Editorial

Takk Heri Joensen: Viking x Viking sobre o Grind

Comentário pelo Capitão Paul Watson

Quero agradecer ao músico de heavy metal Heri Joensen por ter a coragem e a convicção de debater comigo na rede Animal Planet, em 4 de maio, sobre a controvérsia sobre o massacre de baleias piloto nas ilhas Faroé. O horrível massacre brutal de grupos inteiros de baleias piloto indefesas é tão repugnante para a maioria das pessoas no mundo que nenhum político, cientista, acadêmico das Faroé, nem mesmo nenhum baleeiro, se ofereceu para aparecer num fórum público para defender seu comportamento. Como defender o indefensável? Não há como, e eles sabem disso, por isso não aceitaram. Entretanto, houve um homem que se posicionou a favor das Faroé. Heri Joensen faz parte da banda de heavy metal Tyr, que mescla mitologia nórdica com heavy metal, numa abordagem faroense única à música. Seu grito nórdico sobre as virtudes de semideuses nórdicos provocaram algumas críticas que rotularam o grupo de fascistas e, até mesmo, pró-nazistas, mas eu não vi nenhuma evidência de que eles exaltem essas crenças odiosas.

Não há dúvida, entretanto, que eles promovam o nacionalismo nórdico e suas letras anti-cristãs e violentas acabam colocando-os como objetos do rótulo de extremistas. 

Independente disso, foi uma apresentação difícil para Heri Joensen. Ele teve que defender a morte e a crueldade, enquanto eu tive a tarefa bem mais fácil de promover a vida e a compaixão. Pelo menos ele tentou, o que é mais do que pode ser dito dos representantes políticos do seu país. Sua tarefa foi ainda mais difícil porque ele teve que argumentar a favor da posição de que a matança das baleias era humana, quando vídeo e imagens encharcadas de sangue mostravam claramente que o massacre está longe de ser humano. É como argumentar que a cor da neve é verde no meio de uma tempestade de neve. 

O argumento de Heri foi o de que existem baleias piloto suficientes e que as baleias são mortas instantaneamente, que isso não seria diferente de um matadouro na Europa ou na América. Ele tinha se vangloriado, a caminho do debate, que ele iria me martelar com fatos e com a verdade. Entretanto, ao invés do impressionante martelo Mjölnir de Thor, o Heri puxou uma pequena esferográfica para bater no escudo dos meus argumentos. Ele não apresentou sequer uma só evidência para apoiar as opiniões que ele estava tentando fazer passar por fatos. Disse que haviam 800.000 baleias piloto no Atlântico Norte, de acordo com a Comissão Internacional da Baleia (CIB), a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e diversos órgãos de pesca. Mas a CIB não regulamenta cetáceos pequenos e a UICN apresenta as baleias piloto como sendo de “estado desconhecido”, o que significa que o princípio da precaução deve ser invocado.

Depois que as pessoas foram expostas ao sofrimento agonizante de uma baleia piloto através de uma câmera, o argumento de Heri de que a matança era humana foi o de alguém com uma faca na mão explicando como a baleia é morta em segundos. Não houve evidência visual do modo que isso de fato é feito numa baleia, só houve um homem explicando como o faz. Por Heri ser um membro de uma banda de heavy metal das ilhas Faroé, nos pediram, na realidade, para ignorar os fatos e aceitar os seus “fatos” e a sua palavra enquanto músico de que a caça é sustentável e humana. 

A favor de Heri está o fato de que ele nunca matou uma baleia. Ele apenas faz a apologia dos matadores, mas ele mesmo não é um deles. Isso torna relativamente fácil para o Heri defender algo do que ele não é, realmente, culpado, pois ele não sofre a necessidade psicológica de justificar o que fez. É parecido com os soldados que se vangloriam de qualquer guerra, quando foram os que sentaram atrás de uma mesa e nunca mataram ninguém, enquanto a maioria dos soldados combatentes geralmente não se gabam de suas mortes. 

Heri sente que pode ser o seu dever patriótico defender o Grind, pois é uma tradição faroense, mas eu não sinto nenhuma necessidade, nem nunca senti vontade, de defender o massacre das focas no Canadá, só porque alguns poucos canadenses mataram focas por algumas centenas de anos.

O massacre de focas bebê no Canadá, por parte de meus compatriotas canadenses, é tão duramente brutal como o massacre impiedoso das baleias piloto. De fato, a maioria dos canadenses se opõe a isso. 

A maioria dos faroenses pode muito bem apoiar o massacre de baleias piloto, mas há pessoas nas Faroé começando a questionar e a se opor às matanças. São sementes de descontentamento que precisamos nutrir. 

Heri admitiu, no debate, que algumas baleias são mortas de modo desumano. Ele admitiu que a matança das baleias não era uma necessidade e que os mesmos alimentos que estão disponíveis para o público em geral na Europa, estão disponíveis nas Faroé. Ele também admitiu que a contaminação por mercúrio nas baleias era uma preocupação séria. Acho que o Heri é sincero nas suas crenças e opiniões, mas isso não o torna certo. Como eu também não estarei certo em minhas opiniões ou crenças só por ser sincero. É por isso que fomos às Faroé e colocamos em ação a arma mais poderosa já inventada: a câmera!

