Editorial

Rejeitando uma conciliação a caça às baleias

Comentário pelo Capitão Paul Watson
Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB

Capitão Paul Watson

Capitão Paul Watson

Geoffrey Palmer foi um dos arquitetos do acordo infame que felizmente não conseguiu passar na última reunião da Comissão Internacional da Baleia (CIB). Foi uma conciliação que ganhou um apoio considerável, incluindo o apoio dos Estados Unidos, da Comissão Internacional da Baleia e do Greenpeace.

Resumindo, Palmer queria que o Japão tivesse permissão para caçar baleias, tanto no Pacífico Norte quanto no Oceano Austral, em troca de apenas reduzir a sua cota de matança no Santuário de Baleias no Oceano Antártico.

Foi uma resposta muito submissa à continuação das atividades baleeiras ilegais do Japão nas águas da Antártida. Era como se a Nova Zelândia, os Estados Unidos, e o Greenpeace aderissem à falta de entendimento do Japão do que as palavras “santuário de baleias” significam.

Esta loucura de “vamos matar as baleias para salvá-las” foi derrubada na última reunião da Comissão Internacional da Baleia, realizada em Marrocos.

Em uma entrevista recente para o jornal japonês Asahi Shimbum, Palmer explica como o Japão perdeu a oportunidade de legalizar a sua atividade baleeira.

A entrevista segue abaixo junto com os meus comentários.

O retorno da Sea Shepherd em dezembro para o Oceano Antártico para a nossa sétima campanha para intervir contra operações ilegais de caça às baleias do Japão será chamada Operação Conciliação Não, em resposta a esta tentativa fraca e subserviente por Palmer e seus aliados para vender as baleias e o Santuário de Baleias do Oceano Antártico.

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PONTO DE VISTA – Geoffrey Palmer: Japão perdeu o barco na baleação costeira

Especialmente para o Asahi Shimbun

Geoffrey Palmer: Todo ano, pouco antes do Natal na Nova Zelândia, nossas telas de televisão ficam cheias de imagens das atividades de caça à baleia do Japão no Oceano Antártico. Como 90 por cento das pessoas na Nova Zelândia se opõem à caça, essas imagens causam grande angústia.

Capitão Paul Watson: Geoffrey Palmer começa dizendo que 90 por cento dos neozelandeses se opõem à caça de baleias e ignora isso para promover a idéia de que o Japão deveria ter a sua atividade baleeira legalizada.

Geoffrey Palmer: Na Comissão Internacional da Baleia, por muitos anos as negociações estavam em um impasse. Tentamos resolver isso com um pequeno “grupo de apoio” das nações pró e anti-caça que eu presidi, e o processo levou à reunião anual deste ano.

Dentro desse processo, o Japão mostrou vontade de fazer um acordo, e indicou que iria reduzir o número de baleias capturadas no Oceano Antártico, se fosse permitida alguma caça costeira no Pacífico Norte em troca. Esta proposta era atraente para nós na Nova Zelândia, e estávamos prontos para apoiar.

Capitão Paul Watson: Ela não era atraente para o povo da Nova Zelândia. Era atraente para o governo da Nova Zelândia, porque eles estavam procurando uma maneira de apaziguar o Japão para não perturbar as relações comerciais. Neozelandeses não são favoráveis à legalização baleeira no Pacífico Norte, em troca de uma redução na matança de baleias no Oceano Antártico. A Sea Shepherd já conseguiu essa redução na matança. Nada poderia ser alcançado através da redução das quotas, já que eles já estão reduzindo de qualquer maneira devido a nossa interferência.

Geoffrey Palmer: Infelizmente o acordo não foi aceito na reunião deste ano, e a razão para isso foi a falta de vontade política de ambos os lados. A oportunidade estava lá, mas não foi aproveitada.

Capitão Paul Watson: Ah sim, a vontade estava lá sim. O Japão queria tudo, e não como a Nova Zelândia e os Estados Unidos, eles não estavam dispostos a conciliar em nada. Felizmente, as nações da América Latina, Europa, Austrália mantiveram-se firmes na oposição à legalização da caça à baleia no Santuário de Baleias do Oceano Antártico.

