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EMPTY THE TANKS 2026: PARA PRESERVAR A VIDA, ESVAZIE OS TANQUES

Foto: GABRIELA COWPERTHWAITE / NYT

Movimento global pelo fim do cativeiro de animais marinhos chega à sua 14ª edição; entenda por que os eventos do projeto também têm a ver com o Brasil - e com você

Por Carol Zerbato, escritora e ativista, voluntária Sea Shepherd Brasil

Como se fosse hoje. É assim que me lembro do dia em que vi uma orca de perto pela primeira vez. Sim, foi uma experiência inesquecível – mas não pelos motivos que quase todo mundo pensa quando começo a contar essa história.

O ano era 1988 e não era apenas uma orca; eram duas. Haviam chegado dos Estados Unidos aproximadamente três anos antes. Para a maioria das pessoas, mais uma razão para não deixar de vê-las: uma vivência que, embora cruel, ilógica e de mau gosto, era vista como suntuosa, divertida e educativa – os mesmos argumentos, pasmem, que tentam justificar o injustificável até os dias atuais, 38 anos depois.

À época, do alto dos meus seis anos de idade, o único comentário que fui capaz de fazer acerca dos animais foi sobre o lugar onde viviam. Era escuro. Era turvo. Era assustador. Não era o oceano. Era um tanque. 

Foto:  Phelan M. Ebenhack, AP

Tanques ocupados, vidas esvaziadas

O tanque que marcou a minha jornada como ativista e escritora – não tanto quanto mudou o curso natural da vida daqueles que foram explorados dentro dele – não existe mais. A atração foi encerrada naquele mesmo ano, após uma das orcas ser encontrada morta.

Parece uma fatalidade isolada, mas, na indústria multibilionária do entretenimento com cetáceos, é uma tragédia anunciada: segundo dados de 2026 da Whale and Dolphin Conservation (WDC), desde 1961, 166 orcas foram capturadas do oceano e encarceradas em complexos marinhos; desse total, 133 estão mortas. Na natureza, a expectativa de vida das fêmeas da espécie, por exemplo, pode chegar – e, em alguns casos não tão raros, até ultrapassar – os 90 anos. 

Os registros de 2025 divulgados pela mesma organização indicam que, dos 3.700 cetáceos estimados atualmente em cativeiro, cerca de 3.000 pertencem à família dos golfinhos; apontam também que exemplares menores, como os golfinhos-nariz-de-garrafa, são considerados por aquários e parques marinhos mais fáceis de treinar e transportar.

Não, não tem golfinhos em cativeiro no Brasil. Não tem, mas já teve. Em 1984, um exemplar da espécie foi capturado, por encomenda, das águas de Laguna, em Santa Catarina, para viver em um tanque de 12 metros de largura, em uma instalação na cidade de Santos; recebeu o nome de Flipper – uma associação à série de televisão homônima da década de 1960.

Em 1991, a Justiça embargou os espetáculos promovidos com o golfinho, com base na primeira Lei de Proteção Animal do país (nº 24.645, de 1934) que, entre uma vasta lista de atitudes reprováveis, prevê como maus-tratos manter animais em lugares anti-higiênicos e obrigá-los a trabalhos excessivos ou superiores às suas forças. Dadas as condições deploráveis do espaço inóspito onde Flipper vivia, a intervenção estava mais do que legitimada: “O tanque estava com o filtro de água quebrado. No fundo dele, havia uma crosta de fezes acumuladas, roupas, latas e outros dejetos. Para disfarçar essa sujeira, era usada uma quantidade enorme de cloro. Por conta desse excesso, Flipper praticamente não abria os olhos”, relembra o ativista Richard O’Barry que, na ocasião, veio ao Brasil para avaliar se o animal estava apto a viver novamente em liberdade e, se sim, adaptá-lo para tanto. 

Flipper foi reabilitado e voltou às águas das quais foi sequestrado no dia 2 de março de 1993. Estima-se que ele ainda está vivo – e livre.

E, sim, é assim que acontece. Acabar, de uma vez por todas, com o cativeiro de cetáceos não significa sair por aí libertando golfinhos indiscriminadamente como no filme “Free Willy”, em que um garoto consegue fazer uma orca cativa dar um salto para liberdade. Reabilitações e solturas exigem tempo, planejamento e investimento, principalmente para manter o bem-estar físico e mental do animal durante todo o processo. Nesse contexto, educação e conscientização são basilares para mudar efetivamente o destino dos cetáceos visados e explorados pela indústria de shows e interações com a vida selvagem: se ninguém mais consumir esse tipo de crueldade disfarçada de entretenimento, ninguém mais venderá esse tipo de crueldade disfarçada de entretenimento. 

Foto: Silvio Luiz

Proteger o oceano é preservar a vida - a deles e a nossa

Você já ouviu falar do projeto Empty the Tanks?

Criado em 2012 por Rachel Carbary, que trabalhou voluntariamente para registrar e denunciar a caça de golfinhos na cidade de Taiji, no Japão, o movimento global Esvazie os Tanques – em tradução livre e literal – tem como missão conscientizar e educar para o fim do cativeiro de animais marinhos, preservando assim a vida na água… e na Terra.

Sabia que mais da metade do ar que respiramos vem do oceano? Muito porque as águas abrigam o fitoplâncton: um conjunto de organismos microscópicos fotossintetizantes que, segundo o programa europeu Copernicus, produz entre 50% e 80% do oxigênio atmosférico – volume que supera o das florestas terrestres. Esses minúsculos e tão eficientes seres ainda ajudam a regular o clima e mitigar os efeitos do aquecimento global, já que o processo de fotossíntese contribui para a remoção do dióxido de carbono da atmosfera – o que também garante condições adequadas para a agricultura, ou seja, para a produção dos nossos alimentos.

Sendo assim, mesmo que o Brasil não tenha parques marinhos ou mantenha cetáceos em cativeiro, aquários e zoológicos aquáticos ainda fazem parte da cultura do nosso país. Por isso, você, eu, cada um de nós, brasileiros, também temos o nosso lugar de fala nessa discussão.

Eventos do Empty the Tanks Worldwide 2026 acontecem nos dias 9 e 10 de maio ao redor da América, na Europa, na Ásia e na Austrália. Compartilhe publicações, dissemine informações fundamentadas, checadas e confiáveis, e questione o que interfere no futuro da vida.

 

Seguimos juntos pelo que somos. Porque somos todos oceano. 

Foto: Sea Shepherd Brasil