As águas ficaram vermelhas: dezenas de baleias-piloto são covardemente assassinadas nas Ilhas Faroé

Baleias-piloto assassinadas nas Ilhas Faroé em 2010. Foto: Sofia Jonsson

Baleias-piloto assassinadas nas Ilhas Faroé em 2010. Foto: Sofia Jonsson

Entre 50 a 100 baleias-piloto indefesas foram levadas para um fiorde em Vestmanna, nas Ilhas Faroé, na manhã de hoje, onde cada baleia adulta, machos e fêmeas, e seus filhotes, foram barbaramente massacrados, numa orgia de sangue que manchou as águas de um escarlate profundo.
 
Esta atrocidade vergonhosa seguiu o rastro da recente partida da Sea Shepherd das Ilhas Faroé, após prevenir com sucesso o derramamento de sangue por vários meses durante a Operação Ilhas Ferozes, uma campanha em defesa das baleias-piloto. Devido ao orçamento limitado da Sea Shepherd, só pudemos passar dois meses nas Ilhas Faroé, e nenhuma única baleia foi morta durante este tempo.
 
Durante os meses de julho e agosto de 2011, quando os navios da Sea Shepherd, o Steve Irwin e o Brigitte Bardot, estiveram na área, a polícia das Ilhas Faroé aconselhou todas as comunidades locais a não matar qualquer baleia. Estima-se que 668 baleias-piloto foram mortas nas Ilhas Faroé durante julho e agosto de 2010, em comparação a zero baleias mortas durante os mesmos meses deste ano, como resultado da presença da Sea Shepherd.
 
“Eu acho que os baleeiros das ilhas Faroé são covardes”, disse o Capitão Paul Watson. “Eles não mataram uma única baleia quando estávamos lá. Eles esperaram, sabendo que acabaríamos tendo que ir embora, e depois de uma semana da nossa partida, eles retomaram seu ritual macabro e bárbaro de uma matança cruel e horrível. Eu só tenho uma palavra para descrever esses assassinos, e essa palavra é – covardes”.
 
As mortes de hoje justificam a presença e as táticas da Sea Shepherd nas Ilhas Faroé este ano. É bastante evidente que se os navios e a tripulação da Sea Shepherd não estivessem nas ilhas durante os últimos dois meses, centenas de baleias provavelmente teriam sido massacradas.
 
“Eles agora vão sentar-se para sua refeição de carne de baleia, envenenada de mercúrio e gordura, e vão sorrir e se orgulhar de terem tirado tantas vidas cruelmente”, disse a Chefe de Cozinha e tripulante, Laura Dakin, da Austrália. “É fácil matar os indefesos, os bebês e as mães, criaturas tão fáceis de massacrar, que não podem lutar. Estes homens são pateticamente covardes”.
 
A Sea Shepherd tem planos de voltar para as Ilhas Faroé no próximo ano, para mais uma vez patrulhar as águas em defesa dos indefesos.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB

Um encontro não tão próximo com o capataz da praia

Comentário pelo Capitão Paul Watson

Kemm Poulsen é um homem grande e um grande falador. Ele chama a si mesmo capataz da praia, e talvez ele seja. Ele se gaba de matar baleias, ensina os outros a matá-las também, e afirma que elas não sentem dor. Ele me chamou de covarde e disse que eu não teria coragem de vir para as Ilhas Faroé e chegar a terra.

Na semana passada ele foi filmado pela equipe do Animal Planet em uma conversa com a presidente da Sea Shepherd França, Lamya Essemlali. Durante a entrevista, Kemm lhe disse que iria me colocar em frente à matança se atrevesse a vir em terra para debater com ele. Hoje, Kemm teve seu desejo atendido. Parte da tripulação e eu estávamos no saguão do Hotel Faeroes quando o assassino de baleia, Kemm Poulsen, cruzou a porta.

Lamya e um cinegrafista imediatamente o cumprimentaram e disseram que eu estava no saguão e, agora, seria uma grande oportunidade de confrontar-me sobre a matança. Em vez disso, o grande falador macho assassino de baleias disse: “Eu mudei de idéia, é inútil falar com Paul, ele está louco”. Ele não tinha mais nada a dizer e rapidamente se dirigiu para a saída e para o seu carro, com o cameraman o seguindo.

