Editorial

Será esta a última campanha da Sea Shepherd na Antártica?

Comentário pelo Capitão Paul Watson

Steve Irwin no campo de gelo (Foto: Barbara Veiga)

Steve Irwin no campo de gelo (Foto: Barbara Veiga)

Será esta a última campanha da Sea Shepherd Conservation Society na Antártica? Eu sinceramente espero que sim, as perspectivas estão prometendo que o Whale Wars no Santuário de Baleias do Oceano Antártico esteja chegando ao fim. É o que está sendo escrito pelos baleeiros japoneses.

Esta é a frota mais fraca de todas que os japoneses já tiveram, com apenas um navio-fábrica e três arpoadores. O navio de proteção Shonan Maru 2 não está mais com a frota japonesa, e a embarcação de observação também não faz mais parte da operação de caça.
Mas, esta é a frota mais forte que a Sea Shepherd já teve. Temos três embarcações, um novo helicóptero de longo alcance, novos equipamentos e três incríveis tripulações de voluntários.  

Nós não ouvimos nada do Gleen Inwood, ou Ginza Gleen, como gostamos de chamá-lo, o porta-voz neozelandês dos baleeiros. Ele está estranhamente quieto nesta temporada, e talvez seu contrato de relações públicas com os baleeiros não tenha sido renovado.

A economia japonesa está em dificuldades. O valor do ien japonês tem caído recentemente, e o Instituto de Pesquisas dos Cetáceos tem se tornado uma responsabilidade econômica para o governo japonês, além de ser uma irritação constante para o Ministério das Relações Exteriores japonês. A indústria baleeira também foi escandalizada por acusações de suborno, fraude e corrupção.

Todo ano o Japão é humilhado na Comissão Internacional da Baleia, e agora a Austrália quer levar o Japão ante à Corte Internacional em Haia para colocar à prova suas atividades no Santuário de Baleias do Oceano Antártico.

Em 20 de janeiro, 2011, Kyodo Senpaku, a Associação Japonesa Baleeira, e o Instituto de Pesquisas de Cetáceos realizaram uma conferência de imprensa.

Kazuo Murayama, CEO da Kyodo Senpaku e chefe da Associação Baleeira Japonesa informou que “as vendas anuais (de carne de baleia) tiveram um decréscimo de 30% durante a primeira metade de 2010”. Em resposta, ele anunciou que as atividades da Associação Baleeira Japonesa devem decair, como resultado. O Instituto de Pesquisas de Cetáceos anunciou que reduziu o número de seus diretores executivos para um. Yoshihiro Fujise, o Diretor Executivo remanescente, afirmou que “o modelo financeiro para cobrir os custos de pesquisas através da venda de carne de baleia como um ‘sub-produto’ da pesquisa já não funciona”.

Publicações do tipo New Scientist e biólogos marinhos de todo o mundo tem condenado a suposta justificativa científica das operações baleeiras. Os discursos histéricos do Instituto de Pesquisa de Cetáceos no Facebook, no seu site, e em seus releases, tem se focado na condenação da Sea Shepherd Conservation Society. O que eles chamam de pirataria, eco-terrorismo, e extremismo militante é simplesmente o que chamamos de operações de conservação anti-caça. A Sea Shepherd está simplesmente defendendo a integridade do Santuário de Baleias no Oceano Antártico.

Críticos da Sea Shepherd disseram que a única razão para o Japão continuar matando baleias é por causa da Sea Shepherd, e que os japoneses tem muito orgulho para desistir diante da oposição de uma organização não-governamental. Declarações da Agência de Pesca japonesa e do Instituto de Pesquisa de Cetáceos parecem sugerir que isto se tornou uma questão de salvar a imagem. Agora parece ter se tornado uma obsessão destruir a Sea Shepherd, com o Ministério das Relações Exteriores japonês aumentando a pressão na Holanda, Estados Unidos, Austrália, e Nova Zelândia para neutralizar a Sea Shepherd.

Alguns críticos contra a caça das baleias tem sugerido que a Sea Shepherd diminua sua oposição contra os baleeiros japoneses, para permitir saiam com elegância. Eu discordo. A frota baleeira japonesa está onde está agora por causa da Sea Shepherd. Nós acabamos com seus lucros, e aumentamos seus custos de operação por seis anos consecutivos. Eles estão agora com dívidas tão altas que os empréstimos de subsídios do governo japonês somente irão continuar aumentando. Nós não podemos desistir e permitir que eles tenham qualquer lucro que possa ser usado no pagamento dessas dívidas.

Nosso objetivo não é ganhar os corações e mentes do povo japonês. Ganhar o coração e a mente da maioria dos canadenses não influenciou a política do governo canadense, que apesar de mais e mais canadenses estarem contra a matança das focas, mais o governo defende a matança das focas. A caça às focas é também uma indústria que sobrevive devido ao bem-estar corporativo do governo canadense.

Em um mercado livre de verdade, tanto a caça às baleias japonesa quanto a caça às focas canadense poderiam ter acabado por falência. Mas ambas continuam sobrevivendo por causa desta nova invenção chamada comunismo corporativo. Entretanto, nos dois casos, e apesar dos comunicados dos governos, ambas as caças às focas e às baleias continuam decaindo, sem qualquer esperança de conseguir lucro num futuro previsível. Na verdade, ambas são indústrias da morte sobrevivendo graças à políticos e burocratas. A opinião pública tem pouco impacto nestas decisões. De fato, com o Japão isto pode ser argumentado que a opinião exterior ou gaiatsu, como é chamada no Japão, carrega um peso maior que a pressão interna.

