Editorial

Justiça medieval para os defensores dos golfinhos

Edwin Vermeulen

Edwin Vermeulen

Em 13 de julho de 1699, uma viúva inglesa chamada Felicity Comon foi acusada de feitiçaria por um vizinho. As autoridades inglesas a jogaram no rio Tamisa, para ver se ela iria nadar ou se afogar. Se ela nadasse, ela seria considerada culpada, e se ela se afogasse, ela seria considerada inocente. O raciocínio é que Deus iria rejeitá-la por causa de sua culpa, e impedir o seu afogamento. No entanto, os Tribunais ingleses foram mais do que justos, e atenderam o seu, que consistia em lançá-la no Rio Tamisa uma segunda vez no dia 19 de julho. Infelizmente para a viúva Comon, ela não se afogou, mas para que não houvesse qualquer dúvida eles a jogaram de costas para o rio e, novamente, a mulher teimosa foi rejeitada por Deus, e mais uma vez nadou para a margem, para os braços de seus captores. Ela foi levada de volta para a Torre de Londres e lá ficou até 27 de dezembro. Dois dias depois do Natal, ela foi enterrada viva, como uma bruxa condenada.

Em Taiji, esta semana, o cidadão holandês Erwin Vermeulen foi levado preso pela polícia da Prefeitura de Wakayama em Taiji. Eles o acusaram de agressão porque um funcionário do Hotel Dolphin Resort alegou que Erwin o  empurrou. Erwin nega essa acusação, e não há testemunhas para afirmarem a história do acusador.

Em contraste a isso, a Guardiã da Enseada, Rosie Kunneke, da África do Sul, foi recentemente agredida na frente de testemunhas por um pescador em Taiji. O homem foi apenas interrogado e liberado. Aparentemente, no Japão existem dois pesos e duas medidas em relação à lei, dependendo da sua raça e cidadania.

De acordo com a lei japonesa, Erwin pode ser detido por até 23 dias. Ele não tem permissão para receber visitas e não lhe foi dada a oportunidade ainda de falar com a Embaixada da Holanda.

No entanto, a polícia disse que eles vão liberá-lo dentro de dois dias, se ele simplesmente se declarar culpado.

Edwin Vermeulen

Edwin Vermeulen

No Japão, uma pessoa é culpada até que se prove inocente e a condenação pelos tribunais japoneses é de cerca de 98%, porque a maioria destas condenações são baseadas em confissões durante os 23 dias em que a pessoa é detida para interrogatório. Assim, as opções são ficar preso durante 23 dias antes de ter acesso a um advogado e depois, formalmente, ser acusado e aguardar um julgamento em que há uma chance de 98% de condenação, ou se declarar culpado. Portanto, a lógica é que é melhor pleitear a culpa e exibir remorso pelo “crime” ao invés de defender sua inocência.

Parece também que eles escolheram Erwin, um cidadão holandês, porque dois dos navios da Sea Shepherd são registrados na Holanda, e isso é um sinal para que os holandeses cumpram as exigências japonesas de interromper as atividades da Sea Shepherd contra a caça ilegal de baleias pelas operações japonesas na Antártida.

A situação de Erwin não é tão drástica como ter que se afogar para demonstrar inocência, mas o mesmo tipo de lógica autoritária prevalece. Em outras palavras, independentemente das provas ou falta de provas, e com base na acusação de uma pessoa, Erwin pode esperar por “justiça” só se ele se declarar culpado.

Isto, obviamente, vai dar aos japoneses a prova de estarem desesperadamente tentando provar que os Guardiões da Enseada são um grupo violento e criminoso.

Erwin se recusou a falar com a polícia porque lhe foi negado o devido processo legal. Como tal, ele ficará preso durante o período “legal” que ele pode ser detido sob a lei japonesa, sem acusações formais.

Em troca de sua compaixão para com os golfinhos e sua oposição não-violenta para o horror da matança de golfinhos em Taiji, a polícia japonesa decidiu que é hora de “ser medieval” com os Guardiões da Enseada.

Considerando a barbaridade cruel da matança dos golfinhos indefesos de Taiji, isso não é surpreendente.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil