Editorial

As consequências de uma intervenção bem sucedida

Pelo Capitão Paul Watson

Foto: Leonard Kötters / Sea Shepherd

É bom ser procurado, eu suponho, e agora não é apenas a Costa Rica que quer me levar para o seu país pelo “crime” de salvar os tubarões. Na sexta-feira, o Japão pediu oficialmente a minha prisão pelo “crime” de salvar baleias.

Aparentemente o alerta “vermelho” foi enviado para 190 países a fim de estarem atentos a mim. Isso é incrível. Eu nunca feri uma única pessoa. Eu não danifiquei nenhuma propriedade. Eu não cometi um ato de terrorismo. Eu não roubei dinheiro, nem agredi sexualmente qualquer pessoa.

Os japoneses estão desesperadamente perturbados porque nós os impedimos de matar baleias. Quanto à Costa Rica, bem, a Costa Rica não está nem aí para os nossos esforços na conservação dos tubarões: ela está simplesmente agindo como bajuladora do Japão. Na verdade, considerando o dinheiro que recebeu desse país, acho que seria melhor dizer que a Costa Rica está se prostituindo em relação a essa situação.

O Japão está ficando cada vez mais desesperado. Além de recrutar a Costa Rica para me colocar na lista “vermelha” da Interpol por acusações falsas decorrentes das nossas intervenções contra as operações ilegais de finning, lá em 2002, agora ele oficialmente apresentou um ultimato contra mim com base nos incidentes de 2010, no Oceano Antártico.

Em 2010, o navio japonês Shonan Maru 2 deliberadamente abalroou e destruiu o navio Ady Gil, avaliado em 1,5 milhão de dólares. Um tripulante ficou ferido e outros seis quase morreram. Embora a autoridade de segurança marítima da Nova Zelândia tenha determinado que a embarcação japonesa teve metade da culpa pela destruição da outra embarcação, eles se recusaram a cooperar com a investigação, ninguém foi acusado, e o Japão não pagou por quaisquer danos.

Em resposta ao abalroamento do Ady Gil, o capitão desse navio embarcou no Shonan Maru 2 para exigir que o capitão japonês assumisse a responsabilidade pela destruição.

Isso tudo foi documentado no programa Whale Wars – Defensores de Baleias do canal Animal Planet. Também foi documentado o meu conselho para o capitão a fim de que não embarcasse no Shonan Maru 2, mas essa pessoa disse que sentia ser necessário subir a bordo e que assumiria a responsabilidade completa pelo embarque. Usando seu próprio jet ski e sua própria equipe para levá-lo ao Shonan Maru 2, ele embarcou no navio. Ele foi detido, levado de volta para o Japão e acusado de invasão e outros delitos que variaram desde interferência no comércio até agressão e destruição de propriedade.

Esse homem nunca agiu sob as minhas ordens, em qualquer momento, durante a campanha de 2010. O Ady Gil não era propriedade da Sea Shepherd, mas, sim, de uma pessoa, o próprio Ady Gil, o qual nomeou o seu capitão que respondia apenas a ele.

Eu errei ao permitir que ele trabalhasse com a gente, mas naquele momento nós precisávamos de um navio de patrulha rápido. Infelizmente, o capitão do Ady Gil tinha outras ideias, decidiu desafiar os baleeiros japoneses ilegais e, como consequência, perdeu seu barco. Ele foi mantido na cadeia por quase quatro meses antes de ter sua pena suspensa e voltar para a Nova Zelândia.

Ele teve essa suspensão porque barganhou um acordo, e esse acordo era assinar uma declaração acusando-me de pedir-lhe para embarcar no Shonan Maru 2. O governo japonês nunca o quis. Eles me queriam e eu fui entregue com um testemunho falso. O capitão do Ady Gil sabia muito bem que eu o aconselhei a não embarcar no Shonan Maru 2. Toda a tripulação presente naquele momento ouviu-o dizer que ele queria fazê-lo e que assumiria a total responsabilidade por suas ações, mesmo que isso significasse ser preso.

As acusações do Japão contra mim e a razão pela qual emitiu um alerta “vermelho” são baseadas inteiramente nas declarações dadas pelo capitão do Ady Gil. Seu testemunho é a única prova contra mim. Esse foi o acordo feito entre ele e as autoridades japonesas, e em troca de sua liberdade, ele me entregou.

