Editorial

Sea Shepherd se opõe ao chamado do governo da Austrália Ocidental para abate de tubarões

Comentário pelo Diretor da Sea Shepherd Austrália, Jeff Hansen

editorial_111027_1_1_sea_shepherd_opposes_wa_shark_cullO governo da Austrália Ocidental deu, infelizmente, sinal verde para a caça de um tubarão que matou um homem nas águas ao largo da Ilha Rottnest, em 22 de outubro de 2011. O americano de 32 anos estava mergulhando e praticando caça submarina quando, se acredita, um tubarão-branco de três metros o atacou. Em resposta a esse terceiro ataque fatal de tubarão na Austrália Ocidental nos últimos dois meses, o premiê Conin Barnett ordenou que o tubarão responsável pela morte do homem fosse capturado e morto. Ele também não descartou a instalação de redes antitubarão como precaução.

Nossos corações estão, sinceramente, com as famílias daqueles que sofreram essas perdas recentes, consequência dos ataques fatais. Mas, em todos esses casos, as vítimas tinham um amor profundo, respeito e compreensão pelos oceanos, e estavam conscientes dos riscos envolvidos. Os familiares de cada vítima pediram para que os tubarões não fossem mortos, já que seus entes queridos não iriam querer esse tipo de vingança. Uma vítima, em particular, era um surfista e defensor apaixonado da Sea Shepherd.

A Sea Shepherd se opõe à matança de quaisquer tubarões, por qualquer que seja o motivo. Ao longo dos últimos 30 anos, as populações de algumas espécies de tubarão declinaram até a marca surpreendente de 98%. Os tubarões têm habitado os nossos oceanos  por mais de 400 milhões de anos, e têm um papel vital na saúde de nossos oceanos.

O premiê da Austrália Ocidental, Colin Barnett, e o Ministro de Pesca, Norman Moore, aprovaram a busca e morte de uma espécie de tubarão que é protegida, o que mostra que eles estão claramente fora de contato com a importância do papel que os tubarões têm em manter nossos oceanos saudáveis.

Nos 215 anos que as estatísticas de tubarões têm sido registradas na Austrália Ocidental, houveram apenas 119 ataques de tubarão, dos quais 18 foram fatais [1]. Em média, ocorre um ataque de tubarão por ano na Austrália, comparados a 315 afogamentos [2] ou a 694 pessoas mortas nas estradas australianas (2008) [3]. Então, o que fazer? Proibir o banho de mar? Proibir andar de carro? Não, e também não deveríamos caçar uma espécie protegida, que tem nadado em nossos oceanos por milhões de anos como se fosse um superpredador. O tubarão-branco está na lista vermelha das espécies Vulneráveis à Extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, ou International Union for Conservation of Nature, em inglês).

O premiê da Austrália Ocidental, Colin Barnett, afirmou que o seu governo irá investigar a possibilidade de instalação de redes como resposta aos ataques que ocorreram com uma frequência “sem precedentes” [4]. A Sea Shepherd também se opõe fortemente às redes antitubarão. Redes para tubarões são assassinas indiscriminadas, matando vida marinha como focas, tartarugas, raias, golfinhos e até baleias, além de tubarões. De acordo com o instituto de pesquisas de arrecifes CRC, desde a introdução de um programa de controle de tubarões na região da Grande Barreira de Corais no norte da Austrália nos anos 1960, até meados dos anos 90, 2.140 tartarugas, 552 dugongos e 216 golfinhos foram encontrados presos às redes. A estimativa é de que apenas 7% dos dugongos e 10% dos golfinhos foram soltos vivos em algum momento. As redes para tubarões são um cobertor de falsa segurança para o público. A maioria dos tubarões que são pegos nas redes está do lado da praia e estão indo de volta para o mar. Elas, simplesmente, não funcionam. Elas deveriam ser banidas e removidas imediatamente de todas as áreas costeiras.

Um artigo recente da página de internet da Austrália Ocidental, Perth Now [5], afirmou que Brett Merifield, de Dunsborough, havia dito que a maior parte da “comunidade do Sudoeste da Austrália apoiava a pressão para a matança de tubarões que colocavam em risco aquelas praias”. Falei pessoalmente com um número grande de surfistas dessa comunidade de surf e eles me disseram que as alegações do Sr. Merifield não representam, de forma alguma, o desejo e as atitudes do conjunto de surfistas do Sudoeste.

