Negado o acesso da Sea Shepherd às audiências finais da Corte Internacional de Justiça

Por Geert Vons, Diretor da Sea Shepherd Holanda e o Capitão Alex Cornelissen, Diretor Global Executivo da Sea Shepherd (no vídeo)

Tribunal Internacional de Justiça – 15 de Julho

Foi negado o acesso à Sea Shepherd para entrar no Palácio da Paz, a fim de participar da primeira sessão da segunda rodada de argumentos orais e observações do Japão.

Em primeira instância, uma representante da Corte Internacional de Justiça nos informou na porta que as audiências não foram abertas ao público. Isso foi uma surpresa, já que no comunicado oficial recebido pelo nosso advogado haviam sido oferecido dois assentos pela Corte Internacional de Justiça, para atender todos os envolvidos na caça de baleias na Antártida (Austrália v. Japão: Nova Zelândia intervindo).

A senhora foi muito educada, porém, estava obviamente muito desconfortável.

Quando foi mostrado a esta representante uma cópia do comunicado escrito pelo Tribunal ao nosso advogado, onde constava que tínhamos sidos convidados e autorizados a participar de todas as audiências, inclusive as audiências preliminares, ela meio que confessou que tinha recebido ordens estritas para não nos deixar entrar.

Ela começou a realmente se sentir desconfortável, discutindo até com seu colega que estava ao seu lado. E fez uma chamada telefônica. Ao desligar, ela nos informou que o motivo desta negação se devia ao fato de problemas técnicos que não nos autorizava a participar.

Como eu não tinha qualquer indício de quem seria a pessoa do outro lado do telefone, perguntei se poderias falar com a pessoa que ela acabara de falar.

Ela não quis nos passar o nome ou o número de contato desta pessoa ao qual ela conversou por telefone. A representante ainda foi muito educada, e eu meio que senti pena dela, pelo fato dela ser apenas a mensageira.

Como eu tinha um número de telefone geral da Corte Internacional de Justiça por escrito, obtido através do nosso advogado, decidimos então fazer uma tentativa.

Outra senhora muito simpática também nos informou que não éramos bem-vindos, e que ela estava muito triste por isso. Ela se ofereceu para ver o que podia fazer e me pediu para ligar novamente em 10 minutos.

Eu liguei novamente depois de dez minutos e, no final, fui informado de que a Corte Internacional de Justiça não precisa se justificar e dar algum uma motivo pela qual não fomos autorizados a entrar no Palácio da Paz.

Então, não nos deram uma razão concreta. Deixaram à especulação.

Como mencionado anteriormente, hoje foi a primeira sessão do segundo turno das alegações e observações do Japão.

Será que sob pressão do Japão, a Corte Internacional de Justiça não queria que a Sea Shepherd Conservation Society estivesse presente e, para proibir, portanto, a Sea Shepherd, não tinha outra escolha, a não ser negar a entrada ao público em geral?

A Sea Shepherd já foi mencionada várias vezes na Corte Internacional de Justiça nas últimas semanas.

Estatísticas japonesas mostraram que o Japão culpou a Sea Shepherd por não ser capaz de atingir a sua cota de amostragem (leia-se, número de baleias a serem mortas).

É bom ver que as campanhas da Sea Shepherd têm sido realmente eficazes, e que salvamos a vida de milhares de baleias.

Geert Vons, Diretor da Sea Shepherd Holanda

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“Você não pode passar”: a porta fechada da Corte Internacional de Justiça. Foto: Sea Shepherd

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

Mais sobre a caça científica

Comentário por Sidney Holt, membro do Conselho Consultivo da Sea Shepherd

Dr. Sidney Holt. Foto: Tim Holt

As audiências de hoje, 10 de julho de 2013, em Haia, na Corte Internacional de Justiça, no caso (pesquisa científica) da caça de baleias, em que a Austrália está acusando o Japão, foram fascinantes, mas talvez obscuras para alguns espectadores do webstream ao vivo da ONU.

