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O Rio que nos Une

O Grito da Amazônia: A Luta Contra o Mito do Progresso

Por Francisco Bernardo Arara, liderança da aldeia Itaboca II, Coari (AM)

Sou indígena Professor do povo Arara, Aldeia Indígena Itaboca II, Coari (AM). Meu nome é Francisco Bernardo, mas ele pouco importa quando a realidade da minha terra grita mais alto. Falo por mim e pelos meus — os que há séculos protegem a floresta, o rio e a vida que resiste, apesar de tudo.

Vivo em Coari, município que o Brasil insiste em vender como “terra do gás natural”, um símbolo do suposto progresso trazido pela exploração da Petrobras. Mas para mim, Coari é muito mais do que um ponto no mapa energético: é a minha casa, minha floresta, é o lar sagrado de gerações.

Crianças indígenas brincam no Lago Coari em um dia de calor. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli

Recentemente, nossa região voltou a ser manchete — citada como modelo de desenvolvimento que o petróleo poderia trazer à Amazônia. Mas quem vive aqui sabe que essa narrativa esconde uma ferida aberta: a destruição lenta e sistemática de um território que sangra para enriquecer poucos e empobrecer muitos.

Em 2024, de acordo com o Atlas ODS Amazônia, Coari ocupou o último lugar no ranking de desenvolvimento sustentável do Amazonas entre os 62 municípios avaliados no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Último lugar.

Mesmo sendo a segunda maior economia do estado, com um PIB de quase R$ 3,4 bilhões em 2021 e uma população de mais de 73 mil habitantes, Coari somou apenas 41 pontos numa escala de 0 a 100 no início de desenvolvimento social de cidades. Enquanto o governo ostenta cifras, nós olhamos para a terra rachada e o lago morto.

O município teve um dos piores desempenhos em infraestrutura e desenvolvimento, educação, saúde, segurança e colapsou por completo em gerar empregos, renda digna e desenvolvimento econômico. Nem mesmo cidades com acesso geográfico mais difícil, como Silves, Carauari e São Sebastião do Uatumã, ficaram tão atrás. Esse é o retrato de uma cidade sugada por promessas vazias e interesses que nunca foram nossos. Mesmo sendo uma das regiões mais exploradas pela Petrobras, mesmo com os royalties que aqui caem como migalhas douradas.

A falta de estrutura na cidade é crítica. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Coari recebeu R$136,3 milhões em royalties da Petrobras em 2022. Em 2023, o valor foi de R$ 83,2 milhões. No entanto, em 2024, a arrecadação em royalties para o município foi de R$ 71 milhões (entre janeiro e outubro).

Mesmo com toda essa arrecadação, Coari enfrenta problemas crônicos: tráfico de drogas, abandono das comunidades ribeirinhas, ausência de infraestrutura básica, seca extrema, e uma dolorosa desigualdade social. Nas grandes secas de 2023 e 2024, faltou água, alimento e assistência de saúde. Vidas se perderam, e ninguém chegou com ajuda. Na zona rural do município em 2023 e 2024, as aulas iniciaram no mês de junho, e em setembro houve a paralisação devido à grande estiagem.

O Lago Coari e o Rio Urucu, dragados sem cessar para servir à exploração, agonizam diante de nossos olhos. Peixes e golfinhos mortos, as águas adoecidas, a floresta calada. E enquanto isso, no norte da Amazônia, a história ameaça se repetir. Os governos federal, estadual e municipal insistem em explorar a Foz do Amazonas, mesmo sem autorização do Ibama, diante da emergência climática que clama por regeneração. Os políticos e as empresas petrolíferas ignoram a ciência, as leis ambientais e as leis que asseguraram os direitos dos povos indígenas e dos povos tradicionais.

No início do governo Lula, subiram a rampa com um indígena, criaram um ministério. Mas na ponta, onde vivemos, as terras seguem sem demarcação, os direitos seguem no papel, e nós seguimos morrendo. A maquiagem institucional não cobre as feridas abertas por décadas de omissão. De que serve um ministério quando a vida real não muda?

Representantes das comunidades que integram a Rede das Águas de Coari, em outubro de 2025. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli

Foi diante dessa dor de um lago doente que decidimos agir. Junto com a Sea Shepherd Brasil, começamos a construir uma força comunitária real de proteção. Mapeamos as áreas, iniciamos a conexão entre as comunidades indígenas e ribeirinhas, e estamos trabalhando para termos um barco para ser usado nas ações de vigilância comunitária nas águas do lago Coari. 

A proteção dos peixes-boi, dos tambaqui, dos botos, dos quelônios, dos outros peixes e do nosso modo de vida se tornou um símbolo de resistência — e também de esperança. Porque quando nos unimos em nome da vida, a natureza agradece. Aqui na zona rural no entorno do lago Coari, estamos criando uma rede. Indígenas e ribeirinhos. 

Comunidades inteiras se articulando para proteger o que ainda resta. Estamos criando uma rede comunitária de Proteção, estamos colaborando com especialistas da cidade e de fora, buscando visibilidade para as dezenas de comunidades esquecidas. Fazemos com as próprias mãos o que o Estado nos nega. Nasce a Rede das Águas de Coari.

Para nós, a Terra não é uma fonte de lucro — é um ser sagrado. É mãe. É o corpo. E tudo que fere a Terra, fere a nós. Essa é nossa visão biocêntrica de mundo: não somos donos do planeta, somos parte dele.

Francisco Bernardo, do povo Arara. Foto: Sea Shepherd Brasil / Lucas Amorelli

E a humanidade, se quiser sobreviver, terá que reaprender a cuidar, a respeitar, a conviver. Ou sucumbirá à própria ganância. A sociedade moderna falha, mas seguimos valorizando nossa sociedade ancestral. Nos últimos anos de extrema estiagem na região, como nunca antes visto, testemunhamos uma realidade cruel e silenciosa: a intensa matança de peixes-boi: seres gentis que passaram a ser caçados durante a seca, quando as águas baixam e eles ficam presos nos lagos. Não é uma caça de subsistência: eles são abatidos para alimentar festas e churrasco de famílias ricas na cidade, expondo a impunidade na desigualdade.

Deixo aqui um chamado urgente aos parentes: levantem-se. Organizem-se. A luta pela vida não virá de fora, virá de nós. Não aceitem ser massa de manobra. Sejam protagonistas. Sejam guardiões. Sejam os guerreiros que sempre fomos.

O petróleo nunca nos alimentou, apenas nos escravizou. Essa frase resume a luta das comunidades indígenas e ribeirinhas contra a exploração de petróleo na Amazônia. É hora de repensar o modelo de desenvolvimento e priorizar a proteção da floresta, dos rios e da vida que resiste. Sigamos sendo os povos que lutam contra a morte. A luta pela vida é uma luta que precisa ser travada por todos nós.

O petróleo apenas nos escraviza – é a água que nos dá a vida, e é o rio que nos une. 

Assista ao minidocumentário O Rio que nos Une, da Sea Shepherd Brasil com apoio da Rede das Águas de Coari:

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