Parece que os baleeiros não têm interesse em um debate de verdade com a gente. Tentamos organizar uma reunião pública, mas todos os nossos esforços para garantir um local foram recusados. O diretor do Nordic House foi muito simpático e favorável à ideia, mas ele recebeu um telefonema de alguém que ele não quis identificar e retransmitiu para nós que não seria possível alugar o salão. Nós reservamos uma sala de conferências do Hotel Torshavn, só para tê-la cancelada no dia seguinte.

Kemm, já tendo se revelado um covarde, reforçou ainda mais a sua reputação distribuindo uma carta aos membros da tripulação da Sea Shepherd, exortando-os a um motim contra mim. A carta foi divertida o suficiente para incluí-la aqui completa:

Paul Watson líder da organização terrorista Sea Shepherd é doente mental
Todo mundo com só um pouco de senso lógico pode ver
Por isso este pedido para a tripulação e voluntários em seu navio.
Por favor, traga seu navio ao porto mais próximo, e tentem convencê-lo a se tratar por sua doença mental.
Temos excelentes médicos na ilha Faroé, que são capazes de dar-lhe um bom tratamento.
Se ele não quiser ser bem tratado aqui, as pessoas nas Ilhas Faroé são muito simpáticas. Tenho certeza de que irão arrecadar dinheiro para uma passagem aérea para Paul Watson.
Se ele quiser ser tratado aqui, será tratado num ambiente familiar semelhante ao de casa.
Não é seguro para a tripulação e voluntários em seu navio sair em mar aberto com ele como capitão.
Paul Watson é tão doente mental, que ele é mentalmente perturbado. E pode colocar facilmente seu navio e a tripulação em perigo com seus atos insanos.

Kemm Poulsen
(Produtor do documentário “Whale Wars” em 1986)

Nota: Eu não tenho certeza do que ele está sugerindo ao assinar a carta como um produtor de Whale Wars, que ele claramente não é. Eu postei a mensagem de aviso a bordo do navio para a diversão da tripulação

Minha viagem para terra firme provocou hoje alguns olhares de ódio de algumas pessoas mais velhas, mas ninguém me confrontou nas ruas. Eu fiquei realmente muito feliz de receber alguns sorrisos e cumprimentos de muitos jovens que encontramos.

A tripulação da Sea Shepherd conversou com centenas de jovens ao longo do mês passado, e as conversas têm sido muito encorajadoras. É claro que a matança não é uma tradição adotada pela maioria das pessoas mais jovens. Não é uma imagem que muitas pessoas das Ilhas Faroé desejam serem associadas.

Foi decepcionante saber que um novo documentário sobre a Luna, a orca órfã da British Columbia, chamada The Whale, estreou aqui nas Ilhas Faroé, na Nordic House, no fim de semana passado. Não tenho nenhum problema com as estréias que ocorrem na Ilhas Faroé de sensibilização para a caça à baleia, mas eu achei muito estranho que a estréia foi usada por pelo menos um dos patrocinadores do filme como um fórum público para denunciar os esforços da Sea Shepherd em defesa das baleias nas Ilhas Faroé.

The Faeroese publicou um livro chamado “2 Minutos”. No prefácio, o fotógrafo Regin W. Dalsgaard escreveu:

“Imediatamente, eu agarrei meu equipamento de fotografia, entrei no carro e corri para a praia. Pela primeira vez notei o estado de transe de mente dos assassinos de baleias. Eles estavam fora de alcance e levou meus pensamentos para um bom filme de vampiro, com os vampiros prontos a provar o sangue. Através da minha lente eu percebi que o transe foi uma preparação profundamente enraizada, uma espécie de meditação pré-guerra”.

Este não é o tipo de imagem que a maioria das pessoas gostaria de refletir a sua identidade nacional. As Ilhas Faroé são um grupo de bonitas ilhas que poderiam ser o cenário de “O Senhor dos Anéis”. As montanhas verdejantes com cachoeiras são quase de outro mundo. As formações de pedra e penhascos da costa norte são incrivelmente impressionantes. E em meio a essa configuração natural esplendorosa, encontra-se uma comunidade de cerca de 47.000 pessoas que gozam do mais alto padrão de vida na Europa.

Existe apenas uma coisa errada, apenas uma mancha nessa sociedade quase perfeita, e que é esta obscenidade bruta que chamam de Grindadráp. Isso simplesmente não tem lugar no século 21, não tem lugar num mundo civilizado. É ofensivo para pessoas ao redor do mundo. É cruel, desnecessária, ecologicamente destrutiva e obscena.