Elas eram principalmente sobre como o Japão havia calculado as amostras “necessárias” da captura de carcaças de baleias científicas no seu programa de pesquisa na Antártica, JARPA II, que começou em 2005. O governo japonês disse que isso foi decidido com base em necessidades de análises estatísticas válidas. O Dr. Lars Walloe, um cientista que trabalha para o governo da Noruega, mas que está servindo neste caso como testemunha científica em nome do governo japonês, tinha dito na última sessão do tribunal que ele tinha olhado para os cálculos do Japão e eles estavam corretos. Em seguida, descobriu-se que ele não podia justificar essa afirmação, e quando pressionado, admitiu que não tinha sido capaz de compreender as razões dadas para a escolha dos números.

No meu primeiro comentário – “Minha opinião sobre a caça científica do Japão na Corte Internacional de Justiça“, escrevi que tais cálculos estatísticos poderiam ter sido feitos porque nenhuma hipótese testável havia sido apresentada pelos japoneses em seus programas JARPA e JARPA II. Eu afirmava que os cálculos tinha, de fato, sido feitos, mas estes cálculos foram os de logística e econômicos: quantas baleias seriam necessárias a cada ano para tornar a caça de baleias-minke na Antártida viável, se não intrinsecamente rentável, e como obter a carne de volta para o Japão imediatamente.

A grande questão na audiência foi: por que o número para o programa original curto, chamado JARPA – que era de cerca de 400 baleias-minke por ano – saltou para uma “necessidade” em dobro – 850 no JARPA II, a partir de 2005. Eu escrevi que o aumento tinha sido necessário porque o custo original de mover o navio-fábrica e os seus barcos coletores de e para a Antártica, e os cálculos de vendas de carne, estavam errados. Um navio-fábrica envelhecido requer grandes reparos, a Organização Marítima Internacional impôs novas regras para os navios que operam no Oceano Antártico, o preço do combustível subiu, e as vendas de carne não foram tão boas quanto o esperado. Tudo isso é verdade.

Mas, então, por que exatamente 400 de repente saltar para 850?

Agora eu posso dizer que as razões eram inteiramente operacionais. O navio-fábrica, o Nisshin Maru, é bastante pequeno, tanto quanto os modernos navios-fábricas baleeiros. Quando isso acontece, ele pode processar, congelar e transportar a carne e alguns outros produtos de cerca de 400 baleias-minke.

Durante o JARPA percebeu-se que uma captura maior seria necessária no futuro, para cobrir o aumento dos custos e a necessidade de atrair subsídios maiores. Havia a esperança de que o mercado poderia ser expandido para ter mais carne, e grandes esforços foram feitos para garantir isso. A solução para o problema logístico seria mandar para outro navio, com capacidade frigorífica suficiente para ir para a Antártica no meio da temporada, para que a carne já no porão do Nisshin Maru fosse transferida no mar a este navio e levado para o Japão, enquanto que o Nisshin Maru iniciaria suas operações de processamento de baleias novamente. Isso representa o dobro de capturas de uma licença especial.

Uma vantagem adicional desse transbordo era que o navio – navegando sob uma bandeira de conveniência, é claro – devidamente instalado, poderia trazer óleo combustível para abastecer os barcos coletores no meio da temporada. Os portos na Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile e Argentina não eram suscetíveis de estarem disponíveis para esta finalidade (um problema surgiu quando a Organização Marítima Internacional fez uma nova regra que proibiu o reabastecimento de navios no mar em águas da Antártida). O Nisshin Maru – e, talvez, os coletores, também – que, no futuro, terão que se mover para o norte, fora da Antártica, para operações de reabastecimento no mar.

Um ponto importante no caso da Austrália – que a caça do JARPA II não é para o objetivo principal da pesquisa científica, conforme previsto na Convenção Internacional para a Regulamentação da Pesca da Baleia de 1946 – é a de tempo. Programas de pesquisa reais têm também datas de início e fim. Mas o JARPA II não tem prazo. A intenção era continuar até que a moratória sobre a caça comercial de baleias fosse suspensa, independentemente de quando possa acontecer.