Inicialmente, em 2010, a Interpol negou o pedido desse alerta pelo Japão. Em janeiro de 2012 ela também indeferiu o pedido inicial da Costa Rica. Em maio, quando fui detido pela Alemanha a pedido da Costa Rica e sem o alerta “vermelho”, foi-me dito que a Alemanha não precisava considerar a negação do pedido por aquela entidade internacional.

Como deixei a Alemanha um dia antes de ser novamente detido pela polícia local e entregue para o Japão, ou para a Costa Rica e depois para o Japão, esses dois países pediram mais uma vez que eu fosse colocado na lista “vermelha”. Dessa vez, embora a prova não tivesse mudado, o pedido foi concedido.

O que isso significa é que eu não sou realmente um fugitivo no momento. O alerta “vermelho” significa que quando eu entro num país, o Japão e a Costa Rica são avisados e podem, então, solicitar um mandado de prisão provisória com o qual a nação em que me encontro pode me deter e me extraditar para aqueles países. Essa nação não precisa nem olhar para as provas ou para a falta delas. Ela precisa apenas me entregar à mercê das autoridades estrangeiras que solicitaram minha prisão.

Quanto à Alemanha, não é ilegal ignorar uma fiança. Eu sou procurado nesse país somente pelo mandado de prisão provisória da Costa Rica e do Japão, mas, uma vez que deixei o território alemão, esse mandado contra mim já não é mais válido.

Não há dúvida de que isso tudo foi causado pelas nossas intervenções bem sucedidas contra as atividades baleeiras ilegais do Japão no Oceano Antártico, local onde esses baleeiros gastaram dezenas de milhões de dólares e foram severamente humilhados por nós.

Foto: Barbara Veiga/Sea Shepherd

Abaixo está uma entrevista que cedi a um dos membros da tripulação da Sea Shepherd com base em perguntas recebidas da mídia e do público.

Pergunta: Se você acredita que não fez nada de errado e que as provas irão te isentar da culpa, então por que não permitir que a Costa Rica e/ou o Japão levem-no ao tribunal?

Capitão Paul Watson: A resposta para isso é simples. Nós não temos tempo. Temos uma grande campanha prevista para dezembro, e o objetivo dessa campanha é parar a matança de baleias pela frota japonesa. Essa deve ser a minha prioridade. Se eu permitir ser levado para a Costa Rica ou para o Japão, vou ser preso por meses, talvez anos, e com respeito ao Japão, possivelmente para sempre. Eu acredito que salvar a vida de milhares de baleias deve ter prioridade em relação a joguinhos judiciais. Você não ganha uma batalha jogando conforme as regras da oposição.

Pergunta: Alguns de seus críticos estão dizendo que você está com medo de enfrentar as acusações.

Capitão Paul Watson: Meus críticos dizem muitas coisas que não têm importância para mim. Recusar-me a jogar o seu jogo, com suas condições, não é ter medo, é ser prático. Quando tentamos fazer com que o capitão japonês fosse questionado pela destruição do Ady Gil, ele se recusou a cooperar, e ainda assim os japoneses esperam que eu coopere com eles. Vejamos: eles destruíram um navio de 1,5 milhão de dólares, verdadeiramente feriram um cinegrafista do canal Animal Planet e quase mataram todos a bordo. Eles se recusam a cooperar e o caso está encerrado. Eu que, por outro lado, não feri ninguém e não destruí nenhum de seus navios, quando me recuso a cooperar, sou acusado de ser um covarde. Realmente é tudo muito besta. Com o tempo, eu posso ter que enfrentar essas acusações falsas voluntariamente ou se eles me levarem preso, e quando eu for forçado a apresentar minha defesa, eu vou fazê-lo. Francamente, a minha prioridade agora é organizar e dirigir a defesa das baleias do Santuário de Baleias do Oceano Antártico.

Pergunta: Você está desgostoso com a Alemanha por tê-lo detido em maio e, em seguida, ter tomado a decisão de extraditá-lo?

Capitão Paul Watson: Não com o povo alemão. Eles me deram e dão, geralmente, muito apoio. O governo alemão, como a maioria dos governos, não se preocupa com a liberdade individual ou até mesmo com a justiça. Sua preocupação é a de manter os seus parceiros comerciais felizes, e se o Japão ou a Costa Rica me querem, esse governo ficará muito feliz em me entregar. Eles não se preocuparam nem em examinar os fatos. Eles simplesmente esperaram a chegada dos documentos de extradição. Sua decisão já estava tomada.

