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A crueldade como negócio: a verdade por trás de aquários e zoológicos

Apoiando-se no discurso de conservação, zoológicos e aquários escondem um modelo de exploração animal para entretenimento para justificar sua educação e ciência. Entenda como funcionam, por que perpetuam o sofrimento e quais são as alternativas mais éticas.

A ursa Aurora no aquário de São Paulo

A ursa Aurora no aquário de São Paulo

Prisioneiros disfarçados de atrações

Imagine viver a vida inteira em confinamento. Sem sentir o vento, sem escolher seu espaço, sem conviver com seus semelhantes por vontade própria. Agora, aplique isso a uma orca, a um urso polar, a um lobo marinho ou a um golfinho. Essa é a rotina de milhares de animais em zoológicos e aquários ao redor do mundo.

Um caso simbólico aconteceu recentemente no Brasil: o nascimento da filhote de urso polar Nur, em 2024, no Aquário de São Paulo. A história foi promovida como uma vitória da conservação — mas basta olhar mais de perto para perceber que o nascimento serviu como peça publicitária. A escolha da data da primeira exibição pública de Nur, 27 de fevereiro de 2025, coincidiu com o Dia Internacional do Urso Polar. Posteres com Nur e a aurora boreal de fundo, algo que ela nunca vai experienciar. Um símbolo poderoso, mas vazio de compromisso com a natureza.

A trajetória de Nur foi planejada desde antes do nascimento: após crescer e se tornar atraente para o público, será transferida para outro aquário, com o objetivo de se reproduzir. Esse padrão se repete mundo afora — como um circuito fechado de lucro contínuo às custas de vidas privadas de liberdade desnecessariamente.

Aurora e sua filhote Nur no aquário de São Paulo

Aurora e sua filhote Nur no aquário de São Paulo

A falácia da conservação em cativeiro

Zoológicos e aquários utilizam o discurso da conservação como escudo ético. Alegam que suas estruturas ajudam a preservar espécies ameaçadas, garantindo diversidade genética. No entanto, as estatísticas revelam o oposto: 

Os investimentos globais em conservação da biodiversidade que vêm dessas instituições são baixíssimos – Dados da WAZA (World Aquarium and Zoo Association) mostram que estas instituições investem anualmente cerca de US$ 350 milhões em ações de conservação da biodiversidade, enquanto o total dos investimentos globais para este fim (que também são insuficientes) é de até US$ 143 bilhões, segundo relatório da The Nature Conservancy. Ou seja: a contribuição financeira de aquários e zoológicos para a conservação da biodiversidade é de ínfimos 0,24%.

A WAZA também informa que mais de 700 milhões de visitas são feitas a zoológicos e aquários anualmente – que significa que apenas US$0.50 de cada ingresso vendido é direcionado para a conservação.

Peregrino, o genitor da filhote Nur, no aquário de São Paulo.

Peregrino, o genitor da filhote Nur, no aquário de São Paulo.

Além disso, 73% dos animais mantidos nesses recintos são de espécies que não estão ameaçadas de extinção, segundo relatório publicado em 2021 pela Born Free Foundation. Estes animais estão lá por um motivo simples: atraem público, são populares. Enquanto isso, anfíbios – o grupo mais ameaçado do planeta – raramente são encontrados nesses espaços, e quando são, estes optam pelos mais visualmente interessantes, não os mais ameaçados. Os animais escolhidos são aqueles de maior apelo visual, e não os de maior risco de extinção – deixando claro que a lógica por trás das vitrines é frequentemente a de mercado, não a de preservação.

A indústria do cativeiro é bilionária. Globalmente, os cerca de 1.400 zoológicos e aquários ligados à WAZA movimentam bilhões anualmente, sob a narrativa de que parte disso sustenta a conservação. Apenas a United Parks & Resorts (anteriormente SeaWorld Entertainment) faturou US$ 1,725 bilhões em 2024, segundo o reporte financeiro da empresa, gerando um EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de US$ 700 milhões. O valor destinado à conservação, reportado pela própria SeaWorld como acumulado de 2002 a 2022, é de cerca de US$ 20 milhões – conforme comunicado em celebração aos 20 anos da corporação. Veja bem: o investimento histórico em conservação feito por uma das maiores corporações de cativeiro do mundo, e grande conhecida em investir em conservação, durante 20 anos de operação, corresponde a apenas 3% de seu lucro de apenas um ano.