Ao longo da audiência, representantes do Japão têm tentado convencer o tribunal de que a moratória, adotada em 1982, que entrou em vigor em 1986, era parte de um plano maligno pela Austrália para transformar a Comissão Internacional da Baleia em uma organização anti-caça às baleias. Na época, a Austrália tinha acabado de se tornar uma nação não-baleeira. Ela fazia parte de um pequeno grupo de membros da Comissão Internacional da Baleia, que adotaram políticas de oposição à caça comercial.

Com essa nova política vigorosa, não foi fácil para a Austrália, como uma nova nação não-baleeira, apoiar, e certamente não assumir a liderança para o movimento geral para a adoção de uma moratória sobre a caça comercial por 10 anos, originalmente proposta pela ONU. Até então, a maioria das nações que desejavam uma moratória – uma clara maioria dos membros da Comissão Internacional da Baleia – acreditava que uma “pausa” internacional sobre a caça devia começar, por tempo indeterminado (embora sujeita a revisão após um determinado tempo), por boas razões práticas. Os cientistas queriam dar tempo para as populações de baleias, para mostrar, pelo menos, o início da recuperação do esgotamento, em 10 anos, pelo menos. Os cientistas não estavam em condições de dizer quanto tempo, mas dez anos parecia muito pouco.

As propostas da moratória da caça comercial a partir de 1978 receberam amplo apoio e cada vez maior, porque era mais claro do que nunca que a informação científica é insuficiente para suportar a operação de um procedimento de gestão para a caça adotada pela Comissão Internacional da Baleia, em 1974, na sequência das propostas da ONU. A falha dos procedimentos de gerenciamento ofereceram uma alternativa a uma moratória e tinha sido desenvolvido e proposto à Comissão Internacional da Baleia pelo governo da Austrália, quando ele ainda era um país baleeiro, com uma política pró-caça comercial agressiva.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

Tubarões em perigo na Austrália, graças ao Departamento de Pesca

Tubarões alinhados no convés. Foto: Tim Watters / Sea Shepherd

A Austrália Ocidental está pronta para continuar alimentando o apetite da Ásia por barbatana de tubarão, em uma jogada controversa conduzida pelo Ministro das Pescas, Norman Moore. Uma delegação foi à China, liderada pelo Diretor Geral do Departamento de Pesca, Stuart Smith, e descobriu que haveria uma forte demanda por barbatana de tubarão da Austrália Ocidental com um “selo verde”, que garante a proveniência de fontes sustentáveis. O ministro e seu departamento já solicitaram que o Conselho Independente da Marinha analise os limites do Estado de captura e práticas de pesca, para que a Austrália Ocidental possa ser certificada como uma pesca sustentável. – Extraído de um artigo do Sunday Times, de 07 de outubro de 2012.

Existem muitas campanhas para salvar os tubarões, há muitos anos, de diversas organizações, com embaixadores como Sir Richard Branson, Yao Ming e Jackie Chan para contribuintes individuais. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer antes que a humanidade perceba o importante papel que os tubarões desempenham na saúde dos nossos oceanos, e a barbárie cruel do comércio de barbatanas de tubarão. As alegações de que o mercado de barbatana de tubarão está quebrando devido à campanha por grupos verdes são completamente falsas. O que está acontecendo é simplesmente que as populações de tubarões em todo o mundo estão reduzindo devido ao excesso de pesca e à demanda contínua de barbatanas de tubarão. Um estudo da IUCN (International Union for Conservation of Nature) mostrou que um terço de todas as espécies de tubarão está ameaçada de extinção – a maioria não vai sobreviver depois de 2020. Nos últimos 20 anos, as populações de tubarões em todo o mundo têm estado em declínio, algumas em até 90%. Como último recurso, finners de tubarão estão cada vez mais invadindo reservas marinhas, uma vez que estes são os únicos lugares restantes, a última fortaleza de tubarões. Estas reservas marinhas, lugares raros e únicos, devem ser protegidas para garantir o banco de biodiversidade dos oceanos.

