Sea Shepherd no coração de um escândalo japonês

Fogo em frente ao porto. Foto de arquivo

Parece que a campanha da Sea Shepherd para interromper as operações baleeiras ilegais no Santuário de Baleias da Antártica está tendo um sério impacto político, além de massivas perdas financeiras pela indústria baleeira. Na semana passada, a mídia japonesa informou que os baleeiros perderam 20,5 milhões de dólares na última temporada por causa das intervenções da Sea Shepherd. Esta história foi também relatada no New York Times e na edição atual da revista Newsweek.

Esta semana, o Yomiuri Shimbun está relatando que a realocação de verbas do Fundo de Apoio do Grande Terremoto do Leste do Japão para despesas não relacionadas a desastres está finalmente causando um escândalo político no Japão.

Um ano atrás, quando o Capitão Paul Watson expôs publicamente o fato de que cerca de 30 milhões de dólares foram relocados do Fundo de Apoio do Tsunami especificamente para oposição às operações da Sea Shepherd Conservation Society, ele foi acusado pelo governo japonês de estar mentindo, apesar de a Agência de Pescas japonesa ter noticiado que a realocação tinha sido feita de fato. Outros defensores dos baleeiros afirmaram que os recursos foram alocados de impostos e não do fundo de apoio. Na época, a mídia japonesa não expressou muito interessa na alocação. Agora, um ano depois, a mídia japonesa parece enxergar isso como um escândalo, e se fato é. O governo japonês tem abusado seriamente da boa vontade das pessoas ao redor do mundo, gastando fundos destinados às vítimas do terremoto e do tsunami em projetos que não têm relação com os desastres.

Como o Yomiuri Shimbun relata:

“Alocações fiscais para a reconstrução de áreas devastadas pelo Grande Terremoto do Leste do Japão têm sido utilizadas para projetos que não têm relação direta com áreas atingidas por desastres. Esse desvio de fundos não pode ser ignorado”.

“Sob pressão do Partido Liberal Democrático na Comissão de Auditoria e Fiscalização da Administração da Câmara dos Representantes, o Ministério das Finanças e outros ministérios listaram projetos em andamento. Muitos dos projetos são suspeitos de não serem essenciais para a reconstrução. O Ministério da Agricultura, Floresta e Pesca destinou o custo de lidar com a Sea Shepherd, uma organização anti-baleeira, como parte do orçamento de reconstrução. Seu raciocínio é de que apesar dos protestos anti-baleeiros poderem ser interrompidos, eles irão afetar a reconstrução de Ishinomaki, na província de Miyagi, que possui instalações para processamento de baleias”. O Yomiuri Shimbun descreve isto como uma “desculpa esfarrapada” do Vice Primeiro Ministro, Katsuya Okada.

Otsuchi, Japão. Foto de arquivo

Parece que a alocação para se opor a Sea Shepherd foi um dos abusos mais descaradamente desconectados do fundo. Os 30 milhões de dólares foram destinados para uma campanha de relações públicas contra a Sea Shepherd, para uma ação movida nos Estados Unidos buscando uma liminar contra a Sea Shepherd, para pressionar a Costa Rica a ressuscitar uma acusação de uma década atrás, previamente retirada, contra o Capitão Paul Watson, e também para pressionar a Interpol a emitir uma notificação de “Alerta Vermelho” para o Capitão Paul Watson. Fundos foram também realocados para fornecer um navio de segurança para acompanhar a frota baleeira.

O governo japonês ficou envergonhado quando anti-baleeiros australianos embarcaram com sucesso nesse navio de segurança na costa da Austrália, além da Sea Shepherd ter cortado em 74% a cota de matança de baleias. Alimentando a raiva sobre esse escândalo está o relatório que diz que o governo japonês está enganando os contribuintes japoneses sob o pretexto de usar o aumento dos impostos como um importante recurso para realizar a reconstrução. Para isso, o imposto residencial e o imposto de renda vão aumentar mais do que aumentaram em períodos de 10 e 25 anos, respectivamente, de acordo com o jornal. Apesar do escândalo, o governo japonês vai mais uma vez realocar fundos para subsidiar a frota baleeira e se opor aos navios e tripulantes da Sea Shepherd. Eles estão também gastando grandes somas de dinheiro em suas tentativas de rastrear o Capitão Paul Watson. Parece que o governo japonês está com a impressão que se  o Capitão Paul Watson for eliminado, eles poderão remover a oposição da Sea Shepherd às suas atividades baleeiras ilegais.

