Editorial

O rato que rugia

Como a Sea Shepherd Conservation Society tem intimidado a indústria baleeira japonesa e ajudado a expor a corrupção e inépcia da Comissão Internacional da Baleia

Comentário pelo capitão Paul Watson

editorial_110715_1_1_The_mouse_that_roared_3479

Um jovem apoiador da Sea Shepherd do lado de fora da reunião da CIB. Foto: Dan Marsh

Em uma calçada em frente ao Hotel de France, em Saint Helier, Jersey …

Greenpeace: “O que vocês estão fazendo aqui?”

Voluntários da Sea Shepherd: “A mesma coisa que vocês costumavam fazer antes de colocar aquele terno e gravata e ir lá dentro para se tornar um deles”

Que semana divertida e interessante tem sido esta, na ilha minúscula de Jersey, no Canal Inglês.

Eu nunca estive em Jersey antes e achei que fosse um local extremamente amigável, bonito e agradável da Grã-Bretanha. Abraçando a costa da França, esta ilha, famosa por vacas jersey e batatas, foi a única parte da Grã-Bretanha que recebeu a visita de oficiais nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Eu posso ver porque os capangas de Hitler escolheram esta ilha para ser um descanso e retiro recreativo das tribulações da Frente Oriental. Eles até construíram um pequeno hospital em uma caverna para o entretenimento dos futuros turistas. Esses defensores impiedosos do genocídio saíram daqui há mais de 65 anos, mas, esta semana, os defensores da matança brutal de outros altamente inteligentes e sensíveis terráqueos desceram nesta ilha adorável para pleitear a permissão de infligir crueldade e morte desnecessária sobre as delicadas e indefesas baleias do nosso mundo.

Japão, Noruega, Islândia, Dinamarca, e seu alegre bando de marionetes patéticas das colônias de bem-estar japonesas, como Togo, Mongólia, Mali, e Antigua, entre outros, incluindo a colônia japonesa de Palau (recentemente comprados após meu encontro com o Presidente em março).

O quarteto desejoso por sangue foi em busca de mais vítimas. Seus seguidores bajuladores estava procurando acomodações quatro estrelas, refeições especiais, garotas, conforto e, claro, recompensas em dinheiro por trair as baleias do mundo para seus ansiosos assassinos.

A Sea Shepherd chegou com o Brigitte Bardot, o ex-Gojira, que tornou a vida tão miserável para os baleeiros japoneses apenas alguns meses antes. E fomos agradavelmente surpreendidos ao ver tantos apoiadores da Sea Shepherd lá para nos receber. Na verdade, haviam mais apoiadores da Sea Shepherd do que todas as outras organizações em conjunto, e eles vieram por conta própria da Austrália, Nova Zelândia, França, Holanda, Alemanha, Bélgica, EUA, Canadá, Espanha, Itália e Japão, e também fomos agradavelmente surpreendidos ao descobrir que estava se formando um novo capítulo da Sea Shepherd em Jersey.

E assim, na segunda-feira, 11 de julho, todos nós fomos até o Hotel de France para visitar os delegados da Comissão Internacional da Baleia.

E todo mundo entrou, EXCETO qualquer um que usasse as cores da Sea Shepherd ou estivesse associado de alguma forma com a Sea Shepherd. Natalie Fox, da Mulheres Contra a Caça à Baleia, e Cooke Howie, da Surfistas pelos Cetáceos, tiveram seus passes arrancados. Implacável, Howie pegou sua guitarra e liderou a multidão lá fora com músicas e canções.

O único problema era que a multidão lá fora estava a uma grande distância da entrada do hotel, então todos decidiram ir até o local principal, e um guarda de segurança solitário nem sequer tentou os impedir. Também não havia um único policial à vista. Guardas de segurança assumiram suas posições nas portas do hotel e na sala de conferências, enquanto cerca de 60 pessoas, a maioria vestida de preto e branco, estavam reunidas em voz alta, mas de forma pacífica. O chefe da segurança chegou para informar a todos nós que estávamos cometendo uma transgressão.

“Obviamente você não é de Jersey, senhor”, eu disse. “Porque se você fosse, você saberia que Jersey não tem nenhuma lei de transgressão”.