Nos últimos anos, tubarões foram ameaçados pela sobrepesca e a retirada de barbatanas, a redução de reservas de alimento, a atenção negativa da mídia, a captura para o mercado de aquários, redes de tubarão e poluição marinha. Filmes como Tubarão e a atitude da mídia em geral têm muita responsabilidade com relação à devastação das populações de tubarões em todo o mundo. Cada vez que um tubarão se aproxima da costa, a mídia rapidamente o rotula como “monstro” ou “terror”. A realidade é que a maioria dos tubarões são criaturas muito tímidas, que levam um longo tempo para atingir a maturidade e têm apenas algumas crias durante toda a vida, razão pela qual suas populações não podem suportar um massacre violento.

Os tubarões são considerados os doutores dos oceanos, mantendo nossos oceanos saudáveis. Cada espécie oceânica abaixo deles evoluiu sua forma, velocidade e cor graças a eles, enquanto maiores predadores dos oceanos.

Nossos oceanos nos dão até 80% do nosso oxigênio; são os sistemas de manutenção da vida para toda a vida no planeta Terra. Os tubarões exercem um papel vital na saúde dos nossos oceanos e, se forem removidos, haverá efeitos desastrosos nos ecossistemas marinhos. O ecossistema é formado por cadeias alimentares intrincadas. Os tubarões estão no topo dessas cadeias alimentares e são considerados por cientistas como espécies chave, o que significa que sua remoção causaria o colapso de toda a estrutura. Por essa razão, o prospecto de uma cadeia alimentar sem o seu superpredador pode significar o fim da linha para muitas outras espécies.

O monstro verdadeiro poderia, por favor, se apresentar?

Em média, uma pessoa por ano é atacada por um tubarão, em comparação a quase 100 milhões de tubarões mortos por humanos a cada ano em todo o mundo. Então, quem é o monstro de verdade aqui? Eu acho que deveríamos estar apontando o dedo para nós mesmos.

A desordem ambiental em que nos encontramos vem da completa falta de respeito de completa desconexão com a natureza. Tomamos decisões demais, por tempo demais, nas quais as espécies, animais, habitat e ecossistemas morrem ou vivem, o que traz repercussões desastrosas para nossos filhos e netos.

Precisamos nos reconectar com a natureza e os sistemas de manutenção da vida de nossos oceanos. Caçar e matar uma espécie de tubarão ameaçada seria servir ainda mais para romper nossos laços com a natureza e seria a continuação do colapso de nossa própria espécie.

As populações de tubarões estão em grandes apuros em todo o mundo como resultado do comportamento humano e eles precisam desesperadamente de toda ajuda que possam ter de nós. Precisamos dos tubarões vivendo nos oceanos para manter o equilíbrio, mas eles não precisam de nós. Precisamos dar a proteção e o respeito que eles merecem.

A Sea Shepherd está requisitando que o governo da Austrália Ocidental reconsidere sua posição e remova sua ordem para caçar e matar esse tubarão-branco, ou qualquer outro tubarão, descartando a ideia de redes de matança indiscriminada conhecidas como redes de tubarão.

Também estamos convocando todos os apoiadores no mundo inteiro a defender os tubarões e colocá-los no pedestal que merecem. O momento é agora.

Por favor, comuniquem sua opinião contrária à matança de tubarões, ou redes de tubarões, enviando uma mensagem pessoal ao governo da Austrália Ocidental, incluindo Colin Barnett, Norman Moore e William Marmion, dizendo a eles que você se opõe a essa atitude desastrosa com relação aos tubarões.

Colin Barnett, Premiê da Austrália Ocidental: wa-government@dpc.wa.gov.au
Norman Moore, Ministro de Pesca da Austrália Ocidental: minister.moore@dpc.wa.gov.au
William Marmion, Ministro do Meio Ambiente da Austrália Ocidental: minister.marmion@dpc.wa.gov.au

Traduzido por Carlinhos Puig, voluntário do Instituto Sea Shepherd Brasil

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[1] Australian Shark Attack File (http://www.zoo.nsw.gov.au/content/view.asp?id=126)
[2] http://www.royallifesaving.com.au/www/html/2629-national-drowning-report-2011—overview-report-and-key-facts.asp
[3] http://www.infrastructure.gov.au/roads/safety/publications/2009/rsr_04.aspx
[4] http://au.news.yahoo.com/thewest/a/-/breaking/10831891/barnett-opens-door-to-shark-nets/
[5] http://www.perthnow.com.au/news/western-australia/shark-culls-urged-at-busy-wa-beaches/story-e6frg15c-1226167439450?fb_ref=rec-bot&fb_source=home_oneline

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