Editorial

Medo e aversão a tubarões na Austrália Ocidental

Comentário do Capitão Paul Watson
Fundador e Presidente da Sea Shepherd Conservation Society

Capitão Paul Watson. Foto: Billy Danger/Sea Shepherd

Eu era um surfista nos anos sessenta e setenta, e não me lembro de um único momento em que tivesse sentido medo de tubarões – criaturas belas e únicas que o Premiê da Austrália Ocidental, Colin Barnett, está condenando. Eu acho que Barnett nunca foi um surfista.

Surfistas de verdade não só amam o oceano, eles também o compreendem. Eles entendem as complexas inter-relações entre as espécies, e se amam e compreendem o oceano, também amam e compreendem os tubarões.

Não, eu simplesmente não consigo ver Barnett montado numa prancha de surfe.

Ele era provavelmente uma dessas pobres almas tímidas que se sentava na praia, traumatizada por ter visto a farsa cinematográfica de Spielberg chamada Tubarão.

Nessa semana, esse mesmo Premiê australiano iniciou uma onda de ódio aos tubarões, apelando para a sua aniquilação total.

Essa foi apenas uma reação instintiva oportunista para o teatro midiático feito sobre a morte de cinco surfistas neste ano.

Sim, é uma tragédia que estes cinco surfistas tenham morrido, e infelizmente é verdade que os ataques de tubarão têm aumentado, embora relativamente muito pouco. Mas em vez de responder com um massacre de tubarões histérico e sem sentido, o Premiê talvez devesse ter tido um olhar sério sobre o porquê de ter havido um ligeiro aumento nos ataques e tomado medidas para resolver o problema sem causar danos para a biodiversidade em nossos oceanos.

Barnett é formado em Economia e em Estatística, então ele certamente deveria entender que estatisticamente os ataques de tubarão e mortes não são tão frequentes e tornam esses animais menos perigosos para as pessoas do que avestruzes, cães, chimpanzés, elefantes, mosquitos, abelhas, formigas, vespas, veados, cavalos, vacas e águas-vivas.

Estatisticamente, as chances de morrer em um acidente automobilístico são astronomicamente maiores do que ser morto por um tubarão, e há uma possibilidade muito maior de ser atingido por um raio enquanto se joga golfe do que de ser atacado por um tubarão na praia.

Quando se trata de esportes perigosos, o surfe tem fatores de risco muito menores do que o golfe, o montanhismo, as caminhadas, o voo livre, as cavalgadas, o esqui, a natação, o mergulho, o boxe ou o skateboarding.

Estatisticamente, os tubarões simplesmente não são um fator grave que afeta a mortalidade humana em comparação com quase todas as outras atividades humanas, incluindo o fato de que, em média, vinte australianos morrem a cada ano ao caírem da cama, e outros cinco morrem ao entrarem em suas banheiras.

Por outro lado, nós, humanos, abatemos cerca de setenta milhões de tubarões por ano, principalmente para suprir poucos chineses ricos com uma tigela de sopa sem sabor.

Tubarão branco capturado. Foto de arquivo

A verdade é que o ódio em relação aos tubarões é uma histeria fabricada primeiramente – embora eu tenha certeza que foi sem malícia – por Steven Spielberg, que ressuscitou um tubarão Megalodon, extinto há muito tempo, como uma máquina perversa de matar. A noção de encarar um tubarão desses vivo, hoje, é tão fictícia quanto a de ser atacado por um Tiranossauro Rex nos tempos modernos.

Mirar tubarões brancos significa mirar uma espécie em extinção, e não é diferente de incitar o extermínio de tigres, rinocerontes e baleias. Esse é o mesmo tipo de pensamento frívolo e de mentalidade ecologicamente ignorante que foi responsável pela extinção do tigre da Tasmânia.

Se o Premiê realmente deseja reduzir os ataques de tubarão, ele deve abordar os fatores humanos que contribuem para esses ataques.

Há três razões principais para esse aumento no mar ao longo da costa da Austrália Ocidental.

A razão mais óbvia é que sangue e cadáveres na água atraem tubarões, e os navios de transporte de gado são a principal fonte para essa atração. Animais mortos são irresponsavelmente atirados ao mar. O fluxo diário de urina e fezes tem cheiro de sangue. O senso comum diz que se você derramar sangue no mar, os tubarões vão reagir.

Sendo um economista, o primeiro-ministro muito provavelmente decidiu que as exigências do agronegócio e dos muçulmanos, os quais querem animais vivos para serem degolados enquanto olham em direção a Meca, é mais importante do que tubarões ou surfistas australianos.

A segunda razão é que há surfistas nessas mesmas águas para onde os tubarões são atraídos. Visto por baixo, um surfista em cima de uma prancha se parece muito com uma foca, e não uma foca qualquer, mas uma relativamente imóvel, e para um tubarão isso é como um letreiro de neon dizendo: “COMA!”

Mesmo assim, a maioria dos ataques a surfistas são abortados uma vez que o tubarão percebe que o surfista não é uma foca. Mas ainda pode ser uma má notícia para essa pessoa.

Solução: Em vez de gastar excessivamente o dinheiro de impostos para exterminar os tubarões, os fundos podem ser investidos na criação de dispositivos impeditivos de ataque para pranchas de surfe e programas de avistamento desses animais, como na África do Sul, onde as pessoas são contratadas para assistir o surfe e soar um alarme caso tubarões estejam na área.

Pesquisas devem ser realizadas sobre o comportamento dos tubarões e os fatores ambientais específicos da região, como o efeito dos resíduos dos navios de gado despejados no mar.

A terceira razão é a pesca excessiva, que diminui os recursos de alimentação dos tubarões nos nossos oceanos mais e mais a cada ano. Aqueles que argumentam que as focas devem ser abatidas para reduzir as populações de tubarões estão, na verdade, incentivando mais ataques, porque menos focas significa menos refeições, e, portanto, mais tubarões famintos e desesperados. Se você privar seres humanos de alimento, eles também estarão propensos ao desespero, e, como a história demonstra claramente, seres humanos passando fome têm uma tendência a atacar e comer outros seres humanos.

Tubarão branco. Foto: Emma Casagrande

O Premiê Barnett, infelizmente, já demonstrou em outras áreas que ele prefere soluções extremistas. Ao conceder recentemente autoridade à polícia para busca e apreensão de bens sem qualquer suspeita ou indício de que um crime foi cometido, um membro do governo Barnett expressou apoio a essa política, comparando-a às medidas de segurança “eficazes” tomadas por Adolf Hitler. O Premiê defendeu essa declaração do membro do Partido Liberal, Peter Abetz, dizendo que seu argumento era válido.

E agora, a política que Barnett deseja fazer é implementar uma “solução final” para exterminar os tubarões sob o interesse da segurança.

Por mais de quarenta anos eu tenho surfado, nadado e mergulhado com alguns tubarões, incluindo os brancos e os tigres, e nunca encontrei um que ameaçasse a minha segurança como um ser humano.

Tenho, no entanto, encontrado muitos políticos que o fazem.

Traduzido por Maiza Garcia, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

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