Críticos dentro e fora do Japão, irritados com o mau uso dos fundos, estão se perguntando quanto mais desse dinheiro do Fundo de Apoio a Desastres será desperdiçado para defender da falência a indústria baleeira posando de projeto de pesquisa que nunca produziu um único artigo científico internacional revisado em um quarto de século de operações. O navio-fábrica baleeiro Nisshim Maru está agora na doca seca em Hiroshima, sendo melhorado com enormes gastos públicos. Enquanto isso, quatro navios da Sea Shepherd estão aguardando no Pacífico Sul para mais uma vez intervir contra essa indústria montada em escândalo que só continua a existir como um projeto de boa-ação glorificado financiado por indivíduos que pensam que suas doações estão servindo para ajudar pessoas, não para matar baleias.

Otushi, Japão. Foto de arquivo

Guardiões da Enseada passando por Otushi, Japão. Foto de arquivo

Traduzido por Drica de Castro, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

 

Lágrimas pela Terra do Sol Nascente

Comentário pelo Capitão Paul Watson

Por Quem os Sinos Dobram
por John Donne

Nenhum homem é uma ilha,
Isolado em si mesmo.
Cada um é um pedaço do continente
Uma parte da terra firme.
Se um torrão de terra for levado pelo mar,
A Europa fica menor.
Assim como se fosse um promontório.
Como se fosse o solar dos teus amigos
Ou o teu próprio.
A morte de cada homem me diminui,
Porque sou parte da humanidade.
Portanto, não me perguntes
Por quem os sinos dobram;
Eles dobram por ti.

A Sea Shepherd Conservation Society, nossos diretores, conselheiros, voluntários em terra, funcionários e equipes dos nossos navios e os oficiais sinceramente desejamos expressar nossa mais profunda preocupação e simpatia para com o povo do Japão, que está sofrendo por um dos piores desastres naturais da história da civilização.

A natureza não tem favoritos, e assim como um terremoto atingiu a Nova Zelândia recentemente, incêndios devastaram a Austrália há dois anos, e um tsunami atingiu a Índia e a Tailândia não faz muito tempo, a mensagem é clara – nós compartilhamos todos os perigos de viver neste planeta água chamado Terra.

Em face de tal perigo das forças da natureza, somos todos iguais.

Tenho ouvido muitas pessoas dizerem que a tragédia do Japão é o karma. As pessoas que dizem tais coisas não entendem o conceito de karma. Esse terremoto no Japão tem base puramente na geografia e geologia.

Eu vivenciei o terremoto de Northridge, na Califórnia, em 1994, e a erupção do Monte St. Helens, em 1980, e eu vi em primeira mão quão terrível e impressionantemente devastadora a força da natureza pode ser.

O que aconteceu no Japão é horrível, e como reagimos a isto revela a integridade de nossos corações.

Quando o terremoto aconteceu, eu sabia que amigos próximos estavam em sério perigo. Scott West e os voluntários da equipe Guardiões da Enseada estavam monitorando os caçadores de golfinhos no cais da cidade de Otsuchi, uma das cidades que foi totalmente destruída pelo tsunami.

Devastação pelo tsunami em Otsuchi

Devastação pelo tsunami em Otsuchi

Nós não soubemos por mais de 40 horas se eles estavam vivos ou mortos. Nosso povo em terra e o cidadão médio do Japão eram iguais em face desta tragédia. O Japão não merecia este desastre, nem ninguém deve implicar com o que eles fizeram.

