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O Planeta Azul que a Zona Azul insiste em ignorar: A solução para o futuro pulsa fora da COP
A COP30 terminou em Belém, cercada pela vastidão de águas, florestas e povos que sustentam o organismo vivo do planeta. Mas, como tantas vezes antes, a conferência falhou em tocar o essencial.
Por Nathalie Gil, presidente Sea Shepherd Brasil
A natureza é complexa — e a COP continua sendo simplista, limitada por interesses antropocêntricos e por uma visão que insiste em caber em relatórios o que deveria ser experienciado como vida.
Mesmo sediada na Amazônia, o encontro não produziu um acordo real para a transição rumo a um mundo sem combustíveis fósseis. Pior: retrocedeu em compromissos firmados em COPs anteriores. Também não avançou um plano consistente para o desmatamento zero — pré-requisito mínimo para qualquer futuro habitável. Em Belém, mais uma vez, a vida não foi colocada no centro das decisões.
Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente, em discurso na COP30
A insistência em operar dentro de um paradigma técnico e estreito, quase inteiramente centrado no carbono como medição de progresso, revela a insuficiência desse modelo. Quando a COP termina, o impacto ao clima continua, silencioso e constante. Seguimos buscando tecnologias mirabolantes para compensar o desequilíbrio que nós mesmos criamos, quando tudo o que precisamos está diante de nós há milhões de anos: a vida natural que equilibra aquilo que insistimos em desequilibrar.
Floresta e oceano não podem depender de convencimento de tecnocratas para seguirem existindo. A natureza não negocia com relatórios — ela responde a ações. Rios alimentam árvores; árvores alimentam animais; animais regeneram solos; solos regulam água; e água habita vida que regula clima. Remover qualquer peça interrompe o fluxo vital desse organismo interdependente. A vida funciona como rede, não como soma de partes isoladas.
A Terra é uma nave espacial com muitos engenheiros que seguem para nós invisíveis, alerta nosso fundador Paul Watson — baleias, peixes, fitoplâncton, aves, insetos.
Foto: Karim Iliya, Kogia
Enquanto nossos engenheiros humanos seguem inventando ideias mirabolantes para resolver o problema do clima, matamos os engenheiros que já operam a resposta a ele. Retirá-los da operação é desligar o sistema de suporte à vida.
Na zona azul, a narrativa se repetiu: metas distantes, promessas vagas, países defendendo sua própria destruição em nome do crescimento. No oceano, as propostas foram modestas: iniciativas de mitigação para corais e manguezais, parcerias para NDCs azuis — medidas importantes, mas insuficientes.
Faltou coragem para proteger o que ainda existe: ampliar áreas de proteção integral, que hoje cobrem menos de 4% do território marinho; expandir reservas de uso sustentável; banir práticas destrutivas, como a pesca industrial e a mineração em águas profundas.
Como parte da nova aliança que se forma este ano, a SOS Oceano, carregamos com formadores de opinião por toda cidade a mensagem simples e poderosa: Sem Azul, Não Há Verde. Um chamado para abrirmos o olhar e pensarmos o oceano junto com a floresta, para assim finalmente considerar o planeta como um grande ecossistema que nenhuma parte pode ficar de fora.
Mas nem o verde sai ileso: no mesmo tom, o discurso sobre “floresta em pé” continua preso ao carbono, ignorando rios, fauna e ciclos ecossistêmicos. Uma floresta sem fauna é uma floresta condenada. Rios represados, poluídos ou tomados por pesca ilegal interrompem a troca de nutrientes que mantém a floresta viva. Dispersores, predadores e herbívoros ausentes já transformam ecossistemas inteiros em espaços silenciosos.
Em alguns eventos paralelos, chega-se a defender maior consumo de peixe sob a justificativa de “baixa pegada de carbono” — um exemplo emblemático do erro de enxergar o mundo apenas pelo carbono. Essa métrica considera combustível de embarcações, mas ignora a remoção de predadores, dispersores e reguladores ecológicos essenciais ao funcionamento do oceano. Peixes, aves marinhas, baleias e tartarugas — todos são parte do motor biológico que mantém o clima estável. A crise climática é consequência; a raiz é a perda da biodiversidade. Essa perda está acelerando o colapso.
Além disso, a ausência de um compromisso vinculante de monitoramento entre países apenas confirma o padrão: a implementação segue voluntária, frágil, permissiva para quem não cumpre o que promete.
Marcha pelo Clima durante a COP30. Foto: Lucas Amorelli / Sea Shepherd Brasil
Como parte da nova aliança que se forma este ano, a SOS Oceano, carregamos com formadores de opinião por toda cidade a mensagem simples e poderosa: Sem Azul, Não Há Verde. Um chamado para abrirmos o olhar e pensarmos o oceano como pensamos a floresta, para assim finalmente considerar o planeta como um grande ecossistema que nenhuma parte pode ficar de fora.
Mas nem o verde sai ileso: no mesmo tom, o discurso sobre “floresta em pé” continua preso ao carbono, ignorando rios, fauna e ciclos ecossistêmicos. Uma floresta sem fauna é uma floresta condenada. Rios represados, poluídos ou tomados por pesca ilegal interrompem a troca de nutrientes que mantém a floresta viva. Dispersores, predadores e herbívoros ausentes já transformam ecossistemas inteiros em espaços silenciosos.
Além disso, a ausência de um compromisso vinculante de monitoramento entre países apenas confirma o padrão: a implementação segue voluntária, frágil, permissiva para quem não cumpre o que promete.
A mudança real não nasce em tratados — nasce na sociedade.
Ela começa nos indivíduos que escolhem viver com responsabilidade; nos povos originários que preservam um conhecimento biocêntrico milenar; na ciência independente que investiga o que realmente sustenta o planeta; na imprensa que revela o que poderosos tentam ocultar; nos movimentos sociais que insistem na ética da vida; e na sociedade que pressiona, renova e transforma.
Foi assim que dez novas terras indígenas avançaram em seus processos de demarcação — fruto de luta, não de compreensão.
Paul Watson e Célia Xakriabá, professora e ativista indígena, em encontro durante a COP30
Os maiores saltos civilizatórios da história não surgiram por vontade dos governos.
A abolição da escravidão, o direito ao voto das mulheres, os direitos civis — todos começaram com pequenos grupos de pessoas persistentes, determinadas a mudar o mundo. Os governos vieram depois, assinando papéis que apenas reconheceram mudanças já consolidadas na realidade.
É por isso que a virada nunca começará de dentro das COPs.
Acordos, normas e leis são a etapa final — nunca o ponto de partida. O ponto de partida está do lado de fora: onde a vida mostra o caminho.
A Terra ainda se mantém em equilíbrio — um equilíbrio frágil, sustentado por milhões de relações invisíveis que a modernidade insiste em ignorar. Colocar a vida, toda a vida, no centro das decisões não é idealismo. É sobrevivência. É o único caminho.
Os povos originários sempre souberam disso.
Resta saber se a nossa atual sociedade aprenderá a tempo que, por mais que todos querem ter sua vila protegida, todos precisam ser, de fato, aldeões.