Editorial

O presente que não para de render: as aventuras contínuas do Farley Mowat

Comentário do Capitão Paul Watson

O Farley Mowat nas banquisas de gelo canadenses

O Farley Mowat nas banquisas de gelo canadenses

Aposentar um navio pode ser um negócio caro, a não ser que você tenha uma maneira de conseguir alguém que tome conta do trabalho sujo para você. A Sea Shepherd utilizou os serviços do governo canadense desde 1992, quando aposentamos primeiro o Sea Shepherd II e novamente em 2008, quando aposentamos o Farley Mowat.

É uma estratégia que tem três benefícios. Primeiro, apresenta uma maneira de remover um navio, que se tornou um encargo, sem custo para nós, segundo, pode ser utilizado para lançar uma intervenção publicitária e, por fim, pode ser um presente que não para de render.

O que fizemos foi, efetivamente, em duas ocasiões, dar ao governo do Canadá um elefante branco. Nós fazemos com que eles confisquem o navio e os convencemos de que foi ideia deles fazer isso. Primeiro, eles se sentem convencidamente vitoriosos ao declarar que as multas e os custos foram executados. Esse convencimento se transforma em confusão quando percebem que não temos intenção de pagar as multas e custos. E a confusão se torna constrangimento quando percebem que os custos de manter o navio se tornaram um peso sobre eles mesmos.

Esta semana, o Farley Mowat foi preso em Lunenburg, Nova Escócia. Apropriadamente em 1º de abril, o xerife afixou um mandato de prisão na porta da casa do leme onde ele está atualmente atracado, no cais do governo.

A Waterfront Development Corporation, uma empresa real da província, moveu ação legal contra “os proprietários e todos interessados no navio” no mês passado.

De acordo com os documentos apresentados à Corte, a empresa reclama 29.410,96 dólares por uso do ancoradouro entre 6 de março e 15 de dezembro de 2010. Na falta do pagamento, a empresa apresenta uma ordem de “avaliação e venda” do navio. O navio não é propriedade da Sea Shepherd, então não é problema nosso. O proprietário atual comprou-o em um leilão do governo por 5.000 dólares com a intenção de consertá-lo e torná-lo novamente apto para a navegação. Mas eles ficaram sem dinheiro e parecem ter abandonado o navio.

Assim, mais uma vez, o governo fica empacado com a tarefa de se desfazer de um navio Sea Shepherd aposentado. Isto acontece três anos após o governo do Canadá ter apreendido o navio no Golfo de S. Lawrence por interferir na prestigiosa e gloriosa tradição canadense de surrar focas bebê.

Na época, o ministro da pesca canadense, Loyola Hearn, era um político fácil de manipular. Ele era um leal terranovense partidário do porrete nas focas e que fez votos de defender os pobres pequenos foqueiros de valentões como nós que querem defender os bebês foca de seus porretes.

Assim, enviei o Farley Mowat para as banquisas de gelo sob o comando do capitão holandês Alex Cornelissen e do imediato Peter Hammarstedt. Eu não estava à bordo pois sou canadense e isso teria dado ao governo canadense a desculpa para me crucificar legalmente. O que eu queria era um navio de registro europeu com uma tripulação europeia para chamar atenção para a caça às focas e ajudar a que a União Europeia decidisse banir produtos de foca.

Previsivelmente, Hearn teve uma reação exagerada e atacou o Farley Mowat com uma equipe de SWAT da Polícia Montada Canadense fortemente armada. Não podíamos desejar um cenário publicitário melhor. As imagens deles empunhando armas automáticas, em uniformes de combate de gala, são inestimáveis.

O Farley Mowat foi confiscado, e o capitão Cornelissen e o imediato Hammarstedt foram acusados do horrível crime de testemunhar a matança de um filhote de foca. O Farley Mowat pagou a fiança deles, de 10.000 dólares, em moedas canadenses de 2 dólares, que chamamos “doubloons” (duplos-loons), pois a moeda canadense de um dólar é chamada de “loon”, ou “loony” (lunático), o que significa que os bancos canadenses são caixas de lunáticos.

Cornelissen e Hammarstedt não tiveram permissão de voltar ao Canadá para serem julgados por que a imigração canadense não os deixou entrar no país. Assim, o julgamento foi feito sem sua presença e foram multados em cerca de 45.000 dólares. Mas já que não puderam retornar ao país, eles simplesmente não precisaram pagar as multas.

O governo, então, me informou arrogantemente que eu teria que pagar uma multa de 75.000 dólares pelo retorno do navio. Respondi que não estava interessado em pagar a multa.

Um ano depois, o governo me enviou uma conta de 750.000 dólares pelo custo de ancoradouro e segurança do navio. Ignorei a ordem. Disseram, então, que me multariam em um milhão de dólares caso eu não pagasse os custos, nem removesse o navio. Mais uma vez, ignorei a ordem.

