Editorial

O arco-íris desaparece enquanto o Greenpeace trai as baleias

Perdoe-me o teu sangramento Terra por eu ser tão gentil e suave com esses açougueiros.
– William Shakespeare
– Júlio César

Comentário pelo Capitão Paul Watson
Co-fundador da Fundação Greenpeace 

Paul Watson em 1975 em campanha contra baleeiros russos, ainda pelo Greenpeace.

Paul Watson em 1975 em campanha contra baleeiros russos, ainda pelo Greenpeace.

Em 1974, quando o Dr. Paul Spong, Robert Hunter e eu organizamos a primeira viagem para salvar as baleias, todos concordávamos com uma coisa – a matança de baleias era imoral, cruel, ecologicamente insalubre e não tinha lugar no mundo moderno. Nossa posição era de que toda a caça de baleias deveria ser abolida. Era simplesmente assassinato.

Assim, Bob Hunter, George Korotva, Fred Easton, e eu nos encontramos na frente de um barco arpão soviético em junho de 1975, enquanto oito magníficos cachalotes fugiam diante de nós em pânico, numa corrida desesperada para salvar suas vidas. Nós sentíamos como sua respiração estava quente enquanto elas jorravam em estouros rápidos, seus pulmões gigantescos levados ao limite, tentando fugir da mortífera máquina de matar caindo sobre elas.

E foi lá, a umas sessenta milhas da costa da Califórnia, que o movimento contra a caça de baleias começou, quando o arpoador soviético puxou o gatilho e mandou um arpão explosivo diretamente sobre nossas cabeças e na parte dorsal de uma das baleias em fuga.

Era uma fêmea e ficamos chocados ao ouvir um grito de dor de gelar o sangue, enquanto o sangue quente do ferimento bombeava uma fonte vermelha no mar frio. Assistimos horrorizados e petrificados quando um macho genorme levantou sua grande cabeça fora d’água e mergulhou de volta ao mar, a cauda subindo e seguindo seu corpo, e depois desapareceu.

Sentamos em dois pequenos botes infláveis em meio à mancha de sangue que cobria o mar, enquanto a fêmea se enrolava em agonia na nossa frente, os russos começaram a recarregar seu arpão e se preparavam para prender um cabo, quando de repente a superfície do mar explodiu atrás de nós e vimos um cachalote com raiva subir do mar em uma tentativa desesperada e sem esperança de defender a fêmea desses assassinos. Mas eles estavam à sua espera e friamente apertaram o gatilho, atirando um arpão, que acertou a cabeça do grande macho  e explodiu em um banho de sangue, enquanto a baleia, morrendo, caiu gritando lamentavelmente, se contorcendo dolorosamente em uma piscina de sangue.

E ainda estávamos sentados lá. Eu tinha saltado para o barco com Fred Easton e ele tinha apenas capturado o tiro do arpão em sua câmera, e estava tentando mantê-la sem se molhar, quando vimos o mergulho da baleia mortalmente ferida, e um rastro de sangue e bolhas vieram em nossa direção rapidamente.

A baleia veio para cima e para fora da água, levantando a cabeça rapidamente ao lado de nosso barco em um ângulo que traria seu corpo desabando sobre nós. A água salgada fria e o sangue fumegante caiu sobre nós, enquanto eu vi seus olhos aparecerem diante de mim, tão perto que eu podia ver meu próprio reflexo, e foi nesse momento que algo aconteceu e minha vida nunca mais foi a mesma.

Porque nesse olhar singular, eu vi um vislumbre de inteligência, e eu senti que a baleia entendia o que estávamos tentando fazer, e de repente eu vi um esforço incrível da baleia para parar o seu ataque sobre nós, seus músculos apertaram e o ângulo de seu corpo mudou assim que ela começou a afundar de volta ao mar, ao nosso lado, em vez de nos esmagar embaixo dela. Eu vi o seu olhar afundando no azul profundo do mar e desaparecendo, e eu sabia que eu era a última coisa que ela viu antes de morrer.

O sol estava se pondo enquanto os russos começaram a transportar sua matança com gestos ameaçadores para nós. Eu mal conseguia falar, o olhar da baleia me assombrava. Ela sabia, ela estava consciente, era tão fácil ver e o que me causou calafrios era que o que eu tinha visto em seu olhar – pena!

Não de si, mas de nós. Como podíamos matar tão sem remorsos e sem empatia, ou até mesmo sem pensar no que estávamos fazendo?

Quando olhei para a frota baleeira russa espalhada ao redor do meu pequeno barco, eu me perguntei o que os motivava? Eles estavam matando estes magníficos, inteligentes e socialmente complexos seres sencientes, para quê?

E ocorreu-me que um dos produtos que eram cobiçados das baleias era o óleo extraído do esperma das baleias, um ubrificante resistente utilizado em máquinas sofisticadas, incluindo a produção intercontinental de mísseis, e então percebi que estávamos matando esses seres perfeitos para a obtenção de um óleo utilizado na produção de uma arma destinada a exterminar grandes populações de seres humanos.

E foi isso que me surpreendeu. O homem é realmente tão insano?

E a partir daquele dia em diante, dediquei minha vida a defender as baleias do assassinato designado à minha própria espécie. Aquela baleia tinha escolhido poupar a minha vida, e então decidi dedicar a minha vida a defender as baleias da espécie humana.

Hoje as baleias são meus clientes, não as pessoas.

E assim é com profunda tristeza e um sentimento de traição que eu vejo a organização que co-fundei agora comprometer a vida das baleias.

É claro que muita coisa mudou. Muitas das pessoas do Greenpeace original morreram ou se mudaram, e alguns simplesmente se venderam. Alguns de nós, inclusive eu, fomos vítimas de revisões, e tivemos o status de co-fundador removido do site do Greenpeace para nos tornarmos apenas antigos membros.

Mas isso não é importante, eu não me importo de ser traído pelo Greenpeace, mas o que me importa e me entristece dolorosamente é que o Greenpeace está traindo as baleias e está apoiando a retomada da caça comercial de baleias sob certas condições. É como se o Greenpeace reivindicasse soberania sobre a vida das baleias para trocá-las nas negociações com seus assassinos.

Por quê? Porque é da natureza dos burocratas fazer acordos e o Greenpeace é agora uma mega eco-corporação internacional dirigida por eco-burocratas. As baleias já se tornaram apenas números e a Comissão Internacional da Baleia (CIB) nada mais do que um ciclo anual de negociações, sujeita à influência de suborno, não de ciência, e de política, e não de conservação.

Uma coisa é certa. Estes negociantes nunca viram uma baleia morrer. Eles nunca olharam no olho de uma baleia. Eles nunca foram testemunha da inteligência e magnificência de uma baleia e do que realmente é – não um número ou um pedaço de sushi em um prato, mas um ser repleto de inteligência, cultura e percepção.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.

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