Tenho me oposto a essa matança desde 1983; este é a sexta campanha da Sea Shepherd usando nossos navios durante este período de tempo. Durante o qual, tenho visto uma crescente consciência e uma crescente resistência à matança do povo das Ilhas Faroé.

Estou confiante de que esta atrocidade pode ser encerrada, e esperançoso de que será mais cedo do que tarde.

Nossos esforços nesta temporada provaram que vale a pena. Nenhuma única baleia foi morta neste verão com a presença dos nossos navios. Com alguma sorte, o projeto que a emissora Animal Planet está trabalhando também irá trazer para esta matança desprezível em massa a atenção do mundo, da mesma forma que The Cove chamou a atenção para o massacre de golfinhos em Taiji, no Japão.

No fim de semana passado, eu caminhava ao longo de uma das praias de matança com alguns membros da minha equipe. Considerando que em muitas praias você pode encontrar conchas, nas Ilhas Faroé são crânios e ossos de baleias-piloto e de golfinhos que estão espalhados na praia. Os crânios saindo do cascalho e da areia invocam os campos de extermínio, e na minha mente eu posso ver as águas sujas de sangue, e eu posso ouvir os gritos das baleias com as facas rasgando e cortando seus corpos indefesos.

De pé naquela praia assombrada eu estava agradecido pela dedicação de minha equipe valente e trabalhadora. Por causa deles, estas praias estão silenciosas neste verão. Por causa deles, nas baías não estão tingidas com o sangue vermelho e quente, e por causa deles, este tem sido um verão de esperança para as baleias e para aqueles que se opõem a esse assassinato devasso dessas criaturas delicadas, inteligentes e magníficas.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.

Sea Shepherd espalha compaixão pelas vítimas da matança no dia de São Olaf

Comentário por Deborah Bassett, tripulante voluntária da Sea Shepherd, Operação Ilhas Ferozes

Tripulante Deb Bassett ao lado da nossa van "Pare o Massacre". Foto: Georgie Dickson

Tripulante Deb Bassett ao lado da nossa van "Pare o Massacre". Foto: Georgie Dickson

No dia 29 de julho, os tripulantes terrestres da Operação Ilhas Ferozes da Sea Shepherd, compostos por Stephane Gili da França, Georgie Dicks da Austrália, e eu (americana), rodamos pelas ruas de Tórshavn, capital das Ilhas Faroé, em nossa van “Pare o Massacre”, decorada de forma única. Aproveitando a oportunidade de participar da maior festa cultural do país, que ocorre todos os anos, no Dia de São Olaf, nós dirigimos o nosso carro da compaixão, adornado com imagens horripilantes, capturadas por Peter Hammarstedt durante um massacre de baleias-piloto em 2010, no coração do local do desfile, onde gritos estridentes das vítimas inocentes podiam ser ouvidos no ano passado. A matança de baleias, algo ultrapassado, desnecessário, e um verdadeiro desperdício, por serem as baleias-piloto altamente tóxicas, chamado pelos habitantes locais como “grindadráp” ou simplesmente “grind”, continua a ser pateticamente justificado como “tradição cultural” no arquipélago de 18 ilhas, situado a noroeste da Escócia, entre Noruega e Islândia. Nossa equipe concordou que era, portanto, apropriado honrar as vidas das baleias-piloto mortas durante as festividades anuais. Afinal de contas, a evolução muitas vezes exige provocação.

Moradores das Ilhas Faroé vestidos para o dia São Olaf. Foto: Deborah Bassett

Moradores das Ilhas Faroé vestidos para o dia São Olaf. Foto: Deborah Bassett

A procissão do edifício do parlamento para a catedral, liderada por membros do governo, do clero, e conduzida por funcionários públicos, orgulhosamente vestidos em trajes nórdicos tradicionais, forneceu-nos uma oportunidade importante para expor a tradição cruel e terrível para as comunidades locais das Ilhas Faroé, bem como para muitos turistas que visitam a cadeia de ilhas isoladas a cada ano. Enquanto a informação sobre o abate para os visitantes internacionais foi de extremo choque, descrença e indignação, a maioria dos moradores locais começou a brincar, com a falta de qualquer demonstração de emoção. Várias famílias locais paravam para que seus filhos fossem fotografados na frente das imagens de carcaças de baleias profanadas. Evidentemente, há muito pouca relação entre a complexidade social, incluindo os laços familiares muito fortes, compartilhados entre baleias-piloto, e às famílias humanas aqui nas Ilhas Faroe.