Então, o governo ordenou que o navio fosse vendido para recuperar os custos sem nem levar o assunto ao tribunal. Apresentei uma declaração à imprensa afirmando que consideraria o navio como pertencente à Sea Shepherd e que, caso fosse vendido, o roubaríamos de volta. Não que o quiséssemos, mas queríamos desencorajar sua compra.

O Farley Mowat aguardando seu destino em um porto canadense

O Farley Mowat aguardando seu destino em um porto canadense

Finalmente, o navio foi vendido por 5.000 dólares a uma organização ambiental do Oregon e, em razão disso, nós decidimos cooperar com os novos proprietários. Infelizmente, o novo proprietário faliu e abandonou o barco em Lunenburg, onde está situado agora, mais uma vez preso, continuando a produzir ondas políticas e continuando a envergonhar o Departamento Canadense de Pesca e Oceanos.

Nosso objetivo de publicidade para a questão das focas na Europa foi muito bem sucedido e, de fato, contribuiu para a decisão da União Europeia de banir produtos de foca, puxando, assim, o tapete dos pés da indústria foqueira e, efetivamente, fechando sua operação comercial. Desde então, o governo canadense tem gasto milhões em um esforço infrutífero de derrubar a decisão da União Europeia.

Enganou-me uma vez, a culpa é sua; enganou-me duas vezes, a culpa é minha.

Não é a inteligência que torna os burocratas e políticos do Canadá famosos. O presidente do Quadro do Tesouro, Stockwell Day, pensa que os dinossauros foram extintos por não conseguirem subir na arca de Noé. O governador geral gosta de comer corações de foca crus na televisão, o ex-primeiro ministro Jean Chretien achava que spray de pimenta era para temperar bifes e o ex-primeiro ministro William Lyon MacKenzie King, tomava decisões conversando com o fantasma de sua mãe morta. E a minha experiência com o governo do Canadá é a de como eles podem, tão facilmente, cair no mesmo truque duas vezes.

Em 1992, o Canadá ordenou que o meu navio, o Sea Shepherd II aportasse no cais de Ucluelet, na ilha de Vancouver. Eu estava retornando do Pacífico Norte para Seattle, com a intenção de aposentar a velha nau, e estava preocupado com o fato de que isso iria custar algumas centenas de milhares de dólares. Eu não tinha necessidade de entrar em Ucluelet, e o governo não tinha autoridade legal sobre mim para me forçar a entrar, mas vi a oportunidade e o navio entrou no porto com um piloto, onde fomos imediatamente agarrados pela montada e pela aduaneira canadenses. Trouxeram cães e todo tipo de equipamento para uma revista completa no navio atrás de armas e drogas. Não encontraram nada, é claro, e disseram que podíamos seguir adiante, livres. Mas o piloto me apresentou, então, uma conta de 7.500 dólares de taxas pela pilotagem. Disse ao piloto que não tinha a intenção de pagar as alegadas taxas, pois havia entrado no porto por pedido do governo do Canadá. O piloto disse que, se eu não pagasse a taxa, o navio não poderia sair. Respondi que não tinha nenhuma intenção de pagar a taxa.

Enviei o nosso navio Sirenian para o porto e descarregamos tudo de valor, fazendo três viagens para bombear todo o combustível e o óleo. Deixamos, então, o Sea Shepherd II ancorado. O governo nos processou pela taxa, mas não comparecemos ao julgamento, e o juiz ordenou que pagássemos metade da taxa, já que era uma taxa para entrar e sair do porto, e nós não tínhamos saído. Ignoramos a ordem do tribunal.

Voltei a Ucluelet e vendi o navio para um sujeito no bar por 5.000 dólares. Infelizmente, ele morreu seis meses depois em um acidente de caiaque e o navio foi deixado no porto onde a âncora rompeu-se uma vez e ele quase levou uma marina local. Finalmente, depois de 10 anos, o navio foi rebocado para fora do porto, à custa do governo, e levado para Victoria para ser limpo e desmontado. A saga inteira custou ao governo mais de um milhão de dólares, e tudo por que eles tentaram nos arrancar 7.500.

Dezoito anos depois, então, eles caem na mesma tática de novo.

Se eu tiver que aposentar outro navio, fico pensando se poderei utilizar os serviços do governo canadense mais uma vez. Aposto que consigo. A atual ministra de pesca Gail Shea é mais inepta do que todos os ministros de pesca anteriores juntos. Recentemente, ela aumentou a quota de matança de focas para quase meio milhão, a despeito do fato de que não há mercado para suas peles. Até mesmo os foqueiros estão balançando suas cabeças para isso, por que eles sabem que não faz sentido matar focas se não se pode vender as peles. Mas Shea está em Ottawa, e no Canadá, e isso é estar tão longe da realidade quanto possível.

Traduzido por Carlinhos Puig, voluntário do ISSB.

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