Ele pareceu intrigado com isso, e depois disse: “Bem, com o interesse de manter a paz, gostaria de pedir a todos para sair”.

“Desculpe senhor”, respondi, “sair não é do nosso interesse ou das baleias. Estamos interessados ​​em manter a paz no Oceano Antártico. No entanto, se você chamar a polícia e eles nos pedirem para sair, sairemos”.

Levou 40 minutos até alguns policiais de Jersey chegarem e dizerem: “O chefe de segurança da CIB lhes pediu para sair.”

“Eu entendo isso, mas não temos a intenção de fazer o que o chefe de segurança da CIB nos diz. Ele não tem autoridade sobre nós, porque não somos oficialmente parte da CIB, mas se você pedir para sairmos, vamos fazê-lo”.

E eles fizeram o pedido oficialmente, então Howie lentamente começou a ir embora, dedilhando seu violão e levando a multidão de volta morro abaixo, onde a polícia havia criado um local de segurança permanente.

A delegação japonesa fez uma queixa oficial ao secretário da CIB, reclamando que o almoço havia sido interrompido pela manifestação.

E então as reuniões da organização de conservação do oceano mais corrupta e ineficaz do mundo começaram, com a postura usual e desvios, bobagens, e a duplicidade que tornou a CIB famosa.

Brevemente, haviam quatro propostas e temas de interesse para a Sea Shepherd. (1) A proposta britânica para acabar com os pagamentos em dinheiro dos países membros. (2) A proposta brasileira e argentina para estabelecer um Santuário de Baleias do Atlântico Sul. (3) O que vai ser feito sobre os baleeiros noruegueses e islandeses? (4) A proposta do Japão de censurar a Sea Shepherd por interferir nas suas operações baleeiras ilegais.

A proposta britânica passou e foi a única boa notícia de toda a reunião. Nada mais de subornos do Japão, para conseguir que algumas nações votem contra as baleias. Haverá ainda o suborno e a corrupção, é claro, mas espero que a falta de incentivos em dinheiro possam remover alguns dos bonecos japoneses mais entusiasmados, como Daven Joseph, o porta-voz histericamente divertido de Antígua e Barbuda, que sempre defende as ambições do Japão para matar mais baleias.

De acordo com Joseph, que chamou a Nova Zelândia, Austrália e Grã-Bretanha do “eixo de intolerância”, opositores da caça à baleia são “racistas imperialistas culturais dos países ricos tentando destruir as tradições dos países pobres”. Hmmmm, as nações pobres, como Japão, Noruega , e suponho que a Islândia! A proposta brasileira e argentina para criar um Santuário de Baleias do Atlântico Sul não deu em nada porque o Japão levou os países do Hemisfério Norte, como a Noruega e a Islândia, a saírem irritados da reunião, todos se recusando a sequer discutir a questão, e muito menos votar nela.

O que vai ser feito sobre os baleeiros noruegueses e islandeses? Praticamente a mesma coisa que tem sido feita pelas duas últimas décadas – absolutamente nada.

O único item da pauta que tomou a maior parte do tempo foi a proposta do Japão sobre “segurança no mar”. Este é o nome atualmente do “temos de destruir a proposta da Sea Shepherd”.

A Austrália rejeitou o pedido do Japão para negar à Sea Shepherd o acesso a portos da Austrália. Monica Medina, a comissária baleeira dos EUA, indicou que faria a Sea Shepherd ser punida, mas ela não disse como iria fazer isso, uma vez que é ilegal para os Estados Unidos a usar o imposto como um arma contra uma organização de caridade americana, a pedido de um governo estrangeiro.

É claro, as alegações do Japão não foram equilibradas com qualquer defesa da Sea Shepherd, porque a Sea Shepherd não está autorizada a assistir às reuniões ou mesmo entrar no hotel onde as reuniões aconteceram. Isto significa que, enquanto baleeiros japoneses intencionalmente bateram nas embarcações da Sea Shepherd cinco vezes, destruiram um navio anti-caça e quase mataram a tripulação, lançaram granadas, lanças e atiraram em nossa equipe, eles alegam que a nossa manteiga podre jogada contra eles foi uma ameaça à sua segurança.