Na prática, a esmagadora maioria dos lucros financia infraestrutura, marketing, expansão e folha de pagamento (onde pequena parcela é composta por especialistas). Os valores alocados diretamente à conservação de espécies em seu habitat natural são residuais. Um ingresso de R$ 150, como o do Aquário de São Paulo, se seguissse padrões médios de destinação à conservação, estaria destinando cerca de R$10 à preservação real (6,6% do ingresso), segundo publicação que analisou práticas de investimento em conservação por parte de zoológicos. Enquanto todo o restante do valor seguiria alimentando a exploração. Porém, não temos dados publicados de quanto deste valor é realmente destinado.

Procriação planejada: um ciclo de exploração

A reprodução em cativeiro é muitas vezes apresentada como “projeto de conservação ex situ (fora do habitat do animal) para obtenção de pool genético”. Porém, há desproporcional interesse de manter os animais atraentes para o público em detrimento de animais em risco de extinção (ISIS Species 360, 2017), e mesmo quando se fala de reprodução de animais em risco, boa parte das vezes não há a intenção real de reintrodução desses ou outros indivíduos na natureza. A maioria dos nascimentos serve para o ciclo de renovação de atrações (Milstein, 2009).

Por outro lado, a reprodução em cativeiro é algo que centros de resgate e manutenção à fauna somente fazem se este estiver atrelado a claro programa de recuperação, pois claramente não é nada vantajoso fazê-lo para nenhuma outra agenda, já que é custoso e o espaço poderia ser priorizado para outros animais necessitando de resgate. Casos legítimos de reprodução com foco em reintrodução — como o do condor da Califórnia ou o cavalo de Przewalski — são exceções, geralmente lideradas por projetos de conservação especializados in situ, e com altos financiamentos governamentais, e a cadeia de zoológicos colaboram aos projetos, assim como outros santuários, mas de nenhuma forma estes dependem exclusivamente de um formato de negócio de cativeiro para entretenimento para terem acontecido.

Os filhotes, como Nur, são transferidos entre instituições mediante acordos, empréstimos ou trocas. Em alguns casos, como documentado em zoológicos, animais saudáveis são sacrificados quando excedem a capacidade ou deixam de ser atrativos – como o caso da girafa Marius que, apesar de saudável, foi sacrificada em frente ao público no zoológico de Copenhague, em 2014, por seus genes já estarem bem representados na população de girafas de cativeiro na Europa.

Mesmo nas reais tentativas de reintrodução in situ, o histórico é desanimador: estudos recentes apontam um aumento na taxa de sucesso dos programas de translocação dependentes de reprodução ex situ (em cativeiro), que atualmente variam entre 42% e 72%, dependendo do grupo taxonômico (Schwartz et al., 2017; Berger-Tal et al., 2019). No entanto, tais resultados permanecem consistentemente inferiores às translocações realizadas diretamente com indivíduos capturados na natureza (Rummel et al., 2016; Morris et al., 2021). Translocações utilizando animais selvagens apresentam taxas de crescimento populacional positivas, enquanto aquelas com animais criados em cativeiro frequentemente apresentam crescimento negativo, resultado de uma alta mortalidade inicial após a liberação devido à baixa capacidade desses indivíduos em adaptarem-se rapidamente ao ambiente selvagem (Rummel et al., 2016; Morris et al., 2021).

Estudos indicavam que historicamente essas taxas eram extremamente baixas, chegando a apenas 11% antes dos anos 1990 (Beck, B., 1995). Estes vêm melhorando nas últimas décadas (Berger-Tal et al., 2019), e ainda estão na casa das somente centenas de projetos. Os programas ex situ, porém, apresentam grande variabilidade e resultados menos previsíveis, especialmente em curto prazo (Rummel et al., 2016). Para aumentar as chances de sucesso, é necessário um compromisso significativo em termos de tempo e recursos financeiros, com projetos que liberem indivíduos criados em cativeiro por longos períodos (10 a 30 anos), algo que necessita de contribuição sólida e a longo prazo (Rummel et al., 2016), o que raramente é feita por recusros de cativeiro.

