Editorial

Agente da operação secreta da Sea Shepherd fala à população das Ilhas Faroé

O seguinte texto foi publicado no dia 30 de julho no maior jornal nas Ilhas Faroé, Dimmalaetting. É uma carta do agente secreto da Sea Shepherd Peter Hammarstedt escrita para o povo das ilhas Faroé.

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Peter Hammarstead ajuda baleias piloto encalhadas na Austrália em 2009.

À população das Ilhas Faroé:

Faz uma semana que eu estive em Klaksvik, e desde então eu li que outra matança de baleias aconteceu em Torshavn. Não estou surpreso, pois sei que mudanças levam tempo. Nunca esperei que a matança acabasse do dia para a noite porque tirei algumas fotografias. Mas ainda me sinto otimista, pois sei que se observarmos a história, sei que um dia a matança chegará ao fim.

A atividade baleeira ajudou a construir a Austrália. A costa da ilha da Tasmânia está entulhada de antigas estações baleeiras. Uma única estação baleeira em Queensland, na costa nordeste do país, matou 6.277 baleias Jubarte  em uma única década em meados do século 20. Nos anos 50 e 60, uma empresa baleeira no leste da Austrália matava uma média de 1.000 baleias Cachalote e Jubarte por ano.

Mas, em 20 de novembro de 1978, a última baleia foi morta na Austrália. Um crescente movimento de ambientalistas australianos, liderado em parte pela filha do então Primeiro-Ministro Malcom Fraser, convenceu Fraser a acabar definitivamente com a caça às baleias e agir da maneira que ele “já sabia que era o certo”. Apenas 30 anos depois, a Austrália é um dos maiores opositoresà atividade baleeira na Comissão Internacional da Baleia (CIB), e recentemente anunciou suas intenções de denunciar a atividade baleeira japonesa na Antártica ao Tribunal Internacional de Justiça, na cidade holandesa de Haia, por suas atividades baleeiras ilegais. Tradições às vezes mudam, porque às vezes uma mudança na consciência humana demanda que isso aconteça.

Assistir ao resultado da matança em Klaksvik não foi meu primeiro contato de perto com baleias piloto encalhadas. Há aproximadamente um ano, participei de um mutirão de resgate na Austrália, quando 174 baleias piloto encalharam numa ilha isolada. Das 54 baleias que estavam encalhadas vivas, 53 foram reintroduzidas ao mar por voluntários da Sea Shepherd, moradores da ilha e uma equipe de ambientalistas de uma coalizão de agências do governo. O tempo piorou e atrasou nossas tentativas de salvar a última baleia. Por quase 3 dias, nós sentamos ao seu lado, cobrindo-a de mantas molhadas para protegê-la do sol. Nós derramávamos baldes de água nela enquanto monitorávamos sua respiração.

Quando o vento diminuiu, colocamos um cinturão nela e a rebocamos para o mar com a ajuda de dois jetskis. A 100 metros da costa, ela começou a se afastar do reboque e, por helicóptero, pudemos ver que ela foi diretamente ao encontro de seu grupo. Eles haviam passado três dias esperando por ela apenas a meia milha da costa. Desde então, nunca mais duvidei da complexidade de seus grupos sociais, e algumas vezes penso que cetáceos são mais capazes de demonstrar empatia e compaixão do que nós, humanos.

Impressionou-me o fato de que para salvar a vida de uma baleia, o governo australiano se dispôs a investir em uma equipe de 10 cientistas e experts em vida selvagem para salvar apenas uma baleia quando, trinta anos atrás, baleias tinham mais valor mortas do que vivas. Foi nessa história que estava pensando quando recebi um e-mail anônimo de um nativo de Faroé. Essa pessoa me disse que quase no mesmo momento em que eu estava na Austrália, uma orca havia encalhado no porto de Klaksvik. Moradores locais correram para lá, mas desta vez deixaram os equipamentos de matança em casa. Um tremendo esforço foi feito para reintroduzir a orca ao mar e, não fosse por sua saúde já deteriorada, ela teria sobrevivido. Tenho razões para sentir-me confiante de que a matança terá fim um dia.

Cultura e tradição são importantes, mas como disse Mahatma Gandhi uma vez: “A grandiosidade de uma nação e seu progresso moral pode ser julgada pela forma pela com seus animais são tratados”. As baleias piloto ajudaram na sobrevivência da população de Faroé por anos, mas agora, quando as ilhas Faroé têm um dos melhores padrões de vida do mundo, a matança não é mais necessária à subsistência. Assim como a Austrália, Faroé está numa posição em que pode escolher entre a observação de baleias e a caça de baleias, escolher a compaixão ao invés do assassinato. Às vezes nós agimos com pouca reflexão porque somos criaturas de hábitos. Eu honestamente acredito que um dia a população de Faroé irá escolher por acabar com a matança, não porque eu penso que deveria, mas sim porque é “o certo”- não apenas pela crueldade envolvida na matança ou o efeito no meio ambiente, mas também pelos metais pesados encontrados na carne das baleias.

Como um conservacionista e amante do mar, eu estive em todos os 7 continentes, e perdi a conta de quantos países visitei, e tenho que dizer que nunca estive em um lugar mais bonito que as Ilhas Faroé. Então, me machuca o fato de que não posso mencionar um dos melhores pontos secretos de turismo sem ressaltar que todo verão as águas em torno dessas lindas ilhas tornam-se vermelhas de sangue. Anseio pelo dia em que as ilhas Faroé não serão conhecidas apenas pela cruel matança de baleias, mas pelas músicas que não saem da cabeça de Annika Hoydal, a belíssima poesia de Roi Patursson, os dramáticos fiordes e lugares como Gjogv e o inofensivo povo  faroês.

Respeitosamente,

Peter Hammarstedt
Primeiro Oficial do navio Bob Barker
Sea Shepherd Conservation Society

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