Geoffrey Palmer: O acordo proposto foi baseado na simples idéia de que menos baleias seriam mortas. A questão era como reduzir, e buscamos um resultado realista. O Japão deixou claro que iria reduzir suas atividades baleeiras no Oceano Antártico só se fosse permitido um certo nível de caça na costa.

Capitão Paul Watson: O número de baleias mortas é menor a cada ano desde que as intervenções da Sea Shepherd começaram. Palmer tem sido hostil com a Sea Shepherd Conservation Society há muito tempo, e, portanto, simplesmente se recusa a reconhecer as reduções na matança de baleias que conquistamos através de nossas intervenções.

Geoffrey Palmer: No entanto, as baleias são um assunto altamente emocional em muitos países, e essa emoção pode levar a uma análise de cabeça-dura. Existe uma resistência à idéia de que a atividade baleeira sustentável é aceitável, e muitas pessoas acreditam que o que é aceitável é que não se tenha atividade baleeira.

Capitão Paul Watson: Não se trata de emoção. Trata-se de legislação internacional de conservação. O que o Japão está fazendo é ilegal. Palmer pensa que conciliação com caçadores é digno de elogio. Claro que há resistência. As atividades criminosas devem ser combatidas. E sim, não deveria haver atividade baleeira, por ninguém, em lugar algum, por qualquer motivo. Como Palmer disse no início de seu artigo, noventa por cento dos neozelandeses se opõem à caça, então por que ele está se comprometendo com os 10% que, aparentemente, apóiam a atividade baleeira. É inaceitável um acordo para apaziguar os interesses de meros dez por cento. Não existe isso de caça de baleia sustentável. Palmer talvez não tenha notado, mas também não existe pesca sustentável. Nossos oceanos estão morrendo e não podemos salvar a biodiversidade dos mares matando baleias e peixes. Nós já reduzimos o número de todas as espécies marinhas para além dos níveis aceitáveis.

Geoffrey Palmer: Além disso, a idéia de um acordo é sempre pouco atraente. Abrir mão de algo, quando é considerado um princípio, é visto como perigoso se não receber o suficiente em troca. Em muitos países, as baleias têm status de ícone e as pessoas pensam que as baleias não devem ser mortas por qualquer motivo. Muitos desses países são, naturalmente, ex-nações baleeiras.

Capitão Paul Watson: Palmer e eu concordamos com isso. Acordos não são atraentes. Se as ex-nações baleeiras, como os Estados Unidos, Holanda, Grã-Bretanha e Austrália podem abolir a caça de baleias, também podem fazê-lo as ricas nações modernas, como o Japão, a Noruega e a Islândia.

Geoffrey Palmer: Para os países que não praticam a caça à baleia, aos governos muitas vezes falta conhecimento sobre o tema, e são facilmente persuadidos pelos apelos de ONGs ambientais. Além disso, como são governos democráticos, não podem ignorar a opinião pública.

Capitão Paul Watson: É muito insultante da parte de Geoffrey Palmer afirmar que as nações não-baleeiras são carentes de conhecimento sobre as baleias e baleeiros. Os japoneses podem ser especialistas em matar baleias, mas os conhecimentos científicos sobre as baleias, os seus números, biologia e comportamento certamente não são deficientes nas nações que votaram contra a retomada da caça às baleias. Palmer está completamente pronto para ignorar as preocupações de 90% de seus conterrâneos em seus esforços para colaborar em tentar apaziguar os baleeiros japoneses.

Geoffrey Palmer: No entanto, o Japão poderia ter oferecido mais nas negociações.

Eu analiso o Japão como uma pequena ilha com uma população grande, o que leva o governo a colocar uma forte ênfase na segurança da alimentação. Embora as pessoas no Japão comam menos carne de baleia do que costumavam, o governo não quer que os recursos do mar se fechem para eles.