Pergunta: O ministro das Relações Exteriores da Costa Rica disse que não há provas de que o navio de pesca costa-riquenho que você parou nas águas da Guatemala estava praticando o finning.

Capitão Paul Watson: Rob Stewart fez o documentário Sharkwater, e as filmagens de retirada das barbatanas de tubarão foram feitas durante um período de duas horas a partir do convés do navio da Sea Shepherd, o Ocean Warrior, em direção ao Varadero I. Está tudo no filme. Além disso, o Varadero I foi detido nas Galápagos em 2001, um ano antes do incidente com a Sea Shepherd, pelas práticas ilegais de pesca e remoção das barbatanas dos tubarões. O navio foi multado com o valor máximo antes de ser liberado. Então o que temos é um navio que foi anteriormente condenado por finning e também foi documentado em filme no processo de finning, mas, mesmo assim, o ministro das Relações Exteriores faz uma afirmação ridícula de que não há provas de que o navio era usado para essa prática.

Pergunta: Por que você foi cobrado dez anos depois sobre o incidente com o Varadero I?

Capitão Paul Watson: Na verdade, eu fui acusado em maio de 2002, e fomos ao tribunal em Puntarenas, Costa Rica, naquele mês. Apresentamos as declarações das testemunhas e mostramos a documentação filmada do incidente. As acusações foram rejeitadas e me deram autorização para sair do país, o que eu fiz, e não ouvi mais nada sobre esse incidente até maio de 2012, quando fui detido na Alemanha a pedido da Costa Rica. Esse país nunca entrou em contato comigo durante esses dez anos para me dizer que estavam retomando as acusações.

Pergunta: A Costa Rica é considerada uma nação com boa consciência ambiental. Por que eles fariam isso?

Capitão Paul Watson: Eles têm a aparência de ser uma nação preocupada com o meio ambiente, mas na prática eles têm um histórico muito ruim. A Costa Rica é um dos piores países da América Central quando se trata de pesca e finning ilegais, e eles são o canal de venda dessas barbatanas de tubarão nicaraguenses para a China. O Parque Nacional das Ilhas Cocos constatou um sério declínio na diversidade de peixes ao longo das duas últimas décadas, e as atividades de pesca ilegais simplesmente não são enfrentadas. Os guardas-florestais das Ilhas Cocos não recebem os barcos e equipamentos de que precisam, e muito pouco é feito nas águas costeiras da Costa Rica para proteger espécies marinhas e habitats. Esse país veio atrás de mim simplesmente porque fez um acordo com o Japão.

Pergunta: O que você está fazendo em relação a essas acusações?

Capitão Paul Watson: Temos advogados trabalhando na Alemanha, na França, na Costa Rica, no Japão e nos EUA. Enquanto isso, essa não é a minha prioridade. Minha prioridade é voltar para os meus navios a fim de, mais uma vez, lutarmos contra as atividades baleeiras japonesas ilegais no Oceano Antártico. Envolver-me em uma defesa legal num tribunal nesse momento iria me impedir de estar onde eu preciso estar e onde o Japão não quer que eu esteja, isso é, confrontando-os no início de dezembro no Oceano Antártico.

As acusações japonesas são ridículas. Elas são baseadas apenas em afirmações falsas de um homem que tenta salvar o seu próprio rabo. As acusações da Costa Rica foram jogadas fora há uma década porque não havia um caso. Tudo o que fazemos é documentado para o cinema e para a televisão.

Pergunta: É difícil manter em segredo a sua localização e não ter o seu passaporte?

Capitão Paul Watson: Eu não diria que é difícil. É inconveniente, mas eu não estou fazendo o que faço porque é fácil. Eu estou fazendo isso porque é necessário. Eu passei a minha vida inteira no mar e em confrontos com atividades ilegais que diminuem a diversidade nos nossos oceanos. Temos inimigos ricos e poderosos, então eu não estou surpreso com essa oposição terrível. Após a apresentação de um recurso em nosso favor contra a decisão do tribunal britânico no caso em que cortamos redes de pesca de atum ilegais, o advogado da empresa maltesa Fish and Fish disse: “nós vamos pegá-lo, é simplesmente uma questão de investir mais dinheiro nisso”. Talvez eles me peguem, mas eu não posso me preocupar com isso, pois se eu me importasse com coisas assim, poderia também não ter tentado salvar nada em nossos oceanos.