Esses fatores lançam dúvidas sobre o real custo-benefício e a eficácia geral dos projetos ex situ conduzidos por zoológicos e aquários, em contraste com técnicas in situ e planos governamentais de conservação a longo prazo, que seguem sendo predominantes e com maior eficácia comprovada (Schwartz et al., 2017; Morris et al., 2021). Além disso, permanece significativa a falta de transparência sobre o financiamento desses programas, com menos de 3% dos estudos acadêmicos mencionando claramente suas fontes financeiras, muitas vezes envolvendo subsídios governamentais que inclusive pagam aos zoológicos e aquários pelo fornecimento dos animais (Schwartz et al., 2017).

Portanto fica a revisão e clarificação da real importância destes projetos – que não somos contra, mas é importante dar a eles seu devido valor e desafios encontrados – e da reflexão da justificativa da real dependêndia e necessidade destes projetos terem cativeiro de entretenimento como sua força motriz.

Confinamento não é lar

Para entender o impacto real do cativeiro para a vida destes animais, é necessário compreender a biologia dos animais. Ursos polares percorrem mais de 30 km por dia, têm territórios de até 38.000 km². No Aquário de São Paulo, vivem em recintos de 1.500 m² — cerca de 0,04% do seu habitat natural. O contraste é brutal.

Já orcas, que podem nadar até 160 km por dia, são mantidas em tanques onde mal conseguem realizar curvas completas. Essas condições provocam estresse crônico, comportamentos compulsivos e quadros clínicos graves: infecções, desgaste dentário, atrofia muscular e depressão profunda.

Estudos em primatas e cetáceos mostram que animais submetidos ao confinamento prolongado apresentam níveis de cortisol — o hormônio do estresse — persistentemente elevados. Não à toa, muitos especialistas seguem se posicionando cada vez mais contra este formato como subsídio para conservação, e o Brasil já tomou a decisão sensata de proibir baleias e golfinhos do confinamento de zoológicos e aquários. Mas qual é a diferença entre baleias e golfinhos em relação aos ursos polares, leões marinhos, pinguins, girafas e tubarões que seguem aprisionados nesses recintos? Não devemos expandir o circulo moral?

Focas no aquário de São Paulo

Focas no aquário de São Paulo

O marketing do resgate: quando salvar vira vitrine

Zoológicos e aquários também justificam sua existência alegando receber animais resgatados. Mas os critérios de seleção são rigorosos: selecionam aqueles com apelo visual e potencial de gerar bilheteria.

Animais mutilados, idosos, doentes ou de espécies consideradas “sem graça” raramente são escolhidos, salvo raras exceções. Por outro lado, a indústria de tráfico de animais segue firme, fomentada por estes estabelecimentos, indireta ou diretamente. Muitos indivíduos ainda hoje são capturados diretamente na natureza, como no caso dos golfinhos em Taiji ou filhotes de urso retirados da Rússia.

Outros nascem em cativeiro, e frequentemente são descendentes de indivíduos obtidos via tráfico ou “programas de reprodução” de origem questionável por todo o mundo.

Zoológicos estão mesmo resolvendo um problema ou, após um resgate já carregado de sofrimento, estão perpetuando o sofrimento por gerações em suas reproduções? O quanto do crime do tráfico animal seguiria, se simplesmente estes animais não gerassem mais lucro na cadeia ilegal do tráfico até que estes fossem eventualmente “resgatados” para exposição em vitrines?

Com grandes os investimentos necessários para manutenção de aquários reais – que muitas vezes se assemelham a grandes televisores, como estes da imagem – seria possível investir em experiências digitais multisensoriais, mais imersivas e educativas

Com os grandes investimentos necessários para manutenção de aquários reais – que muitas vezes se assemelham a grandes televisores, como estes da imagem – seria possível investir em experiências digitais multisensoriais, imersivas e educativas

Educação ou distorção?

Os defensores desses espaços afirmam que eles despertam consciência ambiental. Primeiramente, há nos conhecimentos científicos um consenso de que permanece fraco o argumento de que nas visitas as pessoas aprendem de maneira significativa sobre conservação e biodiversidade, ou  que esse aprendizado resulta em mudanças comportamentais, já que a aprendizagem é um processo lento, complexo e difícil de rastrear (Nygren & Ojalami, 2018).