Graças ao raciocínio rápido e uma compreensão da situação em que estavam, a tripulação da Sea Shepherd dirigiu-se para um terreno elevado, quando viram a descida das águas. Eles fizeram isso, apesar do fato de que do momento do terremoto até o tsunami não houve mais de oito minutos.

Eles passaram uma noite muito fria em uma colina e não tinham escolha a não ser assistir a obliteração total da cidade abaixo deles. Eles viram uma mulher gritar por socorro e foram impotentes para ajudá-la. Eles compartilharam barras de energia e água com uma menina japonesa presa no monte com eles. De manhã, eles caminharam por quilômetros através da devastação, corpos e escombros; encontraram compaixão e preocupação nas pessoas que tinham perdido tudo. Pessoas que ofereceram-lhes comida e o calor do fogo. Nosso povo deixou-lhes cobertores.

Nossa equipe nunca vai esquecer o que viu naquele dia, e nunca vão esquecer as boas pessoas que conheceram e com quem partilham agora uma ligação rara, unidos por experiências além da compreensão de pessoas que não estavam lá.

Os Guardiões da Enseada da Sea Shepherd estavam no Japão desde setembro de 2010, acompanhamento a matança de golfinhos. Foi por acaso que no dia em que chegaram ao norte para investigar o massacre das toninhas de Dall, foi o dia em que se viram em pé no cais antes do assalto iminente e completo do tsunami, quando a Terra desencadeou seu enorme poder.

A Sea Shepherd e os Guardiões da Enseada sabem que as mortes brutais dos golfinhos e botos não refletem o comportamento de todos os japoneses. Os Guardiões não estavam ali para se opor aos japoneses – estavam ali para se opor à matança de golfinhos. As pessoas que matam as baleias e os golfinhos não são as mesmas pessoas que encontraram amontoadas pelos incêndios, no meio dos escombros, pessoas que partilharam a sua dor e o horror do que ocorreu naquele dia.

Enquanto isso, em Taiji, 24 golfinhos foram lançados sobre as rochas pelo tsunami. Os pescadores cruéis que os haviam capturado não fizeram qualquer tentativa de libertá-los ou lhes ajudar depois de terem sido feridos. Depois que o tsunami recuou, os pescadores eram o que eram antes do tsunami – cruéis, indiferentes e insensíveis. E de nenhum modo eles refletiram a compaixão e a inocência das pessoas que os Guardiões da Enseada encontraram em seu calvário no norte.

O Japão merece e continuará a receber o apoio das pessoas boas do mundo, em resposta a esta tragédia, pois foi uma tragédia que tirou a vida de um grande número de pessoas e afetou a vida de um número muito maior.

A Sea Shepherd Conservation Society opõe-se sempre contra os assassinos de baleias e golfinhos, que são japoneses, mas não fazemos e nunca o fizemos contra o povo japonês, assim como nos opomos aos baleeiros da Noruega, mas passamos três dias em busca de três noruegueses que se perderam no Mar de Ross há algumas semanas atrás.

Às vezes, somos separados por diferenças e, por vezes, somos unidos por ideais comuns de respeito e compaixão. A vida é complexa e pode ser trágica, mas também é extremamente bonita e são tragédias como esta que mostram que, de fato, nenhum de nós é uma ilha, e que sim, realmente, quando os sinos dobram por um, eles dobram por todos nós.

Simpatizamos com as famílias das vítimas. Somos gratos ao nosso povo ter sobrevivido a esse desastre e retornado, abalados, mas ilesos. Queremos ver o Japão se recuperar das agressões do terremoto, maremoto, erupção vulcânica, e do derretimento nuclear de três de seus reatores. Pelo que aconteceu no Japão, que aconteceu com outros no passado e vai acontecer com outras pessoas no futuro.

Diante desse desastre, reconhecemos que somos todos terráqueos partilhando os perigos e os tesouros, a dor e as recompensas, e a tristeza e a alegria de estar vivo nesta jóia azul e branca em sua viagem através do espaço.

Lamentamos pelas baleias e golfinhos mortos pelas mãos de algumas pessoas cruéis, e lamentamos pelos milhares de seres humanos desaparecidos e terrivelmente feridos fisicamente, mentalmente e emocionalmente por este desastre natural sem precedentes.