O Diretor do Departamento de Pesca, Stuart Smith, dizer que a Austrália pode fornecer um produto sustentável de barbatana de tubarão para o mercado asiático, destrói completamente o importante trabalho que tem sido feito por Branson, Ming, Chan e todas as organizações não-governamentais em campanha para salvar os tubarões. Sem mencionar o trabalho incansável realizado pela Sea Shepherd em todo o mundo, mais notavelmente em Galápagos, onde a Sea Shepherd está trabalhando ao lado de autoridades em seus esforços para acabar com a caça ilegal de tubarões na Reserva Marinha de Galápagos. Além da Austrália Ocidental e Galápagos, existem vários Estados e províncias ao redor do mundo que proíbem a remoção das barbatanas de tubarão ou importação/exportação de produtos de tubarão. Declarações como esta feita por Stuart Smith mostra uma completa falta de respeito, não só para com tubarões e o mundo natural, mas também para com as gerações futuras, e destaca que o Sr. Smith é completamente ignorante sobre o importante papel desempenhado pelos tubarões na saúde dos nossos oceanos, e a grave situação que enfrentam a nível mundial.

“Não existe pesca sustentável do tubarão, os tubarões estão ameaçados de extinção em todo o mundo. A decisão do governo da Austrália Ocidental foi tomada por políticos que perderam o contato com a realidade. É a cobiça sobre a lógica, o lucro sobre a natureza, o dinheiro sobre o nosso futuro. Aqui o povo de Galápagos está em contato com a natureza, e eles entendem que o valor de um tubarão vivo supera em muito o valor de um morto. É tempo dos políticos da Austrália Ocidental acordarem e aderirem ao programa”, disse Alex Cornelissen, da Sea Shepherd Galápagos.

Diretor da Sea Shepherd Galápagos, Alex Cornelissen. Foto: Tim Watters / Sea Shepherd

Oferecer um dos últimos redutos remanescentes para os tubarões para os mercados da Ásia seria como encontrar um grupo desconhecido de rinocerontes pretos africanos  e oferecê-los aos caçadores. Não existe barbatana de tubarão sustentável, e abrir esta área para a pesca de tubarão só irá permitir um nível ainda maior da corrupção no comércio ilegal de barbatanas de tubarão, um comércio que é apenas o terceiro, atrás apenas do comércio ilegal de drogas e armas. É a este setor que os australianos querem estar ligados?

O mundo está muito preocupado com o estado das populações de tubarões, e vai acompanhar o governo da Austrália Ocidental muito de perto sobre isso. A partir de um sentido puramente econômico, não só haveria uma perda direta na indústria do mergulho, já que muitos mergulhadores chegam à Austrália Ocidental para ver tubarões, mas devido à indignação absoluta da comunidade mundial, pode até mesmo haver um boicote do turismo na Austrália Ocidental se esta oferta de barbatanas de tubarão for seriamente ‘colocada na mesa’ para o mercado asiático.

O Diretor australiano, Jeff Hansen, afirmou: “Imagine a nossa população de baleias jubarte hoje, se bem na véspera da moratória mundial da caça comercial alguma nação oferecesse uma forma sustentável de carne de baleia jubarte para o mercado. Os tubarões têm mantido nossos oceanos saudáveis por mais de 450 milhões de anos, os oceanos que nos dão até 80 por cento do nosso oxigênio, contamos com tubarões a cada dia para a nossa própria sobrevivência. Nós precisamos deles, eles não precisam de nós, e por isso nós precisamos dar a eles o respeito que merecem. Podemos viver muito bem sem uma sopa sem sabor e sem valor nutricional, mas não podemos viver neste mundo sem tubarões.”