Tripulante Stephane educa moradores sobre o massacre. Foto: Deborah Bassett

Tripulante Stephane educa moradores sobre o massacre. Foto: Deborah Bassett

O prefeito passou pela nossa exibição pública, e um grande grupo de espectadores, incluindo os membros da imprensa local e a equipe de filmagem do Animal Planet, que imediatamente ligou para o chefe de polícia, que nos obrigou a desocupar o local. Para as pessoas que possuem tais supostos orgulho cultural em torno do banho de sangue anual, parece que a exposição na mídia ainda prova ser uma das mais fortes ameaças aqui, e assim continuamos a nossa arma de escolha.

Dias antes, Stephane dirigiu a van “Pare o Massacre” de Paris para Copenhagen, e em seguida via balsa local para as Ilhas Faroé, onde foi recebida ao chegar por agentes da alfândega, que confiscaram sete dos oito dispositivos acústicos. O mais provável é que tenham sido avisados por informantes locais, e Stephane foi capaz de esconder um dos dispositivos acústicos em seus pertences pessoais, que os navios, desde então, têm implantado com sucesso para impedir as baleias-piloto de entrar nas baías, locais onde elas encontrariam a morte certa e brutal.
Van "Pare o Massacre" da Sea Shepherd. Foto: Deborah Bassett

Van "Pare o Massacre" da Sea Shepherd. Foto: Deborah Bassett

Nas primeiras horas antes da festa começar, Stephane secretamente aplicou os adesivos com as imagens na van em um local escondido, e rapidamente iniciamos a missão arriscada. Estávamos preparados para as reações potencialmente violentas, como as da maioria do povo das Ilhas Faroé que encontramos nas últimas semanas aqui, avidamente apoiando o genocídio de cetáceos e não tiveram escrúpulos para nos deixar claro que a Sea Shepherd não é bem-vinda por estas bandas. No entanto, além do olhar ocasional ou de uma observação raivosa, houve pouco confronto. Nós conseguimos “chover em seu desfile”, o que serviu como um gesto simbólico de nossa solidariedade com as baleias-piloto. Passamos o resto do dia conversando com moradores e turistas para sensibilizar o público sobre o assunto, e mostrar a nossa oposição direta a essa atrocidade vergonhosa e sem sentido.

Nossa tripulação terrestre da Operação Ilhas Ferozes, liderada pela presidente da Sea Shepherd França, Lamya Essemlali, permanece ativa em solo, continuamente patrulhando as baías de caça e trabalhando em conjunto com as tripulações a bordo do Steve Irwin e do Brigitte Bardot. De acordo com Essemlali, “desde que estamos lidando com uma paisagem geográfica única aqui nas Ilhas Faroé, é fundamental ter olhos e ouvidos em terra durante esta campanha. Este é um esforço de todos, e a tripulação terrestre vem trabalhando diligentemente para proporcionar informações para os navios. Se um grupo de baleias-piloto entrar nestas águas, nós estaremos lá antes dos baleeiros, a fim de proteger nossos clientes cetáceos indefesos”.
 
Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB

Lembranças sombrias da matança de baleias-piloto em Klaksvik

Comentário por Peter Hammarstedt, Primeiro Oficial do Brigitte Bardot

Vítimas da matança em Klaksvik. Foto: Peter Hammarstedt

Vítimas da matança em Klaksvik. Foto: Peter Hammarstedt

Eu lembro de agradecer por não ter uma filmadora. Teria levado dez rolos de filme para capturar uma única imagem de cada baleia-piloto sem vida nas docas de Klaksvik. Enquanto eu caminhava pelo passado de cetáceos mortos, foto após foto, eu era mais tolhido pela morte do que pela magnitude das enormes montanhas verdes que envolvem a segunda maior cidade das Ilhas Faroé. Era quase como se as próprias montanhas, que circundam o porto de pesca de todos os lados, procurassem esconder a matança do resto do mundo.