A Sea Shepherd apreciou a postura da Austrália frente às alegações da delegação japonesa, de que a Sea Shepherd está colocando em risco a segurança dos seus chamados navios de pesquisa na Antártida. O delegado australiano respondeu que o Japão deveria parar de chamar os seus navios baleeiros de navios de “pesquisa”. A Nova Zelândia fez notar que a sua investigação sobre a destruição do trimarã concluiu que o Japão foi 50% negligente.

A notícia mais desanimadora da reunião foi os esforços contínuos pela delegação dos EUA para trabalhar no sentido de legalizar a caça às baleias. Eu disse a um dos delegados dos EUA que eu certamente não votarei de novo no presidente Obama nas eleições do próximo ano. Ele riu e disse: “Em quem você vai votar, Sarah Palin?”

“Não”, respondi. “Eu não vou votar em ninguém – votar só serve para incentivar os políticos a continuarem a trair suas promessas”.

O Presidente Obama é o primeiro presidente desde Ronald Reagan a ficar ao lado dos baleeiros japoneses ao invés de ficar ao lado dos conservacionistas e das baleias. Antes da última eleição, ele prometeu ser um forte defensor da moratória sobre a caça às baleias.

“Há um mal-estar considerável em toda a região, porque a delegação dos EUA, que é agressiva e disposta a negociar, vai tentar apresentar de novo uma iniciativa em Jersey que legitimaria a caça às baleias. É realmente lamentável, porque os EUA têm uma longa tradição de conservacionismo e defesa do uso não-letal (de baleias), e agora a delegação dos EUA é pró-caça”.

-José Truda Palazzo, ex-Comissário do Brasil para a CIB

Mas apesar da proposta atender a somente um lado, e, claramente, ser uma vendetta de vingança contra a Sea Shepherd pelo Japão, o requerimento para condenar a Sea Shepherd foi aprovado por unanimidade.

Não que estejamos excessivamente preocupados. Podemos lidar com esse tapa na cara em troca da vida das milhares de baleias que salvamos dos arpões japoneses. Sermos condenados pela CIB significa, bem – absolutamente nada! Nós realmente olhamos para isso como um desenvolvimento positivo.

O que esta proposta do Japão tem demonstrado é que a única coisa que já reduziu a caça baleeira e realmente salvou a vida de baleias é a intervenção da Sea Shepherd. O Japão tem oficialmente e publicamente admitido que a única coisa que está em seu camnho na matança de baleias no Santuário de Baleias do Oceano Antártico é a Sea Shepherd.

E, como resultado, temos a poderosa nação do Japão jurando que eles vão nos destruir. Temos as principais organizações ambientalistas como o Greenpeace nos condenando. Temos os Estados Unidos dizendo que vão nos punir. Temos a Islândia nos chamando de ecoterroristas e temos a CIB nos proibindo permanentemente de participar de suas reuniões.

Ignorado, vilipendiado, condenado, excluído, ridicularizado, criminoso, ignorante, violento, pirata, prostituta da mídia, renegado, vigilante, irritante, frustrante, insano e ridículo. Estes são alguns dos nomes e acusações lançados contra nós. Mas não me importo, porque o que conta para nós é o fato de que milhares de baleias estão vivas e livres, nadando, criando seus filhotes, se comunicando uns com os outros e curtindo a vida neste planeta maravilhoso, porque nós intervimos.

Temos coragem de provocar o Japão e o mundo, e com nossas tripulações armadas com paixão e coragem, através da nossa tática agressiva e não-violenta, conseguimos fazer o que todas as reuniões, petições, manifestações, e os esforços ao longo de décadas não conseguiram fazer. Temos baleias salvas… milhares de baleias, e nós temos feito isso sem ferir uma única pessoa.

Estamos muito orgulhosos desse recorde, e, realmente, como podemos levar a sério uma condenação de um organismo internacional que foi abertamente exposto como corrupto e ineficaz? A CIB deve ser tornada obsoleta, e deve ser dissolvida, porque há uma alternativa.