Stuart Smith, Norman Moore e o Governo da Austrália Ocidental têm a oportunidade de defender os tubarões e defender a saúde dos nossos oceanos, para o benefício das gerações atuais e futuras.

O que você pode fazer para ajudar?

Entre em contato com o Ministro das Pescas, Norman Moore, para que ele saiba as suas preocupações sobre este assunto.

Para contatar o Ministro:

Honorável Norman Moore BA DipEd JP MLC
Ministro das Minas e Petróleo; Pesca; Assuntos Eleitorais
Endereço: 4th Floor, London House, 216 St Georges Terrace, PERTH WA 6000
Telefone: (08) 6552-5400
Fax: (08) 6552-5401
e-Mail: Minister.Moore@dpc.wa.gov.au

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

 

Medo e aversão a tubarões na Austrália Ocidental

Comentário do Capitão Paul Watson
Fundador e Presidente da Sea Shepherd Conservation Society

Capitão Paul Watson. Foto: Billy Danger/Sea Shepherd

Eu era um surfista nos anos sessenta e setenta, e não me lembro de um único momento em que tivesse sentido medo de tubarões – criaturas belas e únicas que o Premiê da Austrália Ocidental, Colin Barnett, está condenando. Eu acho que Barnett nunca foi um surfista.

Surfistas de verdade não só amam o oceano, eles também o compreendem. Eles entendem as complexas inter-relações entre as espécies, e se amam e compreendem o oceano, também amam e compreendem os tubarões.

Não, eu simplesmente não consigo ver Barnett montado numa prancha de surfe.

Ele era provavelmente uma dessas pobres almas tímidas que se sentava na praia, traumatizada por ter visto a farsa cinematográfica de Spielberg chamada Tubarão.

Nessa semana, esse mesmo Premiê australiano iniciou uma onda de ódio aos tubarões, apelando para a sua aniquilação total.

Essa foi apenas uma reação instintiva oportunista para o teatro midiático feito sobre a morte de cinco surfistas neste ano.

Sim, é uma tragédia que estes cinco surfistas tenham morrido, e infelizmente é verdade que os ataques de tubarão têm aumentado, embora relativamente muito pouco. Mas em vez de responder com um massacre de tubarões histérico e sem sentido, o Premiê talvez devesse ter tido um olhar sério sobre o porquê de ter havido um ligeiro aumento nos ataques e tomado medidas para resolver o problema sem causar danos para a biodiversidade em nossos oceanos.

Barnett é formado em Economia e em Estatística, então ele certamente deveria entender que estatisticamente os ataques de tubarão e mortes não são tão frequentes e tornam esses animais menos perigosos para as pessoas do que avestruzes, cães, chimpanzés, elefantes, mosquitos, abelhas, formigas, vespas, veados, cavalos, vacas e águas-vivas.

Estatisticamente, as chances de morrer em um acidente automobilístico são astronomicamente maiores do que ser morto por um tubarão, e há uma possibilidade muito maior de ser atingido por um raio enquanto se joga golfe do que de ser atacado por um tubarão na praia.

Quando se trata de esportes perigosos, o surfe tem fatores de risco muito menores do que o golfe, o montanhismo, as caminhadas, o voo livre, as cavalgadas, o esqui, a natação, o mergulho, o boxe ou o skateboarding.

Estatisticamente, os tubarões simplesmente não são um fator grave que afeta a mortalidade humana em comparação com quase todas as outras atividades humanas, incluindo o fato de que, em média, vinte australianos morrem a cada ano ao caírem da cama, e outros cinco morrem ao entrarem em suas banheiras.

Por outro lado, nós, humanos, abatemos cerca de setenta milhões de tubarões por ano, principalmente para suprir poucos chineses ricos com uma tigela de sopa sem sabor.

Tubarão branco capturado. Foto de arquivo

A verdade é que o ódio em relação aos tubarões é uma histeria fabricada primeiramente – embora eu tenha certeza que foi sem malícia – por Steven Spielberg, que ressuscitou um tubarão Megalodon, extinto há muito tempo, como uma máquina perversa de matar. A noção de encarar um tubarão desses vivo, hoje, é tão fictícia quanto a de ser atacado por um Tiranossauro Rex nos tempos modernos.

