Editorial

Carta aberta ao povo das Ilhas Faroé

Comentário do Capitão Paul Watson

O governo e a mídia faroeses têm alegado que são uma sociedade aberta e que o debate e o diálogo são valorizados e bem-vindos nas Ilhas Faroé. Nesse sentido, decidimos fazer uma apresentação pública em Torshavn, para explicar por quê a Sea Shepherd está defendendo as baleias.

Primeiro, abordamos a Nordic House, uma instituição cultural, onde nos disseram educadamente que não éramos bem-vindos para falar lá. Em seguida, fizemos uma reserva para uma sala de conferências no Hotel Torshavn. Com a reserva confirmada, anunciamos o evento para acontecer no sábado, 13 de agosto. Mas, no dia seguinte, o hotel cancelou a reserva, aconselhados por uma fonte que não nos revelaram qual era. A sala de cinema literalmente bateu a porta na nossa cara quando a mesma proposta de apresentação foi feita. Isso bastou para mostrar o diálogo aberto e bem-vindo nas Ilhas Faroé.

Nos disseram que outras pessoas já foram acolhidas para discutir o “grind” nas Faroé, porque eles eram abertos a compreender a cultura e as tradições dos faroeses, e que está por trás da continuidade do massacre das baleias. Nos disseram que não somos bem-vindos porque não comprometeríamos nossas convicções. Em outras palavras, tínhamos que compreender e aceitar o massacre para poder discuti-lo – e isso nós não faremos.

Nossa posição é a de que a cultura e a tradição nunca podem ser justificativa para a crueldade e o massacre. Quando o assunto é matança, chegamos ao nosso limite de comprometimento.

Já que não poderemos fazer uma apresentação em pessoa para os cidadãos locais, a única maneira que temos para explicar nossa posição ao povo das Ilhas Faroé é postando esta carta aberta no nosso site e nos fóruns das redes sociais, permitindo que os faroeses que quiserem compreender por quê a Sea Shepherd faz o que faz, tenham a oportunidade de ler sobre o assunto.

Para nós, os questionamentos e uma troca de visões aberta seria bem-vinda, mas essa oportunidade nos foi negada por circunstâncias além de nosso controle. Entretanto, se nos for dada a permissão para isso, ainda ancoraremos nosso navio em Torshavn no sábado, 13 de agosto, para convidar as pessoas à bordo para discutir com o capitão e a tripulação. No meio tempo, para qualquer um nas Ilhas Faroé que queira saber por que estamos aqui, a carta abaixo é a nossa explicação.

Por que defendemos as baleias
Pelo Capitão Paul Watson

Dizem que o mar é frio, mas o mar contém o sangue mais quente de todos; e o mais selvagem, o mais urgente. -D.H. Lawrence

Existe uma inteligência profunda nos nossos oceanos. Essa inteligência está corporificada no interior dos cérebros magnificamente evoluídos das nações cetáceas – os golfinhos e as baleias!

Cérebros de quatro lóbulos grandes e complexos, cérebros muito maiores, em comparação ao nosso pequeno cérebro humano de três lóbulos, com mais convoluções e maior área de neo córtex do que o nosso. Neurologicamente, os cérebros dos cetáceos apresentam muitas das funções associadas, em seres humanos, à cognição sofisticada. Tal como os chipanzés, golfinhos e baleias são, essencialmente, pessoas não humanas. É por isso que a minha convicção sincera é a de que matar uma baleia, matar um golfinho, matar uma baleia-piloto é o equivalente moral de assassinato!

São todos seres conscientes e socialmente complexos – como o confirmado por publicações científicas recentes, baleias cachalote e golfinhos têm demonstrado a capacidade de identificarem-se uns aos outros por nomes individuais.

Apelamos aos faroeses a invocarem a empatia pelas baleias e golfinhos do nosso planeta.

Por centenas de anos, temos visto essas espécies inteligentes valendo apenas pelo seu óleo, suas barbas e a carne que conseguimos retirar de seus corpos. Nunca paramos, nós, enquanto espécie, para pensar, sentir e compreender o que eles pensam e sentem, ou o que compreendem, enquanto causamos crueldade grosseira e violência brutal contra essa inteligência alienígena, mas extraordinariamente terrena.

Passei minha vida inteira lutando para defender e proteger baleias e golfinhos porque estou convencido de que precisamos aprender a viver em harmonia com eles, que existe muito o que aprender com eles e que estamos no limiar de descobertas extraordinárias da possibilidade real de comunicação com uma espécie não humana.

Gastamos bilhões de dólares pesquisando pelo universo por inteligência extraterrestre, quando existe uma inteligência aqui sobre o nosso planeta menos alienígena e tão fascinante quanto qualquer coisa que jamais encontremos em outro sistema solar ou galáxia.