E a alternativa que tem sido formulada pelo Príncipe Albert, de Mônaco:

Em 20 de junho, o delegado da CIB de Mônaco, Frederic Briand, recorreu à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar para dar proteção permanente para todas as baleias e golfinhos em alto mar. Briand afirmou que “para a esmagadora maioria das populações de cetáceos falta arranjos coordenados para a sua salvaguarda e gestão global. Convocamos, portanto, a comunidade internacional a adotar uma política coletiva em conformidade com as disposições preventivas da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e outras leis internacionais relevantes, para garantir proteção total e permanente para os cetáceos em alto-mar. Espécies marinhas migratórias de cetáceos, todas as 76, são um componente importante do oceano mundial. Por definição, elas não pertencem a um lugar particular, e muito menos a um partido específico. Elas são o nosso património comum, investidos na tutela da comunidade das nações, para o benefício das gerações atuais e futuras. Na estrada para o Rio, sua conservação deve ser um esforço verdadeiramente internacional para que os esforços de conservação dos Estados costeiros não sejam prejudicados por falta de proteção para a mesma espécie e das populações na porção alto mar de seu alcance”.

A Sea Shepherd Conservation Society concorda com a proposta de Mônaco e condena veementemente a Comissão Internacional da Baleia por ser uma organização profundamente corrupta que não está apta, qualificada, nem adequada para regular os esforços de conservação e caça de baleias. A CIB deve ser dissolvida e toda a autoridade para regular a caça e os esforços de conservação de baleias, incluindo a dos pequenos cetáceos, deve ser colocada sob os auspícios de um grupo especial, designado pelas Nações Unidas.

Quando você pensa sobre isso, é surpreendente que o governo do Japão e da frota baleeira japonesa são tão intimidados pela nossa pequena organização não-governamental e sem fins lucrativos. Uma das nações mais poderosas do mundo está, literalmente, lamentando sua frustração, porque eles não podem impedir a Sea Shepherd de intervir contra suas operações baleeiras ilegais. É impressionante que a CIB se sente tão ameaçada pela Sea Shepherd, que não só temos sido proibidos de assistir as reuniões anuais, agora estamos proibidos de entrar em qualquer hotel onde as reuniões são realizadas, e qualquer um associado a nós ou visto conversando conosco também está proibido de participar das reuniões e entrar nos hotéis.

Como Peter Sellers no filme de 1959, O rato que rugia, a nossa pequena organização de voluntários apaixonados assumiram um poder muito superior, e conquistamos a atenção do mundo sobre a questão da caça às baleias, tornando-se uma das mais efetivas e influentes forças de conservação marinha do planeta.

Na reunião da CIB deste ano, o Japão anunciou que não vai ceder à Sea Shepherd, e apesar da falta de uma justificativa econômica e política, pretendem enviar a sua frota baleeira de volta para o oceano Antártico por nenhuma outra razão a não ser uma tentativa desesperada de não parecer estar se rendendo à pressão da Sea Shepherd Conservation Society.

Podemos esperar algumas táticas pesadas de nações cujos braços serão torcidos pelo Japão. Podemos esperar assédio, intimidação, ameaças e, possivelmente, ações judiciais. Talvez eles possam me envolver em um escândalo, como fizeram com Julian Assange. Quando se trata de truques sujos, os governos nunca podem ser subestimados. Mas nada vai deter a Sea Shepherd de retornar, para mais uma vez derrubar os arpões letais e barbaramente cruéis da frota baleeira japonesa.

Nosso objetivo continua focado – devemos afundar a frota baleeira japonesa economicamente. Devemos levá-los a terem uma dívida que nunca irão se recuperar. Devemos defender os indefesos de seus arpões terrivelmente cruéis e não devemos recuar, e não devemos nunca nos render, não importa o quão perigosos, não importa o quão aparentemente impossíveis sejam os obstáculos que eles joguem diante de nós.

Em comparação com o dinheiro e o poder, a influência e a força da nação do Japão, a Sea Shepherd é um rato, na verdade – mas não só um rato que pode rugir, mas um rato com os dentes apoiados pela imaginação, determinação, coragem, compaixão, e a paixão dos maiores voluntários no mundo – a minha equipe!

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.

Back to list