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O Rio que nos Une
O Grito da Amazônia: A Luta Contra o Mito do Progresso
Por Francisco Bernardo Arara, liderança da aldeia Itaboca II, Coari (AM)
Vivo em Coari, município que o Brasil insiste em vender como “terra do gás natural”, um símbolo do suposto progresso trazido pela exploração da Petrobras. Mas para mim, Coari é muito mais do que um ponto no mapa energético: é a minha casa, minha floresta, é o lar sagrado de gerações.
Crianças indígenas brincam no Lago Coari em um dia de calor. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli
Em 2024, de acordo com o Atlas ODS Amazônia, Coari ocupou o último lugar no ranking de desenvolvimento sustentável do Amazonas entre os 62 municípios avaliados no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Último lugar.
Mesmo sendo a segunda maior economia do estado, com um PIB de quase R$ 3,4 bilhões em 2021 e uma população de mais de 73 mil habitantes, Coari somou apenas 41 pontos numa escala de 0 a 100 no início de desenvolvimento social de cidades. Enquanto o governo ostenta cifras, nós olhamos para a terra rachada e o lago morto.
A falta de estrutura na cidade é crítica. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli
Mesmo com toda essa arrecadação, Coari enfrenta problemas crônicos: tráfico de drogas, abandono das comunidades ribeirinhas, ausência de infraestrutura básica, seca extrema, e uma dolorosa desigualdade social. Nas grandes secas de 2023 e 2024, faltou água, alimento e assistência de saúde. Vidas se perderam, e ninguém chegou com ajuda. Na zona rural do município em 2023 e 2024, as aulas iniciaram no mês de junho, e em setembro houve a paralisação devido à grande estiagem.
No início do governo Lula, subiram a rampa com um indígena, criaram um ministério. Mas na ponta, onde vivemos, as terras seguem sem demarcação, os direitos seguem no papel, e nós seguimos morrendo. A maquiagem institucional não cobre as feridas abertas por décadas de omissão. De que serve um ministério quando a vida real não muda?
Representantes das comunidades que integram a Rede das Águas de Coari, em outubro de 2025. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli
A proteção dos peixes-boi, dos tambaqui, dos botos, dos quelônios, dos outros peixes e do nosso modo de vida se tornou um símbolo de resistência — e também de esperança. Porque quando nos unimos em nome da vida, a natureza agradece. Aqui na zona rural no entorno do lago Coari, estamos criando uma rede. Indígenas e ribeirinhos.
Comunidades inteiras se articulando para proteger o que ainda resta. Estamos criando uma rede comunitária de Proteção, estamos colaborando com especialistas da cidade e de fora, buscando visibilidade para as dezenas de comunidades esquecidas. Fazemos com as próprias mãos o que o Estado nos nega. Nasce a Rede das Águas de Coari.
Para nós, a Terra não é uma fonte de lucro — é um ser sagrado. É mãe. É o corpo. E tudo que fere a Terra, fere a nós. Essa é nossa visão biocêntrica de mundo: não somos donos do planeta, somos parte dele.
Francisco Bernardo, do povo Arara. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli
Deixo aqui um chamado urgente aos parentes: levantem-se. Organizem-se. A luta pela vida não virá de fora, virá de nós. Não aceitem ser massa de manobra. Sejam protagonistas. Sejam guardiões. Sejam os guerreiros que sempre fomos.
O petróleo apenas nos escraviza – é a água que nos dá a vida, e é o rio que nos une.