Para o povo japonês – os nossos pensamentos estão com vocês. Esperamos que muitos daqueles que estão declarados desaparecidos sejam encontrados, que as casas sejam reconstruídas, para que as famílias se reunam, e que as pessoas sejam alimentadas e abrigadas, e que os doentes e os feridos sejam atendidos e que, a partir da lama e do desespero, dos restos, e da devastação, que o povo japonês se recupere e vença.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.

Atualização de Otsuchi, Japão – 11 de março de 2011

Por Scott West

Nosso caminho para sair de Otsuchi

Nosso caminho para sair de Otsuchi

O dia começou tão normal quanto pode ser quando você está trabalhando em expor e parar o maior abate de cetáceos no planeta. Na noite anterior três novos Guardiões haviam se juntado a nós: Marley, Carisa, e Mike. Nós seis nos dirigimos para a cidade para verificar se algum dos barcos arpoadores tinha saído nas condições de vento atuais. Dois tinham saído. Também nos reunimos com a polícia local, que estava esperando por nós.

Depois de um dos barcos retornarem com uma carga de peixes pequenos, começamos a levar os novos Guardiões para uma excursão na área. A polícia nos seguiu e assim os três veículos desfilaram em torno do porto. Nós nos aproximamos da luz em uma área do cais no porto central. Havíamos sentido vários terremotos e tremores desde que estivemos aqui. Eu vivi na área da Baía de San Francisco por vários anos e isto foi diferente de tudo que eu já havia experimentado. Os veículos começaram a pular, e era difícil ficar em pé. Eu sugeri que saíssemos dali, e ninguém precisou ser convencido disso. Os trabalhadores estavam correndo para fora do cais e se dirigiram para a muralha tsunami. A polícia, que havia parado no único lugar que poderíamos passar, estava apontando freneticamente para que todos pudessem atravessar as portas na muralha tsunami.

Conseguimos passar. Estes muros e portões são estruturas enormes que parecem ter sido construídas para suportar um bombardeio militar. Estendem-se bem alto no ar e contornam a área do porto da cidade inteira. Sabíamos de uma pequena estrada que abraça a costa rumo ao sul da cidade de onde podíamos ver a área de processamento de golfinhos. Fomos para lá. Conforme dirigíamos ao longo do interior da muralha, os enormes portões estavam sendo fechados e baixados. Muitas pessoas estavam executando essas tarefas com determinação. Continuamos em frente e logo fomos acompanhados por um caminhão de bombeiros e dezenas de veículos com cidadãos locais.

Não demorou muito para que a água fosse sumindo do porto e, em seguida, reaparecesse. Aprendemos com os bombeiros a esperar para ver vários ciclos de maré baixa e alta. A água, em seguida, rapidamente voltou ao porto e subiu até inundar todas as áreas ao lado da muralha. Isso aconteceu muito rapidamente. Voltou ao mar novamente, desta vez quase se transformando em lama. Em seguida, o retorno da água foi maior que o interior, e criou uma parede de água negra. Desta vez a água subiu ainda mais e chegou ao topo das paredes. Ela continuou subindo acima das colinas e preenchendo os vales e fendas. Várias vezes isso aconteceu e se repetiu.

Otsuchi, Japão, 12 de março

Otsuchi, Japão, 12 de março

Enquanto a escuridão se aproximou, ficou claro que não íamos ser capazes de sair daquela colina. Ambas as extremidades da rua foram bloqueadas por escombros e depois descobrimos que as estradas desapareceram. Os bombeiros e moradores caminhavam ao longo dos morros para ver o que eles poderiam descobrir sobre seus entes queridos. Os telefones celulares foram inúteis neste momento. Isso deixou nós seis sozinhos na estrada com uma jovem de outra cidade, que estava de passagem. Então começou a nevar. A neve se misturava com as cinzas dos muitos incêndios nas colinas e nos edifícios danificados. A fumaça estava nos sufocando.

Nós sete nos refugiamos em nossos carros. Uma vez que a neve parou, fizemos um balanço da nossa situação. A água ainda estava baixando e subindo no porto abaixo. Restos constituídos por casas, carros, tanques de petróleo, embarcações, equipamentos de pesca e pertences pessoais estavam girando em torno da luz fraca. Vimos pelo menos um corpo na praia. Mais tarde, descansou no que restou de uma árvore.

De repente, em meio a essa confusão, ouvimos uma mulher gritar por socorro. Com o crepúsculo, nós poderíamos ver a sua forma em meio a pedaços de detritos flutuantes. Andamos para encontrar cordas e tentamos em vão conseguir um barco. A mulher japonesa que estava com a gente chamou a mulher. Então Mike correu de volta até a estrada para comandar o carro de bombeiros. Ele o trouxe aonde estávamos. Com o seu rádio, fomos capazes de notificar as autoridades da situação da mulher. Nenhuma ajuda veio.

Continuamos a nos aventurar por uma muralha onde a água constantemente surgia e a água novamente cobria a mulher. Foi um risco, mas nós pensamos que isso nos levaria mais perto dela. Ela não tinha como manobrar seu tablado e nós não tínhamos como conseguir uma linha para ela. Foi horrível. A neve voltou como uma vingança. Seus gritos de ajuda que vinham e iam como os restos estavam sendo empurrados e puxados pela correnteza rápida da água. Estava escuro como breu neste momento. Nós encontramos os disjuntores para dois refletores de caminhão e tentamos encontrá-la. Dois barcos apareceram ao longe. Demorou quase duas horas para conseguirmos a sua atenção e desviá-la para onde achávamos que a mulher estava. Eles chegaram perto dela, e depois se afastaram novamente. Estávamos em estado de choque, e descrentes. Os destroços então moveram-se rapidamente para dentro da baía. Nós não pudemos ouvi-la mais. Avisamos um dos barcos que estava se movendo nos escombros e só pudemos esperar que o barco a encontrasse.

A temperatura estava pairando em torno de zero. Foi uma longa noite agitada, com nós sete amontoados em dois carros pequenos. Felizmente, tínhamos tanques cheios de gás e capazes de acender os aquecedores de vez em quando. Tínhamos também algumas barras de cereal e água conosco.

A madrugada trouxe mais tremores residuais, o céu cheio de fumaça, e o retorno dos bombeiros. Eles haviam descoberto um casal de refugiados na floresta também. Nós arrumamos nossas coisas, trancamos os carros, e começamos a nossa caminhada. Na parte inferior do morro, era possível avaliarmos os danos à estrada. Nós não sabíamos onde os bombeiros estavam indo, mas ficou claro que deveríamos segui-los.

Nosso caminho para sair de Otsuchi

Nosso caminho para sair de Otsuchi

O caminho estava intransitável com a lama, a água e os entulhos, então os bombeiros decidiram que iriam subir a colina. Esta é uma colina muito íngreme, quase vertical. Vários de nossos pertences foram abandonados na subida. Finalmente, chegamos no topo de um pequeno vale que se abria para o mar. Cada casa desta aldeia havia sido destruída. Encontramos uma fogueira de boas-vindas e nos foram oferecidos arroz e sopa das panelas aquecidas sobre as madeiras retiradas dos destroços. A generosidade do povo não podia ser exagerada. Com a destruição e a morte ao seu redor, um futuro incerto pela frente, partilharam conosco a pouca comida que tinham. Enquanto começaram a salvar materiais do entulho tornou-se claro para nós que eles estavam montando um acampamento para um longo período. Nós não queríamos ser um fardo, e por isso decidimos seguir. Os bombeiros nos incentivaram a ficar, porque eles sabiam o que vinha pela frente. Agradecemos, lhes demos um par de toalhas e cobertores que tínhamos, e seguimos em frente.

Cenários de filmes apocalípticos não são nada comparado com a destruição que encontramos enquanto fizemos lentamente o nosso caminho. Otsuchi era uma cidade razoavelmente grande. Ainda é, mas tudo desapareceu. Entre o tsunami, o terremoto, danos e incêndios, não há mais nada. Foi uma viagem difícil fisicamente, com becos sem saída e perigosas travessias. Foi também uma jornada emocionalmente difícil. A extensão da miséria é indescritível. Nós finalmente chegamos em uma área queimada e pisamos em cima de uma estrada. A devastação ainda estava ao nosso redor mas nós estávamos acima da maioria dos detritos. A maioria das pessoas que nós vimos estava em choque.

Sem saber a extensão dos danos em todo o Japão, esperávamos encontrar representantes dos Estados Unidos e embaixadas canadenses esperando por nós. Abordamos alguns policiais e começamos a aprender muito sobre como estávamos por nossa conta. Tínhamos escolhido um hotel bem no interior para melhor nos escondermos das autoridades. Nosso destino se tornou o nosso hotel em Tono. Tono está há cerca de 32 quilômetros de Otsuschi, mas por causa das montanhas, demora cerca de 90 minutos para alcançá-lo, quando tínhamos um carro. A polícia disse que as estradas estavam obstruídas e que não poderíamos chegar a Tono. Pegamos nossas mochilas e começamos a andar. Obviamente, passamos por mais destruição ao longo do caminho. Andamos vários quilômetros antes de conhecermos o homem mais surpreendente. Na sua cidade destruída, ele assumiu a tarefa de encontrar caronas para Tono. Não havia nenhum lugar para alugar um carro, porque as locadoras de carros ficavam em grandes cidades costeiras que tinham sido destruídas. Mas ele encontrou dois veículos para nos levar alguns quilômetros a mais para o interior. O casal em um dos carros tinha perdido tudo e ainda estava disposto a ajudar este grupo de estrangeiros. Fomos levados para uma pousada e pedimos para permanecer. O homem saiu, mas voltou novamente com uma mulher e seu furgão. Sua loja em Otsuchi havia sido destruída, mas com grande calor e dignidade, ela nos levou acima da montanha para Tono.

Eu não posso começar a descrever a quantidade de bondade e generosidade mostrada a nós neste dia. Isso confirma a minha crença de que os japoneses são calorosos e gentis. As atividades dos matadores de golfinhos em Taiji e dos matadores de toninhas de Iwate são aberrações, e absolutamente não são a regra. Há muita esperança de que vamos ver o fim das matanças e que o Japão será o líder que deve ser na conservação marinha.

Falando em Taiji, soubemos hoje que o tsunami chegou lá também. Os barcos de pesca e barcos dos matadores fugiram no mar para escapar da onda. Ninguém pensou nos golfinhos presos nas redes no porto. Seis vezes a água recuou e voltou, mas não inundou a cidade. Seis vezes, os golfinhos em cativeiro foram esmagados contra as pedras e gritaram em agonia. Pelo menos 24 golfinhos morreram. Qualquer agricultor libertaria os animais, quando confrontados com um incêndio. As almas dos matadores de golfinhos estão sem luz.

Pelos oceanos,
Scott West

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Casa flutuando próximo às ondas do Tsunami, note a dimensão das ondas em relação à casa

Casa flutuando próximo às ondas do Tsunami, note a dimensão das ondas em relação à casa

 

 

Crédito das 3 últimas fotos: Mike XVX

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.

Equipe da Sea Shepherd, Guardiões da Enseada, estão vivos e ilesos

Scott West

Scott West

Após mais de 24 horas desde o último contato, o Diretor de Investigações da Sea Shepherd, Scott West, pôde telefonar para sua esposa Suzanne e relatar que toda a equipe dos Guardiões da Enseada da Sea Shepherd estão vivos e ilesos.

Precisaram abandonar seus dois carros na cidade portuária devastada de Otsuchi, onde passaram a noite em uma colina. A cidade inteira foi destruída ao seu redor. Ao saírem, verificaram que as estradas foram completamente arrasadas, e passaram por inúmeros cadáveres em meio a pilhas de escombros. Em determinado ponto ontem avistaram e ouviram uma mulher na água gritando por socorro, mas ela foi levada para o mar antes que pudessem fazer alguma coisa para salvá-la.

