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Os Guardiões da Enseada e a política “gaiatsu” da Sea Shepherd

2 setembro 2013

Comentário pelo Fundador da Sea Shepherd, Capitão Paul Watson

The Cove. Foto: Brooke MacDonald (2003)

Os Guardiões da Enseada são homens e mulheres apaixonadamente compassivos, que vêm de todo o mundo, incluindo  o Japão. Eles vêm por conta própria. Estão na enseada antes do sol nascer, e lá continuam após o sol se por. Há Guardiões da Enseada em Taiji todos os dias, entre 1º de setembro e 1º de março de cada ano. Durante seis meses, a cada ano, testemunham um dos massacres mais implacáveis ​​e brutais de mamíferos marinhos do planeta.

Eles estão armados com a arma mais poderosa no mundo: a câmera.

No entanto, é um exercício emocionalmente desgastante a defesa diária de golfinhos.

Os Guardiões da Enseada agem de forma não violenta, dentro dos limites da praticidade e legislação japonesa .

Eles estão lá para lembrar o governo do Japão e os pescadores de Taiji que o mundo está assistindo todos os dias, e continuará a fazê-lo até que o abate obsceno termine.

A Sea Shepherd expôs pela primeira vez este massacre brutal dez anos atrás. Nossas fotos e vídeos deram a volta ao mundo, em outubro de 2003. Foi quando a campanha começou.

Estávamos envolvidos muitos anos antes neste trabalho, para colocar um fim, com êxito, na matança de golfinhos na ilha de Iki, no Japão. Defendemos os golfinhos no Japão desde 1979.

Ric O’Barry era um membro da tripulação da Sea Shepherd em 2003, e membro do Conselho Consultivo da Sea Shepherd. Esse foi o mesmo ano em que dois membros da tripulação da Sea Shepherd cortaram as redes e libertaram 15 golfinhos da Enseada. A libertação dos 15 golfinhos valeu a pena pelo mês de prisão passado por Alex Cornelissen, da Holanda, e Allison Lance, dos Estados Unidos.

Ric discordou do ato de cortar as redes e voltou por conta própria depois disso, porque ele estava preocupado em ser conectado à Sea Shepherd. Ele sentiu que isso tornaria mais difícil sua entrada em Taiji. Isso foi compreensível, e seus esforços foram recompensados ​​com o lançamento do documentário vencedor do Oscar  The Cove, dirigido por Louis Psihoyos.

A Sea Shepherd sempre aplaudiu Ric O’Barry e o Dolphin Project. Os golfinhos de Taiji precisam da ajuda de todos que possam contribuir para acabar com esse massacre impiedoso e sangrento.

A Sea Shepherd decidiu reorganizar, em 2010, os Guardiões da Enseada, para trazer pessoas de todo o mundo para Taiji.

Os Guardiões da Enseada da Sea Shepherd, os Save The Dolphin Japan, Surfers for Cetaceans e o Dolphin Project sempre estiveram unidos pelo objetivo comum de acabar com esta matança. Temos abordagens diferentes, mas temos o mesmo objetivo.

A Sea Shepherd fez um acordo com o Dolphin Project de não boicotar os produtos japoneses, de modo a não alienar o público japonês. A Sea Shepherd partilha com o Dolphin Project a idéia de que a nossa oposição deve ser legal e não violenta .

O que os Guardiões da Enseada estão fazendo em Taiji nunca foi feito antes. Nunca antes os voluntários viajaram por conta própria para participar de uma longa vigília de seis meses, ano após ano.

Admiro e respeito todos que estão envolvidos com a oposição ao massacre em Taiji. Mas a minha admiração pelos voluntários que participam do programa Guardião da Enseada é imensa. Estes homens e mulheres são pessoas comuns, motivadas por um profundo sentimento de compaixão e amor pela natureza e animais. Eles não ganham nada para si mesmos, e sofrem o trauma emocional de testemunhar as atrocidades contra estas criaturas delicadas .

Para os críticos, que dizem que devemos esperar o povo japonês agir, só posso dizer que nos congratulamos com a participação dos cidadãos japoneses, e muitos já participaram, mas o preço que pagam é ter suas famílias perseguidas pela polícia japonesa.