Mirar tubarões brancos significa mirar uma espécie em extinção, e não é diferente de incitar o extermínio de tigres, rinocerontes e baleias. Esse é o mesmo tipo de pensamento frívolo e de mentalidade ecologicamente ignorante que foi responsável pela extinção do tigre da Tasmânia.

Se o Premiê realmente deseja reduzir os ataques de tubarão, ele deve abordar os fatores humanos que contribuem para esses ataques.

Há três razões principais para esse aumento no mar ao longo da costa da Austrália Ocidental.

A razão mais óbvia é que sangue e cadáveres na água atraem tubarões, e os navios de transporte de gado são a principal fonte para essa atração. Animais mortos são irresponsavelmente atirados ao mar. O fluxo diário de urina e fezes tem cheiro de sangue. O senso comum diz que se você derramar sangue no mar, os tubarões vão reagir.

Sendo um economista, o primeiro-ministro muito provavelmente decidiu que as exigências do agronegócio e dos muçulmanos, os quais querem animais vivos para serem degolados enquanto olham em direção a Meca, é mais importante do que tubarões ou surfistas australianos.

A segunda razão é que há surfistas nessas mesmas águas para onde os tubarões são atraídos. Visto por baixo, um surfista em cima de uma prancha se parece muito com uma foca, e não uma foca qualquer, mas uma relativamente imóvel, e para um tubarão isso é como um letreiro de neon dizendo: “COMA!”

Mesmo assim, a maioria dos ataques a surfistas são abortados uma vez que o tubarão percebe que o surfista não é uma foca. Mas ainda pode ser uma má notícia para essa pessoa.

Solução: Em vez de gastar excessivamente o dinheiro de impostos para exterminar os tubarões, os fundos podem ser investidos na criação de dispositivos impeditivos de ataque para pranchas de surfe e programas de avistamento desses animais, como na África do Sul, onde as pessoas são contratadas para assistir o surfe e soar um alarme caso tubarões estejam na área.

Pesquisas devem ser realizadas sobre o comportamento dos tubarões e os fatores ambientais específicos da região, como o efeito dos resíduos dos navios de gado despejados no mar.

A terceira razão é a pesca excessiva, que diminui os recursos de alimentação dos tubarões nos nossos oceanos mais e mais a cada ano. Aqueles que argumentam que as focas devem ser abatidas para reduzir as populações de tubarões estão, na verdade, incentivando mais ataques, porque menos focas significa menos refeições, e, portanto, mais tubarões famintos e desesperados. Se você privar seres humanos de alimento, eles também estarão propensos ao desespero, e, como a história demonstra claramente, seres humanos passando fome têm uma tendência a atacar e comer outros seres humanos.

Tubarão branco. Foto: Emma Casagrande

O Premiê Barnett, infelizmente, já demonstrou em outras áreas que ele prefere soluções extremistas. Ao conceder recentemente autoridade à polícia para busca e apreensão de bens sem qualquer suspeita ou indício de que um crime foi cometido, um membro do governo Barnett expressou apoio a essa política, comparando-a às medidas de segurança “eficazes” tomadas por Adolf Hitler. O Premiê defendeu essa declaração do membro do Partido Liberal, Peter Abetz, dizendo que seu argumento era válido.

E agora, a política que Barnett deseja fazer é implementar uma “solução final” para exterminar os tubarões sob o interesse da segurança.

Por mais de quarenta anos eu tenho surfado, nadado e mergulhado com alguns tubarões, incluindo os brancos e os tigres, e nunca encontrei um que ameaçasse a minha segurança como um ser humano.

Tenho, no entanto, encontrado muitos políticos que o fazem.