O objetivo de nossa campanha não era ir para as Faroé e, fisicamente, acabar com o massacre para sempre com uma só campanha. Sabíamos das dificuldades de uma estratégia assim. Mas acabou que nem uma única baleia foi morta enquanto a Sea Shepherd estava lá. Nossa principal estratégia foi levar esse massacre obsceno dessas lindas e inteligentes criaturas com sentimentos para a atenção do mundo. E fizemos exatamente isso, atingindo milhões de pessoas com imagens, com a controvérsia e com o conflito. Fazendo isso, atiçamos os fogos da desaprovação e, para milhões de pessoas que nem sabiam da existência das ilhas Faroé, a imagem de sangue, a dor, e a orgia do massacre cruel está, agora, indelevelmente estampada em suas memórias. 
Heri continuou repetindo a mesma coisa novamente, que a matança das baleias piloto não era diferente de um matadouro onde vacas, galinhas e porcos eram mortos.

É claro que há diferenças, mas porque isso é relevante ao debater com uma organização que abraça o vegetarianismo e o veganismo é algo que deixa perplexo. A Sea Shepherd Conservation Society é especialmente crítica das fazendas dinamarquesas onde as galeotas (peixe do gênero Hyperoplus), alimento principal dos puffins do Atlântico Norte (espécie de pinguim) são dadas como ração a galinhas de abatedouro. A Sea Shepherd entenderia a preocupação de Heri com os matadouros se ele realmente se importasse, mas Heri come galinhas, carne e porco do supermercado. A Sea Shepherd, não. 

Heri afirma que a morte de uma baleia piloto é legal e que isso, tecnicamente, está correto. A posição da Sea Shepherd, entretanto, é a de que a Dinamarca, membro da União Europeia, não deveria fornecer enormes subsídios às Faroé, a menos que as Faroé seguissem os regulamentos europeus que consideram a matança de baleias ilegal. Os faroenses deveriam ter que escolher entre seus subsídios e a comida disponível no supermercado, ou seu massacre bárbaro.

Finalmente, Heri comparou a Sea Shepherd à indústria do tabaco de um modo que dispensa explicação, especialmente quando a Sea Shepherd age em defesa da vida, enquanto Heri promove o sofrimento e a morte. Heri continua insistindo que eu faço o que faço só pelo dinheiro, mas ele não fez a pesquisa dele bem, pois eu não tiro dinheiro das doações. Eu ganho minha renda como escritor, palestrante, e com filmes, do mesmo modo que ele ganha a sua com a música. Nós aceitamos doações, sim, mas nossos livros mostram muito claramente que o dinheiro é gasto para parar exatamente as coisas que o Heri defende. 

Ele bem que admitiu que não fez a pesquisa que deveria ter feito quando escreveu sua música Rainbow Warrior sobre mim. Ele falhou em perceber que o Rainbow Warrior é um navio do Greenpeace, e que eu não sou afiliado ao Greenpeace. Sua descrição de mim como alguém que vem da selva de pedra é inverdadeira, pois eu cresci num vilarejo pesqueiro da costa leste, e vivo, atualmente, numa ilha menor do que a dele. Sua tática era a de me desbancar como um urbano alienado, oportunista do mundo natural, onde a matança é a norma. Pode ser a norma no mundo dele, mas não é no meu. Passei minha vida inteira me opondo à crueldade e a destruição da biodiversidade, incluindo a perseguição de caçadores ilegais de elefantes no Parque Tsavo Leste no Quênia, defendendo lobos no Yukon, focas nas banquisas de gelo e baleias no Oceano Austral. De fato, passei mais tempo na natureza selvagem e em lugares remotos e isolados do que o Heri já passou, ou jamais passará. 

É fácil fazer pontuações do púlpito do palco como estrela de rock cantando sobre conflitos e tempestades, batalhas e lutas, mas é algo bem diferente lutar com tempestades em confrontos com vigaristas cruéis em alto mar.

Heri vive num mundo de instrumentos musicais, ajudantes de palco, plateias e todas as gratificações de uma estrela de rock. Outra coisa, bastante diferente, é encarar tempestades de verdade e entrar em confronto físico com uma oposição violenta em alto mar. Resumindo, nós, a tripulação dos navios da Sea Shepherd, somos os verdadeiros vikings e o Heri faz o papel de um no palco. Mas ainda há mais uma coisa que o Heri não sabe sobre mim, o fato de que o meu avô Otto Larsen era dinamarquês, e que a família do meu pai veio da Britânia e da Normandia, o que torna minha herança também uma herança viking, mas com uma diferença muito significativa – eu não preciso matar um ser inteligente, consciente de si, lindo e social para provar, ou para celebrar minha herança. Qualquer homem pode matar uma baleia ou uma foca bebê se escolher ser cruel, em vez de ser gentil e carinhoso, e se escolher negar a empatia e a compaixão para abraçar a crueldade e a morte. O viking moderno deve ser um promotor na natureza e da vida, não um destruidor impiedoso. Sangue e vísceras, morte e destruição é ser um viking muito antiquado, e deveria ter o mesmo destino do estupro e da pilhagem, da escravidão e dos sacrifícios humanos, todos valores tradicionais das comunidades viking dos séculos passados. 
Entretanto, apesar disso tudo, Heri Joensen teve, de fato, a coragem de falar para defender suas crenças e eu não posso apontar falta dele nisso, especialmente quando falta aos baleeiros e políticos faroenses a firmeza moral de fazer isso eles mesmos. Se isso é o melhor que os faroenses podem fazer para promover sua causa de matança, eles claramente perderam posição moral elevada. 

Não se trata de tradições e valores, ou de cultura e herança. Simplesmente, é uma orgia sanguinolenta, impiedosa, cruel, sem remorso e obscena, de morte e desrespeito pela natureza e pela vida. 

O Grind precisa morrer para que as baleias possam viver. É simples.

Traduzido por Carlinhos Puig, voluntário do Instituto Sea Shepherd Brasil

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