O número total de baleias-piloto que morreram naquela manhã foi de 236, um grupo inteiro de pequenos cetáceos colocados lado a lado e esticados mais do que eu podia ver. Havia adultos e jovens, e fetos mortos, que tinha sido arrancados do ventre de suas mães, ainda ligados pelo cordão umbilical.

Foi importante para a Sea Shepherd obter essas fotos para o mundo, mas desde então, tem sido ainda mais importante para nós impedir que tal carnificina volte a acontecer. Assim, quando o Brigitte Bardot atracou em Klaksvik, em julho de 2011, quase um ano depois da data exata do massacre que eu tinha testemunhado, era estranho, mas promissor, ver que nas docas não corriam o vermelho do sangue.

Somos impopulares em Klaksvik. A Sea Shepherd manchou reputação internacional da cidade como um lugar cruel, e até mesmo nas Ilhas Faroé, muitos veem a infâmia da matança de Klaksvik com desgosto.

A orgia de sangue durou duas horas. A capacidade da praia em Klaksvik é de segurar apenas 100 baleias-piloto. É habitual que uma vez que a praia esteja cheia, a polícia local ordena que o capataz da matança conduza o restante do grupo para o mar, mas aqui em Klaksvik a matança continuou. Quando as baleias não chegam à praia, os assassinos de baleias das Ilhas Faroé invadem o mar e batem seus soknargul, um gancho de caça cruel, no respiradouro das baleias-piloto. O soknargul, ou grindakrok, como é chamado nas ilhas de Sandoy e Suduroy, está ligado a uma linha que é então usada para puxar a baleia, assustada e em pânico, mais perto do açougue na margem.

O Brigitte Bardot ancorado no porto de Klaksvik. Foto: Simon Ager

O Brigitte Bardot ancorado no porto de Klaksvik. Foto: Simon Ager

Enquanto a matança ocorria no porto de Klaksvik e os baleeiros lutavam para encontrar espaço para as baleias-piloto sobre a areia encharcada com o seu sangue, muitos dos baleeiros rapidamente correram para suas casas, para pegar as ferramentas que tinham sido, em parte, proibidas em 1986. Antes de 1986, o soknargul tinha uma extremidade pontiaguda, uma extremidade agora cega para aplacar a Associação Veterinária das Ilhas Faroé. Ao voltar para a matança esses assassinos utilizavam suas ferramentas, criando pânico entre este grupo de baleias-piloto que tinha nadado juntos há gerações.

Após essas duas impiedosas horas, quando a maré finalmente começou a levar o sangue coagulado de volta para o mar, o grupo, sem um único membro sobrevivente, deu os sinais de uma caça de baleias que foi tudo, menos rápida, misericordiosa, ou sustentável.

As fotos que eu tirei em Klaksvik contam uma história. Cada corte e golpe que marcou as carcaças alinhadas me contaram uma história. Uma baleia-piloto havia sido cortada por seis vezes antes de sua medula espinhal ser finalmente rompida. Quando moradores das Ilhas Faroé me dizem que a morte é rápida, eu penso nela.

Felizmente, a chegada do Brigitte Bardot contou uma história diferente, de uma campanha eficaz, projetada para bloquear e cortar todas as tentativas de uma nova matança para ocorrer. É a Sea Shepherd e a missão do Capitão Paul Watson, para garantir que outro massacre nunca acontecerá de novo, especialmente sob os nossos olhos. Enquanto eu caminhava nas docas de Klaksvik mais uma vez, fui autorizado a ver que as docas estavam vazias. Não houveram mais baleias-piloto mortas, tanto quanto meus olhos puderam ver. Eu só vi o Brigitte Bardot descansando em linhas de ancoragem cruzando o cais, como se estivesse isolando uma cena de crime, dando a entender que aqui, ninguém passará.

 Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.

A última estação baleeira

Comentário por Peter Hammarstedt, Primeiro Oficial do Brigitte Bardot

Estação baleeira deserta em vid Air. Foto: Simon Ager

Estação baleeira deserta em vid Air. Foto: Simon Ager

As Ilhas Faroé são infames pelo abate anual de baleias-piloto e outros pequenos cetáceos, mas há 25 anos, o sangue de grandes baleias também mancharam as margens destas ilhas com um vermelho carmesim.