Adicionalmente, um estudo de Jensen (2014) mostrou que apenas 41% das 2.839 crianças avaliadas depois de uma visita ao zoológico, mesmo contando com a atuação de um guia-educador, conseguiram qualquer aprendizado sobre biologia e conservação. Observou-se que houve também mudanças negativas sobre a percepção dos animais quando não há educadores envolvidos na visita, provando que é a educação ambiental em si é que incitou o conhecimento de conservação, e não a exposição ao animal. Crianças saem sem compreender o verdadeiro papel dos animais nos ecossistemas — e muitas vezes podem periogosamente internalizar a ideia antropocêntrica de que humanos têm o direito de dominar outras espécies, que eles estão ali para nos servir. A pedagogia da exposição em cativeiro contribui para naturalizar a subjugação da vida selvagem. 

A educação ambiental que pode ser apresentada como extra para além desta exposição pode ser facilmente também aplicada satisfatoriamente em escolas, eventos, documentários, imersões para o público em geral, sem nenhuma crueldade ao animal. Em contrapartida, tecnologias imersivas, como realidade aumentada e encontros espontâneos na natureza, como em reservas naturais, proporcionam aprendizado profundo, respeitoso e contextualizado. Também visitar museus de ciências, conhecer projetos de ecoturismo regenerativo ou mesmo voluntariado em centros de reabilitação são ferramentas eficazes para uma educação ambiental verdadeiramente transformadora para as pessoas.

Criança observa peixes no aquário de São Paulo – apenas 41% das crianças obtiveram algum aprendizado depois uma visita a este tipo de estabelecimento, segundo pesquisa

Criança observa peixes no aquário de São Paulo – sem educação ambiental, crianças podem obter aprendizado negativo ou errado sobre os animais ao visitar um zoológico ou aquário, segundo pesquisa

Alternativas reais e responsáveis

A resposta ética está nos santuários (ou equivalentes a estes no Brasil, já que estes ainda buscam ser regulamentados no país) e centros de reabilitação — espaços que priorizam a recuperação e o bem-estar animal, e não encorajam a exposição para entretenimento. Nesses locais:

  • Animais não são expostos para entreter visitantes ou obter lucro. A exposição às pessoas é vista como não natural e mantida a um mínimo;
  • Seu financiamento é baseado em doações, investimentos governamentais, de empresas ou por doações, estes sempre priorizados a investir em ambientes o mais próximo a seu habitat natural ou cuidados que respondem à sua biologia, sem se preocupar com como estes locais deixam uma melhor experiência ao público.
  • A reprodução só ocorre quando há claro plano de reintrodução à natureza (salvo exceções de espécies em que isso não pode ser evitado).
  • Os ambientes são adaptados às necessidades comportamentais e fisiológicas das espécies, sempre buscando investir o dinheiro arrecadado, em primeiro lugar, no bem-estar destes animais.
  • O foco é a recuperação e máximo possível de bem estar ao animal pura e simplesmente, e não a sua performance ou aceitação de público.

Esses espaços existem, mas são ainda poucos — e precisam de mais apoio, regulamentação e investimento para que mais deles sigam operando. No Brasil, a ausência de legislação específica para santuários dificulta sua maior adequação e expansão, mas centros e projetos bem-sucedidos nacionais e internacionais mostram que é possível criar modelos sustentáveis e compassivos.

É verdade que existem exemplos lamentáveis de centros de reabilitação no Brasil e no mundo, marcados por negligência, maus-tratos e estruturas inadequadas — mas esse argumento não pode ser usado para desacreditar o conceito em si. Casos de abuso e condições insalubres existem para ambos ambientes de cativeiro, independente de nos zoológicos e aquários operarem sob forte exposição pública e discurso de aparente legitimidade. Este é um desafio sério, e precisa ser combatido independente do modelo, com maior fiscalização e incentivo.

A diferença entre ambos formatos, portanto, está no propósito: centros de reabilitação éticos não visam lucro por ingressos nem espetáculo, mas sim o bem-estar animal e, quando possível, sua reintegração à natureza. Generalizar os abusos é um erro lógico e, pior, um desvio conveniente que perpetua sistemas que exploram animais sob a fachada de conservação.