Alguns têm argumentado que, se esses seres são tão inteligentes e se comunicam tão bem, então por que não evitam as Ilhas Faroé? A resposta a isso é a de que não podem fazê-lo quando grupos inteiros são exterminados até o último filhote. Sem nenhum sobrevivente, não há uma única baleia que sobre para comunicar a outros grupos os horrores que aguardam baleias-piloto nos fiordes e enseadas das Ilhas Faroé.

A outra razão é a nossa inabilidade humana de compreender inteligência não manipuladora. Nós igualamos inteligência à tecnologia. Enquanto os cetáceos não têm necessidade de tecnologia, eles têm a inteligência para viver em harmonia com o seu ambiente, enquanto a humanidade não parece ter sido abençoada de maneira parecida.

São espécies inteligentes que compartilham o DNA deste planeta conosco. São terráqueos como nós, embora, para ser mais preciso, vivemos todos sobre o planeta oceano, não o planeta terra. A vida começou nos nossos oceanos e a vida floresce no mar; e se não for assim, se os oceanos morrerem, a realidade é que nós morreremos com eles. Não podemos viver neste planeta com um oceano morto. É o centro da vida e a fonte de tudo que é necessário e requerido para a sobrevivência. Existem 80 espécies de cetáceos nos nossos oceanos e essas 80 espécies são a nossa ligação para a compreensão do relacionamento íntimo entre o oceano vivo e toda a vida.

Você já considerou a dor que as baleias têm de suportar durante o grind? A dor ardente e agonizante de uma faca cortando tecido macio, de ossos sendo quebrados, um coração enorme bombeando o sangue mais quente para o mar enquanto enche as cavidades dos pulmões, causando engasgo e sufocação, contorcendo em convulsões horríveis no raso, enquanto veem humanos impiedosamente porreteando e cortando, talhando e furando com facas afiadas, assistindo através de olhos anuviados enquanto sua vida se esvanece.

Você já considerou o trauma dessas criaturas extraordinariamente inteligentes e conscientes, enquanto suas famílias são esquartejadas à sua volta, enquanto mães buscam proteger seus filhotes, impotentes diante da atrocidade que as rodeia? Imagine o horror que a mãe sente enquanto seus filhotes são cruelmente esfaqueados e seus pequenos vocalizam seu sofrimento em frequências que nenhum humano pode ouvir, mas que são emocionalmente devastadoras para suas mães.

A dor física é horrenda e a dor emocional, incompreensível a qualquer um que não a tenha experimentado. Alguns dirão simplesmente que eles são apenas animais. Que não sentem nada. Não pensam, são somente corpos de carne sem uma mente.

Mas elas pensam, sim. Comunicam-se uns com os outros. Sentem, sim. Possuem empatia umas pelas outras – isso é evidente quando buscam proteger uma das suas que esteja ferida. Elas vivem o luto. Sentem dor. Sofrem. Estão vivas, saudáveis e bonitas; e nós as ferimos e matamos, suas entranhas viradas para fora, fetos arrancados das barrigas de suas mães, abrindo buracos de sangria nas suas carnes, o sangue manchando o mar, os gritos ecoando nos fiordes.

Não enxergar isso, não sentir isso é simplesmente negar… conveniente, ignorante, arrogante e tão, tão errado. É muito fácil negar isso e em nossa arrogância de hominídeos escolhemos ser propositalmente ignorantes em negar sua consciência.

Não se trata de matar uma vaca, uma ovelha ou um porco criados para consumo humano. Trata-se de algo similar a matar um gorila das montanhas, um chipanzé ou um orangotango. É, simplesmente, ética e moralmente errado.

E a humanidade como um todo concorda. A maioria dos povos do mundo têm uma afinidade com suas baleias e golfinhos. A maior parte do mundo sente o quanto são únicos e a maior parte do mundo valoriza as criaturas maravilhosas que são. A maior parte do mundo vê o “grind” com desgosto, do mesmo modo que veem o massacre de golfinhos no Japão.

Os faroeses exigem que a sua cultura seja respeitada, mas como pode qualquer povo civilizado respeitar uma tradição tão bárbara, e barbárie é exatamente o que isso é – uma afronta à decência, um insulto à humanidade e uma desgraça à civilização.

Qualquer um que tenha experimentado avistar ou tenha interagido com baleias na natureza, sabe e sente que elas são seres especiais. Intuitivamente, sabemos que elas são inteligentes e, intuitivamente, nos importamos por seu bem estar. As resgatamos quando encalham, soltamos quando se enrolam em nossas redes e nadamos alegremente e as observamos.