Enquanto estávamos atracados em Hvalvik, os tripulantes do Brigitte Bardot, Simon Ager, Megan Jolley e eu, visitamos vid Air, uma das duas estações baleeiras abandonadas que já foi responsável pelo processamento de centenas de baleias por ano, e apenas a uma curta caminhada de distância da cidade. A última baleia-fin a ser puxada para cima para deslizar na vid Air foi em 1984.

Esta última estação baleeira é preservada apenas pelo sal do mar que está lentamente recuperando o aço corrugado que esconde os tanques de gordura e motores a vapor da vista do público. Em muitos aspectos, parece que a estação baleeira parou em um flash de consciência provocada pela introdução da moratória mundial da caça comercial. Parece que os baleeiros foram trabalhar um dia, deixando suas facas e outras ferramentas de corte para trás, e não voltaram no dia seguinte. Como se o botão de parada de emergência tivesse sido pressionado em alguma grande máquina de condução de uma política de extinção, aquela que aqui emperrou.

Peter Hammarstedt e Megan Jolley inspecionam restos de uma baleia. Foto: Simon Ager

Peter Hammarstedt e Megan Jolley inspecionam restos de uma baleia. Foto: Simon Ager

Nenhum esforço foi feito para limpar a estação de caça às baleias. Os grandes tanques de ferro que uma vez converteram gordura de baleia em fumaça de óleo de carne, e costelas, e mandíbulas que uma vez fizeram parte dos esqueletos das baleias que viviam no mar. Se as paredes dos edifícios da vid Air pudessem falar, eles nos advertiriam que não há muito tempo. O sentimento de que os oceanos são inesgotáveis ​​levou quase todas as espécies de grandes baleias à extinção. Elas nos dizem para aprender com a história, ou sermos condenados a repeti-la.

O que é estranho na atitude das Ilhas Faroé com as baleias é que poucos defendem um retorno à caça comercial. Muitos são favoráveis ​​às intervenções bem sucedidas da Sea Shepherd contra a matança ilegal de baleias nas águas da Antártida pelo Japão. E, no entanto, há um surpreendente descompasso entre a dizimação das espécies de grandes baleias e a contínua matança de baleias-piloto.

O argumento mais comum ouvido é que as baleias-piloto estão em grande número. Nós fomos informados por moradores que as estimativas daqui são de que a população de baleias-piloto no Atlântico Norte é muito alta, cerca de mais de 700 mil. No entanto, há uma razão muito boa para a baleia-piloto ser listada como uma espécie ameaçada no âmbito da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES). A baleia-piloto é protegida internacionalmente da caça porque não há números exatos, e ninguém sabe quantas baleias-piloto realmente existem.

Vértebra de baleia dentro da estação baleeira. Foto: Simon Ager

Vértebra de baleia dentro da estação baleeira. Foto: Simon Ager

O que sabemos é que não adotar nenhum tipo de precaução é suicídio ecológico. Temos de assumir o menor denominador comum e, enquanto a comunidade científica internacional considerar que a baleia-piloto está ameaçada, então a destruição completa de grupos inteiros de baleias-piloto, grupos sociais complexos que evoluíram ao longo de eras, tanto social como geneticamente, é uma ameaça ambiental.

O sentimento de que a caça de qualquer cetáceo é de alguma forma sustentável é o mesmo que foi murmurou na vid Air antes de uma moratória total ser necessária para salvar as baleias de grande porte. A inflação deliberada de estatísticas que regem número de mamíferos marinhos tem sido utilizada para justificar o abate de todos os animais selvagens, desde as focas no leste do Canadá até as baleias nas águas da Antártida.

A estação de caça de baleias na vid Air é um símbolo de um tempo não tão distante, quando uma combinação de ignorância e desprezo flagrantes quase roubou-nos um dos maiores tesouros da natureza. O Fjord Sundini não tira a vida de baleias-fin, mas há apenas dois anos, várias centenas de baleias-piloto morreram aqui. Crânios de baleias-piloto ainda são encontrados, levados para a praia onde o Brigitte Bardot está atracado. Se os baleeiros de Hvalvik olhassem além do seu banho de sangue, nesse dia eles poderiam ter notado que, não muito além de seu campo de visão, a estação de caça à baleia na vid Air continua a marcar a decadência e a passagem do tempo, falando bem alto que a caça de baleias pertence ao passado.

Peter Hammarstedt exibe uma antiga faca. Foto: Simon Ager

Peter Hammarstedt exibe uma antiga faca. Foto: Simon Ager

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.