Em que tipo de ambiente nós fazemos o nosso melhor? Em um ambiente confortável, onde tudo é seguro e conveniente, grandes coisas não são alcançadas. É dentro de um ambiente de polêmicas, desafios e incertezas que grandes coisas podem ser realizadas.

Pergunta: Em fóruns de redes sociais, parece que metade dos comentários e blogs te apoia e a outra metade te condena. O que você acha dessas postagens, desses comentários e blogs?

Capitão Paul Watson: Eu não penso muito sobre eles porque muito raramente eu chego a vê-los ou lê-los. Eu espero ataques de caráter perverso. Afinal, o mundo não estaria na situação em que está agora se não fosse pela mentalidade antinatureza e antiativista de metade da população. Parece que uma metade da sociedade está acordada e a outra metade acredita em anjos, roupas íntimas mágicas e Wal-Mart. Na verdade, eu ficaria muito desapontado se não recebesse insultos maldosos, ameaças de morte e postagens ignorantes. Isso me faz perceber que, se eu estou irritando tanta gente num mundo onde tantos estão destruindo a natureza, então eu devo estar fazendo a coisa certa. Ao mesmo tempo, estou recebendo o apoio e o aval de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Pergunta: Você vai liderar a próxima campanha da Sea Shepherd no Oceano Antártico para defender as baleias dos japoneses?

Capitão Paul Watson: Eu pretendo liderar a Operação Tolerância Zero e estou trabalhando nas vias para fazer isso, mas se eu não conseguir, a campanha vai continuar sob a direção dos meus capitães, oficiais e tripulantes, e pretendemos mais uma vez custar aos japoneses o valor dos seus lucros ilegais.

Pergunta: Algumas pessoas pensam que você é um fugitivo. Isso tem afetado sua base de apoio?

Capitão Paul Watson: Eu não vi nenhum sinal de que isso tenha nos afetado negativamente. O nosso apoio tem crescido. Eu não sou um fugitivo da justiça, e na verdade não é ilegal alguém me ajudar porque tudo o que foi determinado é apenas um alerta “vermelho” da Interpol. Até agora não há mandados de prisão provisória emitidos pelo Japão ou pela Costa Rica fora desses países. Além disso, todas as pessoas que eu admiro, de Henry David Thoreau a Gandhi e Nelson Mandela, viram o interior de uma cela na prisão. Em 1972 Nelson Mandela estava numa prisão na África do Sul e era considerado um terrorista. Hoje ele é um dos líderes mais respeitados e amados do mundo.

Pergunta: Você tem medo das conseqüências caso seja capturado?

Capitão Paul Watson: Por toda a minha vida eu tive medo de apenas uma coisa, de não fazer nada. Eu nunca fui capaz de entender a ideia de aceitar as coisas como elas são. Nós, seres humanos, estamos matando nossos oceanos, diminuindo a biodiversidade, superaquecendo o planeta, derramando venenos no mar e no ar. Eu não posso aceitar isso docilmente e sei, com certeza absoluta, que se matarmos os oceanos, nós nos mataremos. Se os oceanos morrerem, nós morreremos, e os oceanos estão morrendo agora. Meu maior medo é que as pessoas simplesmente aceitem esse fato.

Pergunta: A mídia divulgou os fatos sobre essa situação fielmente?

Capitão Paul Watson: Os meios de comunicação responsáveis têm exemplares como o Der Spiegel na Alemanha, o The Globe and Mail no Canadá, o The Guardian na Inglaterra, entre outros, mas no geral não se pode mais esperar que a mídia relate factualmente. Nessa última semana, uma das maiores histórias foi a controvérsia sobre as fotos de Kate Middleton fazendo topless. Nenhuma pergunta foi feita aos candidatos à presidência americana sobre as mudanças climáticas, a morte dos oceanos, a extinção de espécies ou qualquer outro assunto ecológico. É como se a sua casa estivesse em chamas e os bombeiros ainda estivessem no batalhão discutindo sobre futebol e a mídia informasse que a sua vizinha está tomando sol nua.

Pergunta: Onde você está agora?

Capitão Paul Watson: Nesse momento eu sou um homem livre no Planeta Terra, o lugar onde eu sempre estive e sempre estarei.

Traduzido por Maiza Garcia, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil

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