As vidas de pessoas têm sido modificadas ao avistar baleias e golfinhos. As vidas de pessoas têm sido salvas por golfinhos. O campeão mundial de surf livre, Dave Rastovich, deve sua vida a um golfinho que golpeou um grande tubarão-branco que estava prestes a golpeá-lo. Houve numerosos exemplos de golfinhos salvando vidas de seres humanos. Na Nova Zelândia, EUA, Brasil e, recentemente, na Escócia, quando baleias-piloto encalharam na praia, as pessoas se voluntariaram de muito distante para resgatá-las.

Mas não nas Ilhas Faroé. Aqui, vocês as matam. Por quê? Porque é a tradição! Porque é parte de sua cultura.

No ano passado, a Catalunha e o Equador baniram as touradas, que também são uma tradição. Regiões como a Catalunha e o Equador estão despertando para a realidade de que as tradições baseadas em crueldade e massacre não têm lugar no século 21.

A Islândia e a Noruega têm sido rejeitadas em seus pedidos para se juntarem à União Europeia porque são nações baleeiras, enquanto as Ilhas Faroé, um protetorado da Dinamarca, pode se beneficiar de subsídios da União Europeia sem ter que seguir as normas da União Europeia. A Europa deixou claro que o massacre de baleias não é consistente com os ideais de civilização europeia. Esses subsídios deveriam ser negados, ou isso se traduz em discriminação contra a Noruega e a Islândia. A Dinamarca precisa ser pressionada pela União Europeia a retirar subsídios, até que as Ilhas Faroé passem a seguir as normas que protegem baleias e se oponham à crueldade, do mesmo modo que todos os europeus precisam respeitar.

Algumas pessoas podem argumentar que existem bastante baleias-piloto, embora ninguém realmente saiba quantas ainda existem.
A União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN) afirma que carecem dados sobre a espécie. Em outras palavras, ninguém sabe exatamente quantas baleias-piloto de nadadeiras longas existem em nossos oceanos. A IUCN estima que existam, aproximadamente, 200.000 baleias-piloto de nadadeiras curtas nos nossos oceanos e os números das baleias-piloto de nadadeiras longas é muito menor.

Do mesmo modo, a população de todo o mundo de baleias-piloto de nadadeiras longas não é maior do que quatro vezes a população das Ilhas Faroé, de 47.000 habitantes. Mas não se trata de números. Trata-se de moralidade. Trata-se de massacre sem remorso de seres conscientes inteligentes e sensíveis. Trata-se de assassinato.

Alguns argumentarão que a categoria de assassinato somente se aplica à morte de seres humanos. Discordo. Por exemplo, se uma forma de vida alienígena extraterrestre matasse um humano, seria assassinato? A maioria de nós concordaria que seria, de fato, assassinato. É bem provável que qualquer forma de vida extraterrestre com a capacidade tecnológica de nos visitar veria a si mesma como superior e veria humanos como nada mais do que proteína disponível.

Há aqueles que argumentam que as Ilhas Faroé precisam parar de matar baleias por causa do mercúrio que há nos seus corpos e que tem um efeito não saudável quando esse mercúrio passa para os seres humanos. Poucos se perguntam o que o mercúrio está causando para as chances de sobrevivência das próprias baleias-piloto. O mercúrio ameaça sua sobrevivência tal como as causalidades infligidas pelo grind.

Alguns faroeses dizem que são as nações industriais, como a Grã-Bretanha e a França, que se devem culpar pelo mercúrio, mas escolhem ignorar que eles mesmos compram os produtos dessas nações industriais e, assim, partilham a responsabilidade pelos altos índices de mercúrio e outros metais pesados poluentes do mar.

A realidade é a de que nossos oceanos estão morrendo de sobrepesca, poluentes, acidificação, mudança climática e perturbação ecológica causados pela destruição do habitat e pelo desequilíbrio no relacionamento entre as espécies. Esse desequilíbrio está ameaçando o nosso suprimento de oxigênio e, assim, até mesmo nossa própria sobrevivência.

O fito plâncton produz a maior parte do oxigênio do mundo. O zoo plâncton se alimenta do fito plâncton. As baleias e peixes se alimentam de zoo plâncton. O percentual das populações de vida marinha que os humanos não sobrepescaram também é desproporcionalmente pequeno. Isso é altamente perturbador para a cadeia alimentar. Tubarões têm sobrevivido aos maiores eventos de grande extinção no planeta, mas sua grande capacidade de sobrevivência enquanto espécie não é páreo para os excessos da humanidade; sua diminuição atual é alarmante. Também está havendo uma diminuição de 40% do fito plâncton em todo o mundo desde 1950 (Scientific American). Acredita-se que o aumento da acidificação do oceano contribua para esse declínio do fito plâncton.

Os oceanos estão em perigo e, assim também, a humanidade está em perigo, por que se os oceanos morrerem – nós morreremos.

