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O custo oculto da carne de tubarão: contaminantes para consumidores, ameaça para a espécie

Estudo liderado pela Sea Shepherd Brasil identificou concentrações elevadas de metais e metaloides na carne de tubarão comercializada no país.

Publicado em 2026 na revista Food Science and Technology, o artigo “Metal(loid) concentrations in shark meat commercialized in Brazil: Implications for human health and biological conservation” foi financiado pelo Instituto Linha D’Água, reuniu nove pesquisadores liderados pela Sea Shepherd Brasil em  parceria com a USP, UNESP e FURG, reconhecida por sua atuação em pesquisas sobre ecotoxicologia, oceanografia e conservação da vida aquática.

Foram analisadas 240 amostras de carne de tubarão comercializadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, revelando níveis elevados de contaminantes que podem representar riscos à saúde humana.

Das amostras avaliadas, 15% eram provenientes de tubarões capturados no Brasil e 85% eram importadas. Taiwan respondeu por 39,2% desse total, seguida por Portugal (17,5%), Espanha (10,8%), China (8,8%), Uruguai (8,3%) e Peru (0,4%).

Entre os produtos importados, 68% estavam identificados nos rótulos como tubarão-azul (Prionace glauca). Além disso, foi realizada identificação genética em 226 amostras, correspondentes a 94,2% do total analisado.

Os dados também evidenciam o papel do Brasil nesse mercado. O país é atualmente o maior importador de carne de tubarão do mundo e ocupa a nona posição entre os países que mais matam tubarões.

Foto: Shawn Heinrichs

Historicamente, a exploração desses animais esteve fortemente associada ao comércio internacional de barbatanas, consideradas um produto de alto valor comercial em alguns países da Ásia. Embora medidas para combater o finning – prática em que apenas as barbatanas são removidas e o restante do animal é descartado – tenham avançado ao longo dos anos, o aumento do consumo e da comercialização da carne contribuiu para manter a exploração dessas espécies.

Pesquisas citadas no artigo apontam ainda o Brasil como um importante centro do comércio global desses animais, chegando a descrevê-lo como uma espécie de “lavanderia de tubarões”. O termo está relacionado à dificuldade de rastrear a origem e as espécies comercializadas ao longo da cadeia de abastecimento, especialmente quando produtos provenientes de diferentes países entram no mercado sem identificação clara.

Essa falta de transparência é agravada pela comercialização sob nomes genéricos, como “cação”. A ausência de identificação específica dificulta que consumidores saibam exatamente qual espécie estão comprando, limita escolhas conscientes e dificulta o monitoramento do comércio de espécies ameaçadas.

Em relação à segurança alimentar, foram detectados alumínio, arsênio, cádmio, cromo, cobre, ferro, mercúrio, manganês, níquel, chumbo e zinco em todas as amostras avaliadas.

Um dos resultados mais preocupantes foi a concentração de cádmio encontrada na carne de tubarão. Trata-se da maior concentração já registrada para o tubarão-azul em cinco décadas de literatura científica analisada, abrangendo estudos publicados entre 1974 e 2025.

 A exposição prolongada ao cádmio por meio da alimentação pode causar danos aos rins e aos ossos, além de aumentar o risco de determinados tipos de câncer. Já a concentração de arsênio foi a mais baixa entre os trabalhos comparados. Para os demais elementos analisados, os valores permaneceram dentro das faixas registradas em estudos anteriores realizados em diferentes regiões do mundo.

Os resultados também foram comparados com limites máximos adotados por diferentes legislações internacionais para peixes predadores. A análise revelou que, para alumínio, arsênio, cromo, ferro, mercúrio, níquel e zinco, os níveis encontrados em pelo menos 75% das amostras já ultrapassavam os limites mais restritivos considerados. No caso do alumínio, as concentrações observadas em pelo menos 75% das amostras eram cerca de 14 vezes superiores ao limite mais rigoroso utilizado na comparação.

O risco associado ao consumo não está relacionado apenas ao cádmio. As amostras também apresentaram concentrações elevadas de outros elementos, incluindo alumínio, arsênio, mercúrio, cromo, cobre, ferro, níquel e zinco. A ingestão excessiva desses contaminantes pode causar efeitos prejudiciais à saúde humana, especialmente quando ocorre de forma contínua ao longo do tempo.

Diante dos resultados encontrados, os autores afirmam que as evidências reforçam a necessidade de evitar o consumo de carne de tubarão.

A recomendação está relacionada tanto aos potenciais riscos à saúde decorrentes da exposição prolongada aos contaminantes identificados quanto à necessidade de apoiar os esforços globais para a conservação das populações de tubarões.