Também está em jogo como melhor aproveitar os interesses econômicos focados na biodiversidade da fauna: não deveríamos ter os subsídios governamentais, doações filantrópicas, talentos acadêmicos e empresas que hoje estão contribuindo e financiando os zoológicos e aquários redirecionarem seus recursos para os projetos que focam em fomentar mais e melhores centros de resgate, manutenção e reintrodução de animais? Nos projetos bem sucedidos atuais e futuros de reabilitação de espécies ameaçadas em locais completamente dedicados a esta missão? Isto não resolveria muito dos problemas que hoje existem do subfinanciamento e maus exemplos destes formatos de resgate, mas também de reintrodução de animais via formato ex situ?

Uma nota aos cuidadores dos aquários e zoológicos existentes no país: não estamos contra vocês

Importante reconhecer que a crítica ao cativeiro movido pelo entretenimento não é de nenhuma forma uma acusação aos profissionais da biologia e medicina veterinária que atuam nesses espaços. Estes são certamente apaixonados por animais, e têm intenções genuínas de zelar por eles com todo seu talento, paixão e cuidado, e reconhecemos isso. O que expomos aqui é o modelo corporativista falho dos aquários e zoos, cuja essência mora na dependência por exposição que explora vidas em nome do entretenimento e do lucro, e sabe-se que gera incômodos a estes cuidadores, como é o caso de depoimentos que recebemos de quem já deixou de trabalhar nestes espaços.

Reconhecemos o valor da formação e da experiência desses especialistas — e sua dedicação e conhecimento são fundamentais e será de valiosa importância se direcionados a iniciativas mais éticas e que precisam muito destes talentos: em centros de reabilitação, cuidados paliativos para animais irrecuperáveis, programas importantes de reintrodução à natureza e ações de conservação in situ. Não estamos contra vocês, mas contra o sistema que, muitas vezes, limita o potencial transformador do saber científico e cuidado ao animal ao reduzi-lo à dependência de uma engrenagem de espetáculo.

De dentro de sua gaiola, no zoológico de São Paulo, uma Harpia observa o céu.

De dentro de sua gaiola, no zoológico de São Paulo, uma Harpia observa o céu.

Um novo pacto com o futuro

Zoológicos e aquários, modelos que visam entretenimento em sua essência de modelo de negócio, representam uma lógica ultrapassada: a de que podemos dominar a natureza para fins de agradar o humano e/ou obter lucro. Em um momento em que a crise climática ameaça a biodiversidade global, insistir nesse modelo é não apenas antiético, mas contraproducente, já que se gasta a pouca energia existente de investimento, talentos, e interesse público para a recuperação da biodiversidade onde esta é menos urgente, ou onde mais poderia ser poupada.

Devemos exigir:

  • A proibição de estabelecer novos empreendimentos de cativeiro que priorizam exposição do animal para entretenimento e/ ou lucro.
  • A gradual transformação dos atuais zoológicos e aquários em importante centros de reabilitação, sem a visitação e exposição dos animais.
  • O encerramento imediato do comércio internacional, e gradual do comércio  nacional e troca de animais para a exibição (mesmo sem um financiamento envolvido).
  • O investimento maciço em conservação in situ e recuperação de habitats.
  • A regulamentação e o maior fomento governamental, empresarial e de doações para santuários, centros de resgate, reabilitação e reintrodução.
  • A educação ambiental baseada em real empatia, respeito, reverência e ciência, não em espetáculo.

O que você pode fazer?

  • Não visite zoológicos ou aquários com animais selvagens em cativeiro para exposição e entretenimento.

  • Apoie organizações e projetos de conservação in situ ou com centros de resgate ou reabilitação sérios e rigorosos.

  • Informe-se e compartilhe conteúdos sobre as alternativas éticas com amigos e familiares.

  • Pressione representantes públicos por políticas mais justas para a fauna.

Conclusão: pela liberdade como princípio

A conservação de espécies não se faz com jaulas, tanques ou vitrines. Se queremos realmente proteger a biodiversidade, isso não é somente sobre as espécies em isolamento: precisamos também proteger os ecossistemas — e mais do que isso refletir sobre o custo ético de como fazer conservação. Temos que reconhecer que cada vida animal importa, não apenas como símbolo, mas como sujeito de direito.