Por fim, para mim, defendo as baleias porque uma baleia morrendo uma vez poupou minha vida e, desde esse dia, em junho de 1975, tenho dedicado meu corpo, coração e alma a defender baleias e outras espécies dos nossos oceanos. Faço o que faço por elas e por causa de uma profunda empatia intuitiva que tenho com essas mentes extraordinárias das águas.

Empatia é a compreensão dos sentimentos e pensamentos de outro e é sentir como sente o outro; e é porque eu sinto o que sinto que reajo como eles reagiriam se tivessem os meios de fazê-lo; e porque sou humano, tenho os meios de reagir para defendê-los e assim o faço. Empatia é a experiência de uma consciência exterior e a capacidade de ver o que o outro vê, sentir o que o outro sente e sofrer o que o outro sofre.

Assim, quando a faca penetra o corpo da baleia, eu também a sinto e posso me identificar com o horror da experiência. Sei que não é fácil convencer outros humanos a compreender o que eu sinto e o que tenho vivenciado, mas é real e é profundo em seu efeito sobre o que eu tenho feito e continuarei a fazer até o fim da minha vida. Vi uma realidade diferente e separada no olho de uma baleia cachalote e é a realidade de um relance de olhar para dentro da alma de outro ser estranho, mas consciente que moldou tudo o que tenho feito por quase quatro décadas.

O mundo precisa saber o que está acontecendo nas Ilhas Faroé e, tal como trouxemos os horrores do massacre de golfinhos de Taiji para a atenção do mundo com o filme ganhador do Oscar, A Enseada (The Cove), precisamos, agora, girar o tambor da arma mais poderosa já inventada para as Ilhas Faroé – a câmera!

Não há lugar para esse tipo de tradição bárbara no mundo do século 21, num mundo onde espécies em extinção aumentam em escalada, onde os oceanos estão morrendo e onde o número de seres humanos, por si só, comprometem a integridade ecológica do planeta inteiro.

Os faroeses dizem que nós não respeitamos a sua cultura e estão certos – não respeitamos. Os faroeses dizem que não respeitamos suas tradições e estão certos – não respeitamos. Respeitamos a vida e respeitamos o fato de que em nossos oceanos há uma inteligência e uma mente com a qual, um dia, poderemos nos comunicar utilizando os poderes de nossa própria imaginação e inteligência combinados com a empatia para alcançar o que muitos podem considerar uma impossibilidade – a comunicação entre espécies.

Algum dia talvez possamos ser capazes de fazer exatamente isso, a não ser que o lado mais obscuro da humanidade consiga exterminar essa inteligência, negando essa maravilhosa oportunidade à humanidade para sempre.

Enquanto isso, a Sea Shepherd Conservation Society continuará sua longa odisseia de oposição ao grind nas Ilhas Faroé. Temos feito isso desde 1983. Nunca esperamos resultados rápidos. Levou quatro décadas para solapar o mercado comercial canadense de produtos de foca e levou sete anos para fazer com que os baleeiros japoneses saíssem do Santuário de Baleias do Oceano Antártico. Reconhecemos que essas lutas sociais levam décadas, mas também reconhecemos que é imperativo continuar a nos opor ao massacre das baleias por todo o mundo por qualquer um, em qualquer lugar, por qualquer motivo e continuaremos a fazê-lo.

Com a nossa presença atual nas Ilhas Faroé, descobrimos muitas pessoas locais que se opõe ao massacre das baleias, enquanto são confrontados por outros que o apoiam violentamente. Entretanto, tenho esperança de que aqueles que se opõe irão, por fim, vencer aqueles que endossam o massacre.

Em 1977, batalhamos com baleeiros australianos em suas estações de baleismo, que foram fechadas na sequência, em 1978. Hoje, a Austrália é a nação que defende mais apaixonadamente as baleias no mundo. Acreditamos que os japoneses, os noruegueses, os islandeses e os faroeses podem, do mesmo modo, tornar-se tão apaixonados em defender as baleias quanto os seus ancestrais o foram para massacrá-las.

Testemunhamos essa evolução de consciência na Austrália e acredito que também testemunharemos isso nas Faroé, essas lindas ilhas do norte, ideais em todos aspectos exceto por esse lado horrível – o sacrifício de sangue do grind.

Precisa ser terminado. Será terminado. A única questão é quando.

Nossa tarefa, agora, é fazer o resto do mundo ver o grind pelo que é – uma obsenidade e uma desgraça sobre o legado da humanidade. E esperamos que mais e mais faroeses vejam isso como o resto do mundo vê, e a compaixão triunfe sobre a crueldade.

Temos a arma mais perfeita para a tarefa – a câmera – e temos a intenção de utilizá-la.

Traduzido por Carlinhos Puig, voluntário do ISSB.

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