A equipe de ativistas foi à Otsuchi para documentar a matança das Toninhas de Dall. Todo ano, os pescadores abatem 20.000 dessas criaturas gentis. Eles tinham acabado de filmar um barco de pesca retornando de uma caçada quando viram a água no porto recuando tendo com isto imediatamente se dirigido para terreno alto. Da hora do terremoto ao tsunami em Otsuchi se passaram cerca de oito minutos.

Os Guardiões estavam bem no meio do tsunami mais devastador que já atingiu o Japão, e estão todos vivos e bem.

Scott West só foi capaz de enviar essa mensagem rápida, pois seu celular estava com a bateria no fim:

“Estamos todos os 6 seguros e fora do Otsuchi. Agora em Tono no hotel, sem Internet, água ou comida. Até que o iPhone fique sem bateria. – Scott”.

Traduzido por Carlos “CROW” Francisco, voluntário da ISSB.

A onda mortal: o tsunami e a Sea Shepherd

Magnitude sísmica: 8,9 ao largo do Japão

Data / Hora: sexta-feira, 11 de março de 2011, às 02:46:23, no epicentro – Localização 38,322°N, 142,369°L

Scott West em Taiji

Scott West em Taiji

A Sea Shepherd Conservation Society foi colocada em estado de alerta em cinco locais desde ontem à tarde. Continuamos em estado de alerta em dois desses locais – Japão e Ilhas Galápagos.

Nossa equipe Guardiões da Enseada ainda está desaparecida. O líder dos Guardiões da Enseada,  Scott West, estava com Mike Vos, Millen Tarah, Webster Carisa e Daviduk Marley, e acompanhado por Brian Barnes, da ONG Salvem os Golfinhos do Japão. Eles relataram terem visto a água retroceder, e Scott, Mike e Tara foram para uma van no momento. Os outros foram para lugares mais altos. Eles saíram minutos após o alerta de tsunami começar a tocar, e não havia sido tocado antes. Eles estavam muito perto de onde o maremoto atingiu o Japão com toda sua força, e esperamos que eles estejam bem e que o problema seja simplesmente falta de comunicação, já que toda a infra-estrutura de comunicação foi atingida.

Todos os Guardiões da Enseada, em Iwate, eram americanos ou canadenses, e as embaixadas em Tóquio já foram informadas. A frota baleeira japonesa ainda está há uma semana de distância para chegar no Japão e, portanto, não foi afetada pelo terremoto e tsunami.

O Capitão Locky MacLean ordenou ao Gojira para se afastar do mar de Taiti, para evitar a onda. Eles fizeram isso e recentemente retornaram ao porto de Papeete.

As tripulações do Bob Barker e do Steve Irwin estavam em menor alerta em Hobart, na Tasmânia.

Nossa operação em Galápagos está sob ameaça de tsunami. Ainda não tivemos quaisquer relatórios sobre isso ainda.

O fundador e presidente da Sea Shepherd Conservation Society, o Capitão Paul Watson, estava na ilha de Palau, há cerca de 2.000 quilômetros ao sul do Japão, com o CEO da Sea Shepherd, Steve Roest, às 19h30 da noite passada, quando onda teria atingido as ilhas. Não havia quase uma ondulação, o que é uma coisa muito boa, porque realmente não há terreno elevado em Palau.

Aguardamos ansiosamente a palavra dos Guardiões da Enseada, e todos nós, com a Sea Shepherd Conservation Society, desejamos expressar nosso apoio e condolências ao povo do Japão, que tem sofrido com este horrível desastre natural. Nós também estamos muito preocupados com a ameaça representada por alguns dos reatores nucleares que foram desestabilizados pelo terremoto e pelo tsunami. Desejamos também expressar o nosso apoio e preocupação com as pessoas que vivem no caminho dessas ondas mortais – em especial para aquelas pessoas no norte da Califórnia, Havaí, e na costa do Pacífico da América do Sul.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.