Traduzido por Maiza Garcia, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

Sea Shepherd protesta no Oeste da Austrália contra o abate de tubarões

É tempo do alarmismo acabar

Por Julie Andersen, Diretora da Campanhas pelos Tubarões

Tubarão capturado em rede para tubarões. Foto: Mark Addison

Em resposta a atuais relatos de que funcionários no oeste da Austrália estão para começar a travar uma guerra contra os tubarões, iniciando o abate de qualquer tubarão nadando perto das praias da região, a Sea Shepherd Conservation Society está protestando. O abate de tubarões veio em resposta à morte de cinco surfistas por mordida de tubarão, ao longo do ano passado, nas praias do oeste australiano. Entretanto, com tudo que se sabe sobre os tubarões, incluindo o rápido declínio em seu número, o papel fundamental que eles têm em nossos oceanos, e a pouca ameaça que realmente exercem sobre os humanos no grande esquema das coisas, é difícil imaginar que o conceito arcaico de matar esses animais para nossa “proteção” ainda existe.

Para um país com a Austrália – cujos cidadãos são conhecidos por seu ponto de vista iluminado e equilibrado em relação ao nosso mundo natural – declarar guerra aos tubarões é particularmente inquietante. Funcionários planejam matar qualquer tubarão – inclusive o tubarão branco, protegido e ameaçado – que estiver nadando perto das praias do oeste australiano. A um custo bem maior que $ 6,35 milhões, que o governo australiano está investindo no programa, é absolutamente vergonhoso.

Não se enganem. A Sea Shepherd deseja expressar suas sinceras condolências às famílias das vítimas. Porém, enquanto essas cinco mortes trágicas evocam medos primordiais na sociedade, alimentados por campanha de mídia, nós, como uma comunidade impactada globalmente, precisamos de perspectiva.

Nos últimos 215 anos na Austrália, somente 18 fatalidades relacionadas com tubarões ocorreram – uma média de uma morte a cada período de 12 anos. Nos Estados Unidos, onde a probabilidade de alguém ser mordido é cinco vezes maior, a chance de afogamento é de 1 por 3,5 milhões. A chance de alguém morrer por ataque de tubarão é menor que 1 por 264 milhões. E em 2008, na Austrália, uma pessoa morreu por ataque de tubarão, 315 morreram por afogamento e 694 morreram em acidentes de automóvel.

“Antes de matar os tubarões o governo da Austrália deveria considerar também a situação destes”, diz a diretora da Campanha pelos Tubarões da Sea Shepherd, Julie Andersen. “O governo australiano está exibindo uma ignorância incrível. Tubarões estão em perigo de extinção; mais de 73milhões são mortos a cada ano. Regionalmente, mais de 90% das populações de tubarões – incluindo o branco – foram totalmente dizimadas. Tubarões brancos são protegidos nacional e internacionalmente, e os Estados Unidos estão considerando incluí-los na Lei de Espécies Ameaçadas. Dada a natureza crítica da situação dos tubarões, a Austrália tem sorte de ainda ter tubarões em suas águas”, diz ela.

Julie Andersen acrescenta: “o mundo não pode arcar com a perda de mais tubarões. Gostando ou não deles, nós precisamos de tubarões neste planeta. Como predadores de topo, eles mantêm nossos oceanos saudáveis. Tubarões são um componente crítico em um ecossistema que controla a temperatura e o clima de nosso planeta, fornece alimento para um terço do mundo e gera mais oxigênio do que todas as florestas juntas. Estudos recentes indicam que a eliminação regional de tubarões tem causado efeitos desastrosos, incluindo o colapso da pesca e a morte de recifes de corais. Matem os tubarões e a linda e saudável costa australiana irá se juntar às incontáveis outras zonas mortas do oceano”, afirma.

Julie Andersen continua: “O abate não é somente absolutamente ridículo, como também reforça o medo equivocado e irracional de tubarões de nossa sociedade. Isto por sua vez alimenta uma das maiores questões enfrentadas pela conservação de tubarões: a apatia pública ou até mesmo a repugnância em relação aos tubarões. A imagem criada pela mídia e pelo incentivo ao abate torna difícil, para muita gente, entender porque é importante preservar os tubarões – quanto mais tomar medidas para isso”.