Nosso posicionamento é claro: não existe conservação ética com vidas confinadas para entretenimento. Assim como é verdade para os humanos, animais não devem ser forçados a atrair público para viver. Porém, sabemos que este é um tema sensível. Sabemos que haverá discordâncias, claro. Mas é justamente esse ponto que vale reconhecer antes de iniciar qualquer debate: na ciência há diferenças claras de fronteiras éticas que não se resolvem apenas com dados. Depois que os números são apresentados, impactos são mensurados e os estudos debatidos, resta a pergunta essencial: Que tipo de relação queremos ter com os animais? A qual custo queremos ter a conservação sendo feita?

Liberdade, dignidade e justiça de indivíduos sencientes devem ser os pilares de qualquer proposta de conservação verdadeira. O entretenimento baseado na exploração da vida selvagem não pode mais ser tolerado como justificativa para salvar estes animais, pois o seu peso ético é muito elevado. E cabe a nós e nossas escolhas construir esse novo futuro de dignidade aos animais.

Fontes e referências:

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Resende, P. S., Viana‐Junior, A. B., Young, R. J., & de Azevedo, C. S. (2020). A global review of animal translocation programs. Animal Biodiversity and Conservation, 43(2), 221–232.

Beck, B. (1995). Reintroduction, zoos, conservation, and animal welfare. In B. Norton, M. Hutchins, E. Stevens, & T. Maple (Eds.), Ethics on the Ark (pp. 155–163). Washington: Smithsonian Institution Press.

Schwartz, K. R.; Parsons, E. C. M.; Rockwood, L.; Wood, T. C. Integrating In-Situ and Ex-Situ Data Management Processes for Biodiversity Conservation. Frontiers in Ecology and Evolution, v. 5, p. 120, 2017. DOI: 10.3389/fevo.2017.00120.

Rummel, L. et al. Use of wild–caught individuals as a key factor for success in vertebrate translocations. Animal Biodiversity and Conservation, v. 39, n. 2, p. 207–219, 2016. ISSN: 1578–665X. DOI: 10.32800/abc.2016.39.0207.

Morris, S. D.; Brook, B. W.; Moseby, K. E.; Johnson, C. N. Factors affecting success of conservation translocations of terrestrial vertebrates: A global systematic review. Global Ecology and Conservation, v. 28, e01630, 2021. DOI: 10.1016/j.gecco.2021.e01630 (2021).

Gusset M, Dick G. The global reach of zoos and aquariums in visitor numbers and conservation expenditures. Zoo Biol. 2011 30(5):566-9.

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Milstein, T. ‘‘Somethin’ Tells Me It’s All Happening at the Zoo’’: Discourse, Power, and Conservationism. Environmental Communication, vol. 3, No. 1. 2009.

Mucha, K. Species360 (formerly International Species Information System (ISIS)). In The International Encyclopedia of Primatology (2017).

Links abaixo acessados em Abril/2025:

https://www.tnc.org.br/content/dam/tnc/nature/en/documents/brasil/tnc-financiandoanatureza-2020-pt.pdf

https://www.bornfree.org.uk/resource/zoos-financing-conservation-or-funding-captivity/

https://www.prnewswire.com/news-releases/united-parks–resorts-inc-reports-fourth-quarter-and-fiscal-2024-results-302385681.html

https://www.theguardian.com/environment/blog/2014/feb/10/euthanising-marius-giraffe-shocking-lack-compassion

https://www.nationalgeographic.com/science/article/140212-giraffe-death-denmark-copenhagen-zoo-breeding-europe

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvg8n7pl3r9o#:~:text=A%20equipe%20do%20Aqu%C3%A1rio%20afirma,do%20inverno%20e%20outono%20paulistanos.

Créditos:

Redação: Sea Shepherd Brasil

Revisão e Colaboração:
Frank Alarcón, Biólogo, Filósofo, Doutor em Bioética e acadêmico de Medicina Veterinária;
Juan Pablo Torres-Florez, PhD Especialista em Ecologia e Biologia Marinha

Imagens: Sea Shepherd Brasil