Os tubarões ocupam posições elevadas na cadeia alimentar e, por isso, tendem a acumular contaminantes presentes em suas presas ao longo da vida. Essa característica faz com que apresentem níveis mais elevados de determinados poluentes em comparação com muitas outras espécies de peixes.

Além das preocupações relacionadas à saúde pública, os resultados chamam atenção para as implicações da comercialização desses animais para a conservação. A pesca continua sendo a principal ameaça às populações de tubarões em todo o mundo. Atualmente, aproximadamente 36% das espécies de tubarões, raias e quimeras estão ameaçadas de extinção, enquanto as populações de tubarões e raias oceânicos sofreram uma redução de 71% desde a década de 1970.

No caso específico do tubarão-azul, espécie identificada nas amostras submetidas à análise genética, a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) o classifica globalmente como “Quase Ameaçado”. As populações do Atlântico Norte são consideradas “Em Perigo”, enquanto as do Atlântico Sul são classificadas como “Vulneráveis”.

Atualmente, a captura direcionada do tubarão-azul permanece autorizada no Brasil por meio da Portaria Interministerial MPA/MMA nº 30/2025. Paralelamente, a Instrução Normativa Ibama nº 9/2026 estabeleceu exigências específicas para exportação e reexportação da espécie em atendimento às regras da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Silvestres (CITES), fortalecendo mecanismos de rastreabilidade, controle do comércio internacional e testagem da carga para contaminantes.

“Os dados falam por si: todas as amostras identificadas geneticamente eram tubarão-azul, uma espécie que tem sido foco de debates sobre a proteção do tubarão nos últimos tempos. O setor da pesca insiste em defender que este animal é seguro para consumo, mas possui concentrações de contaminantes perigosas para consumo frequente, como as merendas públicas de crianças. Isso nos obriga a ir além do debate da proteção deste animal, já vulnerável em nossa região: para além da proteção no comércio exterior que evoluiu recentemente, o consumo interno, a pesca direcionada e a saúde pública precisam ser parte da mesma conversa. As políticas públicas não podem se contradizer: o que a IN 9/2026 do Ibama reconhece e evolui sobre este assunto, a Portaria 30 de ordenamento da pesca de tubarão azul precisa agora respeitar.” – afirma Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil.

As conclusões reforçam a necessidade de monitoramento contínuo dos contaminantes presentes na carne de tubarão comercializada, além da implementação de políticas públicas voltadas tanto à proteção da saúde humana quanto à conservação dessas populações.

A carne de tubarão-azul comercializada no Brasil apresentou concentrações excessivas de diversos metais e metaloides, indicando um potencial risco à saúde humana associado à exposição alimentar de longo prazo a esses contaminantes. Os resultados também evidenciam a pressão pesqueira atualmente exercida sobre as populações de tubarão-azul e a necessidade de ampliar a transparência na comercialização desses produtos.

“Este estudo mostra que o debate sobre o consumo de ‘cação’ não é apenas uma questão de conservação, mas também de saúde pública e direito à informação. Encontramos evidências de que a carne de tubarão comercializada no Brasil pode expor consumidores a contaminantes por meio do consumo prolongado, enquanto a identificação genética revelou que todas as amostras analisadas pertenciam ao tubarão-azul, uma espécie sob crescente pressão pesqueira. Isso reforça a necessidade de maior transparência na rotulagem, rastreabilidade da cadeia de comercialização e políticas públicas coerentes que protejam tanto os consumidores quanto as populações de tubarões.” – afirma Juan Pablo Torres-Florez, pesquisador da Sea Shepherd Brasil e coautor do estudo.

O estudo reforça que saúde pública e conservação caminham lado a lado. Além de ampliar o conhecimento sobre os contaminantes presentes na carne de tubarão comercializada no Brasil, a pesquisa contribui para o debate sobre transparência na comercialização desses produtos e sobre a necessidade de fortalecer políticas voltadas à proteção dos consumidores e das populações de tubarões.

Sobre o estudo

Título: Metal(loid) concentrations in shark meat commercialized in Brazil: Implications for human health and biological conservation

Autores: Patricia Gomes Costa, Mariana da Fontoura Martins, Iole Beatriz Marques Orselli, Bianca de Sousa Rangel, Alexandre Rodrigues, Pablo Henrique de Oliveira, Juan Pablo Torres-Florez, Vanessa Paes da Cruz e Adalto Bianchini.

Revista: Food Science and Technology (2026)

DOI: 10.5327/fst.621

 

Foto: Kogia / Dario Nessi