No entanto, o Japão poderia ter ganhado muito reduzindo sua caça à baleia no Oceano Antártico. É lamentável que a delegação japonesa não tenha avançado no início das negociações. Na minha opinião, se o Japão tivesse feito sua oferta final numa fase anterior, o resultado poderia ter sido diferente.

Capitão Paul Watson: O Japão não está interessado em acordo. Eles acreditam no assédio moral econômico para atingir os objetivos que desejam, e parecem estar trabalhando nisso com a Nova Zelândia. Um navio japonês deliberadamente bateu e destruiu uma embarcação registrada na Nova Zelândia, e a Nova Zelândia sequer questiona o capitão japonês responsável pelo crime. Na verdade, o governo da Nova Zelândia, ao lado dos baleeiros japoneses, se recusa a condenar o ataque feito pelo navio japonês.

Geoffrey Palmer: A moratória da caça comercial à baleia é uma das grandes vitórias da governança global, e é minada pelo programa baleeiro japonês. O Japão utiliza uma brecha para levar a cabo esta atividade baleeira, e sua reputação sofre porque muitas pessoas de outros países pensam que a base científica para isso é uma farsa.

Capitão Paul Watson: Não, não acho que é uma farsa. Foi provado que é uma farsa. A chamada “caça científica” é uma fraude, e não engana ninguém, exceto aqueles que acham conveniente ser enganado em benefício de suas próprias agendas. Que tipo de grande vitória é esta moratória onde cerca de 20.000 baleias foram mortas desde que foi implementada. Se fosse uma vitória, então não teríamos a necessidade de intervir contra as atividades baleeiras ilegais que operam em desafio a esta moratória.

Geoffrey Palmer: Concessões no programa de caça às baleias no Oceano Antártico permitiriam ao Japão buscar a baleação costeira, mas também trazer paz aos confrontos anuais que não contribuem nada para sua reputação internacional e os seus objetivos de política externa.

Capitão Paul Watson: Palmer não tem credibilidade para fazer tal declaração. A Sea Shepherd Conservation Society não aceitará nada menos do que um desligamento total das operações de caça às baleias no Santuário de Baleias do Oceano Antártico. Palmer pensou que simplesmente iríamos embora se tal conciliação fosse negociada? Ele obteve garantias do Greenpeace que eles iriam se abster de novas intervenções, mas o Greenpeace não tem feito nenhuma intervenção contra a caça às baleias no Oceano Antártico desde 2007. Nosso retorno às águas da Antártida em dezembro de 2010 será chamado de Operação Conciliação Não, em resposta a essa tentativa fracassada de apaziguar os baleeiros japoneses.

Geoffrey Palmer: O tratado em que a Comissão Internacional da Baleia se baseia é fundamentalmente defeituoso. Ele contém objetivos tanto de gestão de cotas de caça quanto de conservação de baleias. Não está claro se os dois objetivos podem ser alcançados.

As negociações na Comissão Internacional da Baleia farão uma pausa agora, mas não acabaram. É preciso haver reconsideração de ambos os lados se vamos fazer um acordo. Em um discurso no início deste ano, eu disse que para o acordo ser alcançado, ambos os lados teriam de sofrer a dor, e se sentirem como se tivessem engolido um rato morto. Nesta ocasião, o apetite para os ratos mortos era muito limitado.

Capitão Paul Watson: Não há consenso necessário. O que é necessário é a aplicação das leis existentes. O Japão está ilegalmente matando baleias-fin, baleias-jubarte e baleias-minke protegidas em um santuário de baleias a nível internacional, violando uma moratória global na caça à baleia, violando o Tratado da Antártida, e desprezando o Tribunal Federal australiano. As baleias continuam sofrendo a dor do Sr. Palmer, agonizando uma dor cruel horrível, e é essa dor que queremos colocar um fim, e, portanto, não temos a intenção de engolir seus ratos do acordo. A atividade baleeira deve ser encerrada no Oceano Antártico, sem condições, exceções ou conciliações.

Geoffrey Palmer é um ex-primeiro ministro da Nova Zelândia e um representante da Comissão Internacional da Baleia. Este artigo foi compilado a partir de uma entrevista no Asahi Shimbun.

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