Julie nada com os supostos devoradores de gente. Foto: Paul Wildman

Julie Andersen afirma que existem alternativas à prática arcaica de matar tubarões com redes e palangres, muitas delas foram implantadas com sucesso em outras regiões. Outros métodos de impedimento inofensivos, como corrente elétrica, ligas e produtos químicos também vêm sendo desenvolvidos. Julie Andersen afirma “Se nós podemos colocar um homem na lua, nós certamente podemos determinar um método para garantir que tubarões e humanos coexistam em paz nos domínios dos tubarões. Programas como o Avistadores de Tubarão, na África do Sul, prova que há alternativas viáveis à rede para tubarões e também que educação e conscientização podem ajudar”.

A questão do abate de tubarões não é nova para a Sea Shepherd, que tem lutado para dar um fim às redes de tubarão e outros programas de abate por décadas. Nossa campanha “remova as redes” (remove the nets, em inglês) vem fazendo pressão no governo da África do Sul por mais de quatro anos, reunindo apoio de milhares de pessoas. A Sea Shepherd recentemente também processou o governo de Reunião na França e ganhou – terminando com sucesso o abate ilegal de tubarões anunciado para agosto na reserva marinha.

Nos últimos anos, a pesca de tubarões tem aumentado demais – eliminando uma grande porcentagem das populações de tubarão – e o público tem sido exposto a muitas informações sobre meio ambiente e conservação da biodiversidade, assim como o real comportamento dos tubarões em relação aos seres humanos. E muitos têm ido mais longe, provando que há outros métodos inofensivos de impedimento a tubarões. A necessidade de conservação dos tubarões é um fato estabelecido, como é fato que esses animais são significativamente mal compreendidos, com o risco real de um encontro perigoso sendo infinitesimal.

Os dias de matança de animais por medo acabaram. A Austrália, um país com políticas ambientais alimentadas pela expansão do ecoturismo, deveria estar criando precedentes para o mundo. Num momento em que estamos correndo atrás de nossos recursos naturais a taxas insustentáveis, destruir animais selvagens simplesmente porque somos capazes ou devido a medos irracionais alimentados pela falta de conhecimento não é mais aceitável.

O premiê do oeste da Austrália, Colin Barnett, tem mostrado abertamente que sua responsabilidade como um líder para proteger a essência do estado muito antigo e sagrado que ele governa raramente é considerada. Na altura da luta para proteger James Price Point, vem a ideia ridícula de abater o belo e importante tubarão branco das águas do oeste australiano, demonstrando mais uma vez que os australianos precisam acordar e tomar conhecimento de quem estamos deixando tomar esse tipo de decisão. Isto não é o filme “Tubarão”, onde todos precisam correr e se esconder com medo. Esta é a costa acidentada e linda da Austrália e o medo que as pessoas estão demonstrando em embaraçoso. “Se nós pudéssemos simplesmente tomar a decisão de fazer o mesmo abate no governo”, diz o apoiador da Sea Shepherd de muito tempo, o músico Xavier Rudd. Xavier é também um surfista que não tem medo de dividir a água com tubarões.

Então, em vez de pensar “são apenas peixes”, vamos ter isto em perspectiva: sem os tubarões, os oceanos morrem. E, como diz nosso fundador e capitão, Paul Watson: “Se os oceanos morrerem, nós morremos.” A Sea Shepherd não vai esperar quieta e permitir que o governo da Austrália destrua alguns dos últimos tubarões remanescentes por ignorância e arrogância. Nós forçamos para que a questão fosse abordada na África do Sul e paramos o abate de tubarões na Reserva Marinha de La Reunion. Faremos o mesmo no oeste da Austrália.

Tubarão branco morto na África do Sul com palangre, como o que tem sido proposto. Foto: Sea Shepherd

Traduzido por Drica de Castro, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

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