente.

Em geral, para estimar a dimensão dos estoques, se analisa a capturabilidade de cada espécie. Porém, como esse fator frequentemente é considerado como um número “constante” nos cálculos, a situação pode se agravar ainda mais nas espécies que apresentam hiperestabilidade. Assim, a forma de calcular induz à avaliações equivocadas – tanto do potencial de pesca, quanto da conservação das populações no oceano!

Além da redução drástica do número de tainhas, gerando um intenso impacto econômico, é simplesmente impossível mensurar o impacto ambiental e ecossistêmico que a diminuição nesses cardumes causaria nos estuários e no oceano.

Embora existam ferramentas de gestão da pesca, ainda retiramos das águas mais peixe do que a natureza consegue recuperar. Foto/Reprodução: Tainha (Mugil liza) capturada em rede na praia de Navegantes – SC, em 22 de maio de 2022. Foto tirada por Luis Funez – INaturalist.

Recomendações da ciência

Com base nesse Plano de Gestão, o estabelecimento de cotas de captura foi uma das medidas implementadas para minimizar a sobrepesca. No entanto, ainda é muito difícil entender como essas cotas devem ser aplicadas e por quanto tempo para oferecer proteção à espécie.

No documento, é possível encontrar uma seção de prognóstico, onde diversos cenários de conservação são analisados. Um deles indica que, caso a pesca se mantenha no rimo atual, estará acima do nível de sustentabilidade, levando a um possível colapso da tainha. Ainda de acordo com o documento, além de gerar elevados prejuízos em todos os níveis no médio prazo, a espécie poderia acabar entrando na lista nacional de ameaça de extinção.

O plano ainda explica que, atualmente, a tendência é de declínio populacional, especialmente em decorrência do aumento insustentável da produção na última década. Além disso, existe o eminente risco de colapso da população em função da pescaria ocorrer no momento mais vulnerável do ciclo de vida da espécie, que é a agregação reprodutiva.

Por fim, o documento reitera que a reduzir o esforço de pesca, tanto em mar aberto quanto nos estuários e lagoas, é condição indispensável para conservar a população de tainhas, além de ser recomendável proteger o animal em momentos críticos do seu ciclo de vida.

As recomendações também incluem não prejudicar o sucesso da desova da espécie – o que tem ocorrido rotineiramente, como já explicamos lá no início do texto. Além disso, a manutenção das medidas atuais de captura foi desencorajada pelos especialistas, já que indicavam agravamento da condição ou possível colapso das populações.

Essas informações podem ser conferidas no resumo da Avaliação de Estoque da Tainha na região Sul do país (ou, se preferir, faça a leitura na íntegra).

O caminho da precaução

Então, embora exista um Plano de Gestão da pesca da tainha, o próprio documento já indica que seguimos retirando das águas mais peixe do que a natureza consegue recuperar – e que isso pode causar o colapso da tainha antes que possamos fazer algo a respeito. De fato, a pesca já tirou da natureza mais de 70% da população de tainhas na região Sul do Brasil.

Além disso, a espécie Mugil liza já constava na categoria “quase ameaçada” de extinção da lista do Ministério do Meio Ambiente de 2018. Isso significa que, apesar de ainda não estar ameaçada de extinção, pode estar próxima de mudar de categoria.

Por fim, internacionalmente, essa espécie consta na categoria de “dados insuficientes” – ou seja, ainda não temos informações de conservação suficientes para saber como está a população de tainhas de forma global.

Por isso, considerando tantas informações que nos alertam sobre o colapso da espécie… será que não é hora de repensar o consumo da tainha? Mudando seus hábitos, você ajuda a proteger uma espécie vulnerável à uma pesca intensa e permeada por diversas falhas de gestão, justamente em seu período reprodutivo. Que tal contribuir com essa causa?

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