A mídia japonesa tende a ser nacionalista e pró-governamental. Por um longo tempo, a população civil japonesa estava completamente inconsciente das operações no Oceano Antártico. Foi o drama dos confrontos com a Sea Shepherd que fizeram o público japonês despertar.

O objetivo da Sea Shepherd há tempos tem sido de afundar economicamente a frota baleeira japonesa – para levá-los à falência, e isto é uma estratégia que parece estar funcionando.

Apesar da propaganda do Japão, a Sea Shepherd não está fazendo nada ilegal. Nenhuma de nossas embarcações foi acusada ou detida, não fomos repreendidos, e não fomos acusados de nenhum crime, nem mesmo pelo Japão. Os navios da Sea Shepherd tem acessado os portos da Austrália e Nova Zelândia, as embarcações baleeiras japonesas não. Os baleeiros japoneses também foram oficialmente proibidos de matar baleias nas águas australianas pela Corte Federal Australiana.

Em 2010, Pete Bethune foi acusado individualmente quando embarcou no Shonan Mau 2, pois ele ficou sujeito às leis japonesas, uma vez que estava a bordo de um navio japonês. A decisão de embarcar no navio baleeiro de segurança da frota, que havia afundado sua embarcação, o Ady Gil, foi tomada por Bethune. A Sea Shepherd apoiou sua decisão, e pagou por sua defesa no Japão. Entretanto, nada que os navios da Sea Shepherd tenham feito foi ilegal, ou mesmo quebraram os regulamentos marítimos.

Nenhum navio da Sea Shepherd abalroou os baleeiros japoneses no Oceano Antártico, pelo contrário, foram os arpoadores japoneses que começaram as colisões em todos os casos. Anos atrás, eles fizeram o mesmo com os navios do Greenpeace, e na época, eles também acusaram o Greenpeace de começarem as colisões. Uma vez que o Greenpeace tem uma política clara de não abalroar navios, as acusações japonesas perderam credibilidade quando eles fizeram as mesmas acusações contra a Sea Shepherd. A Sea Shepherd não é contra abalroar as embarcações operadas por caçadores. Nós fizemos isso no passado, entretanto, no caso da defesa do Santuário de Baleias no Oceano Antártico, nossa política é de interceptar, incomodar e bloquear, e não abalroar as embarcações baleeiras.

Esta é uma estratégia que está funcionando, e todo ano nós reduzimos as cotas de morte mais que no ano anterior, tanto quanto nossos recursos se tornam mais fortes. Este ano nós removemos completamente dois dos três arpoadores durante todo o primeiro mês das operações baleeiras, e nós temos mantido o arpoador restante e o navio-fábrica Nisshin Maru em perseguição por 80% do tempo, permitindo a eles pouco tempo para parar e matar baleias.

Nós estamos confiantes que o número de baleias mortas este ano será muito menor que os apontados anteriormente, já que estamos preparados para prevenir a matança de muito mais baleias do que eles são capazes de matar. Em outras palavras, isso se trata de contar os corpos. Nosso objetivo é de manter a contagem dos corpos no mínimo possível, e os baleeiros tem um objetivo de matar 935 baleias minke, 50 baleias corcundas, e 50 baleias fin, em um total de 1.035 baleias. No ano passado, eles mataram 507 baleias, e nós salvamos 528 baleias.

Não há discussão sobre o sucesso do último ano. Os próprios baleeiros nos deram créditos com isso, lamentando os danos econômicos que nós causamos à sua chamada indústria de pesquisas.

E agora, nós estamos chegando ao final. A demanda por carne de baleia no Japão está baixa. Há um excedente de carne de baleia sendo congelada em despensas em armazéns no Japão. O valor do ien está caindo. Novas leis da Organização Marítima Internacional, as quais irão proibir o uso de óleos combustíveis na Antártica depois de agosto de 2011, tornará as operações das maquinarias do Nisshin Maru ilegais. O Japão precisa de um navio-fabrica de reposição, mas nem sequer começaram a construir um. A Austrália está levando o Japão à Corte Internacional em Haia. Protestos públicos internacionais contra a matança japonesa de baleias e golfinhos estão aumentando. Acusações de suborno e corrupção dentro da indústria baleeira e do governo japonês tem vindo a tona mais e mais.

Portanto há uma grande possibilidade de que o Japão não mande uma frota baleeira para o Oceano Antártico no fim deste ano, e se eles fizerem isso, nós estaremos preparados para nos opormos a isso uma vez mais. Mas nós preferimos que não. Nós preferimos que as baleias do Santuário de Baleias do Oceano Antártico sejam deixadas em paz. Nós passamos sete temporadas intervindo contra esses caçadores de baleias. Cada temporada nos dá mais suporte que o ano anterior, e a cada temporada aumentam nossos recursos, fortalecem nossas linhas de suprimentos, e nossa efetividade.

Nós vamos estar preparados para retornar em dezembro de 2011, e nós vamos estar preparados para voltarmos ainda mais fortes. Para estar 100% efetivos, nós devemos usar um terceiro grande navio, ou outro navio que exceda a velocidade dos arpoadores. O Gojira é um excelente navio de patrulha, mas nós precisamos de um pouco mais de músculos. Com um navio para manter cada um dos arpoadores ocupados, nós poderemos ser mais eficientes. Se os baleeiros japoneses voltarem com quatro embarcações, a Sea Shepherd deve voltar com quatro navios também.

E se eles não retornarem, nós moveremos nossas operações para o Atlântico Norte, para mais uma vez desafiar os baleeiros fora-da-lei da Holanda, Islândia e das ilhas dinamarquesas Faroe.

Traduzido por Tomaz Horn, voluntário da ISSB.

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