Como um canadense, eu sei que não foi o povo canadense que levou à queda econômica da caça de focas. Foi a pressão externa ao Canadá.

Os governos tendem a prestar mais atenção à pressão externa do que à pressão interna.

Isto é especialmente verdadeiro no Japão.

No Japão, isso é chamado de “gaiatsu”, que significa pressão externa, e que tem sido comprovada pelo trabalho.

Cada mudança na política ambiental iniciada no Japão surgiu por causa da pressão externa. Na organização do programa Guardião da Enseada estudei um artigo escrito por Isao Miyaoka, do Instituto Japonês de Ciências Sociais, intitulado “Pressões estrangeiras e o processo de decisão da política japonesa”.

Essa pressão pode vir de governos ou grupos não governamentais, e pode ser dirigida para o governo japonês, as empresas japonesas ou o público japonês.

” Na década de 1980 e início de 1990, o Japão foi alvo de severas críticas internacionais na área das questões ambientais globais. Em 1992 , em conseqüência disso, o Japão mudou suas políticas de esgotamento de ozônio, tipo de pesca, e as importações de marfim de elefante Africano”. Isao Miyaoka

A Sea Shepherd esteve muito envolvida na pressão ao Japão sobre a pesca de arrasto, de 1987 até 1992, quando as redes de espera foram finalmente proibidas.

O que funciona melhor é uma estratégia combinada de pressão externa e interna, mas de acordo com Miyaoka, o Japão é um Estado reativo quando se trata de questões ambientais. Não houve nenhum caso de uma mudança na política ambiental que iniciou com pressão interna sozinha.

Uma diferença entre a abordagem do Dolphin Project e dos Guardiões da Enseada da Sea Shepherd é que o Dolphin Project favorece a intervenção exclusivamente doméstica, apesar do fato de que o Dolphin Project é liderado por estrangeiros.

A Sea Shepherd favorece a abordagem “gaiatsu”, na medida em que é a pressão externa que vai acabar com a matança de golfinhos.

O Dolphin Project e a Sea Shepherd têm participado em manifestações diante das embaixadas e consulados japoneses.

O Dolphin Project quer mais envolvimento japonês na oposição à matança dos golfinhos. A Sea Shepherd quer isso também, e não se opõe ao envolvimento japonês, na verdade a Sea Shepherd encoraja isso, e cidadãos japoneses estão envolvidos em atividades da Sea Shepherd, tanto em oposição à matança de golfinhos quanto à caça comercial ilegal no Oceano Antártico.

O programa Guardião da Enseada pode trabalhar em cooperação com o Dolphin Project, e a Sea Shepherd gostaria muito de ver esta cooperação contínua. Nós não vemos isso como um conflito, vemos isso como uma oportunidade para unir tanto a pressão interna quanto a pressão externa, para acabar com a matança dos golfinhos.

Os golfinhos também não são de propriedade dos japoneses, e cada pessoa no planeta tem o direito e o dever de falar em seu nome. Compaixão não tem uma raça ou uma cultura. Bondade não tem uma nacionalidade.

Se os Guardiões da Enseada e a Sea Shepherd se retirarem, a matança vai continuar, longe dos olhos e da consciência mundiais. Isso seria um benefício para os pescadores e para o governo do Japão. Não iria beneficiar os golfinhos.

A oposição à matança de golfinhos deve ter a união tanto de influências estrangeiras quanto do envolvimento interno. Os Guardiões da Enseada estão em Taiji para ficar e, embora o Dolphin Project queira que nos retiremos, não podemos e não vamos fazer isso.

É nossa intenção trabalhar em conjunto e apoiar os esforços de todos os grupos que se opõem à matança de golfinhos, e é minha convicção de que, se quisermos ter sucesso, devemos ter uma confederação de compaixão, e devemos sempre pensar em primeiro lugar, e acima de tudo, no bem-estar e na sobrevivência dos golfinhos.

Pressão externa e o processo de decisão política japonesa. Por Isao Miyaoka, do Instituto Japonês de Ciências Sociais (em inglês).

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