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Entrevista: Bárbara Veiga – Uma brasileira à bordo

A fotojornalista carioca, Bárbara Veiga, teve a oportunidade de embarcar em quatro missões da Sea Shepherd Conservation Society (SSCS). Participou ativamente nas campanhas Waltzing Matilda, de proteção às baleias na Antártida, e em seguida na Blue Fin Tuna, campanha em proteção ao atum realizada no mar mediterrâneo. Também participou da Operação Sem Conciliação, a segunda campanha baleeira na Antártida e por último na campanha Ilhas Ferozes, impedindo o massacre das baleias-piloto nas Ilhas Feroes. Trabalhou disfarçada, em investigações cruciais para os objetivos da Sea Shepherd, conviveu diretamente com o Capitão Paul Watson e foi fotógrafa-chefe em três missões da Sea Shepherd Conservation Society. Além de ser apaixonada pela natureza, Bárbara realizou projetos em países do Oriente Médio, África e Ásia, retratando a delicada problemática da pobreza extrema em regiões inóspitas e o cotidiano das mulheres e famílias nestas condições. Conheça um pouco mais desta “Shepherd”, na entrevista abaixo.

Bárbara Veiga

1. Como começou sua paixão pela fotografia e pelo trabalho voltado para o meio ambiente?
A paixão pela arte esteve presente na minha vida em diversas formas e eu sempre gostei de me expressar usando maneiras distintas, aquela em que eu me sentisse mais confortável para alcançar uma linguagem que me fosse mais próxima do que eu queria chegar. Entendo a fotografia como saber pintar, escolhendo sua luz, seu momento, sua técnica. Um trabalho muito pessoal, aonde não existe uma fórmula concreta, o certo ou errado. Gosto da particularidade na escolha do local, da condição, do ângulo, do filme ou digital. Tenho liberdade para criar fotografando, assim como em certas ocasiões, escrevendo. O trabalho voltado para o meio ambiente nasceu pela sintonia que sinto ao estar em harmonia com a natureza. Gosto de passar horas de frente ao mar meditando, desfrutando da tranquilidade e dos sons dos animais ou de uma floresta. Ao saber que esses sons estavam desaparecendo, e que os mares estavam ficando doentes e escassos, me fez tomar uma postura diferente, juntei minha paixão pela arte com a necessidade de fazer a diferença, em um mundo que precisa de ajuda imediata.

2. A escolha pelo fotojornalismo aconteceu na faculdade ou, já era algo que despertava seu interesse antes do período acadêmico?
Sempre acreditei na importância da difusão da informação para gerar discussões inteligentes e mudanças para um futuro melhor. Busquei o jornalismo, procurando seguir esses valores da melhor maneira possível. Ficou fácil uni-los com a linguagem fotográfica, uma vez que foi um interesse que surgiu há muito tempo, desde a época escolar.

3. Como você chegou até a Sea Shepherd? Como ocorreu o convite para embarcar?
O interesse de chegar a Sea Shepherd, veio depois de ter tido quatro anos de experiência com o Greenpeace. Eu queria trabalhar diretamente com o cofundador da ONG Greenpeace e fundador da Sea Shepherd. Eu enviei meu currículo pela internet, fiz minha inscrição online. Depois tive longa entrevista, por telefone, e finalmente fui aceita. Só que em seguida tive de correr atrás de um visto na França (país onde morava), o navio saía de Brisbane, na Austrália, dentro de uma semana e, somente em Cingapura eu consegui meu visto.

Embarcação Steve Irwin

4. Em quais operações da Sea Shepherd você participou? Qual foi a mais marcante para você? Por quais motivos?
Trabalhei na Operação Waltzing Matilda (minha primeira campanha em proteção às baleias na Antártida), em seguida na Blue Fin Tuna (campanha em proteção ao atum realizada no mar mediterrâneo), No Compromise (a segunda campanha baleeira na Antártida) e por último a Ferocious Isles (impedindo o massacre das baleias-piloto nas Ilhas Feroes), onde trabalhei disfarçada investigando esta matança de baleias. Nas três primeiras campanhas eu trabalhei como fotógrafa-chefe, porém na última, além de filmar e fotografar, também estive diante das lentes, ao interagir com os baleeiros no uso de uma câmera escondida. Cada campanha teve seu valor e emoção, até porque acompanhei de perto as batalhas diárias nas estratégias do Capitão Paul Watson. Fica difícil apontar uma como mais marcante, sendo que todas foram especiais por diferentes razões.

5. Como era o ambiente dentro das embarcações, os relacionamentos pessoais eram tranquilos? As diferentes nacionalidades e diferenças culturais se acentuavam em um ambiente limitado fisicamente?
Acredito que diferenças culturais não trazem motivos para conflitos, porém dificuldades na convivência em um navio podem ser delicadas devido ao espaço limitado, uma vez que cada um tem sua personalidade e seus hábitos. Nunca presenciei nestas campanhas sérios conflitos, por isso considero, de forma geral, o ambiente a bordo dos navios saudável, até porque grande parte da tripulação é extremamente comprometida e dedicada às missões.

6. Como era a rotina dentro das embarcações? E a sua rotina?
As atividades dentro de um navio são constantes. Nas campanhas da Antártida, por exemplo, são raras as paradas para ancorar. O objetivo maior é encontrar a frota baleeira o mais rápido possível para impedir suas atividades. Na ponte de comando e na sala de máquinas, existem profissionais fazendo a guarda, para observar e garantir o bom andamento da navegação, em sua rota, porém, para o restante da tripulação a hora de trabalho era das 8 horas às 17 horas. Eu não tinha uma rotina com meus horários. Quando não estava documentando as atividades à bordo (que aconteciam 24h) e as preparações das ações (de acordo com as estratégias do Paul Watson, poderia variar tanto às 6hs da manhã, como às 3hs da manhã), estava editando meu material no escritório.

Sea Shepherds em ação

7. Como era seu contato profissional (ou operacional) com o Capitão Paul Watson? Ele era uma pessoa acessível?
Trabalhei durante dois anos diretamente com o Paul Watson. Sendo o meu trabalho diretamente envolvido com a mídia, estávamos sempre discutindo sobre o material fotográfico necessário para divulgação das ações na mídia internacional ou nos artigos do capitão.

8. Como é seu contato pessoal com o Capitão? Você poderia descrever sua personalidade? Tem alguma singularidade que você gostaria de destacar?
O Paul Watson é um homem extremamente dedicado e inteligente. Além de saber exatamente quando e como agir em situações, às vezes críticas, jamais colocou sua tripulação em risco ou organizou uma operação onde não soubesse o que estava fazendo. Considero suas decisões precisas e eficazes. Admiro sua determinação, foco e também seu bom humor ao citar suas poesias, cantarolar músicas de origem celta ou na delicadeza ao preparar um certificado de “Swim with penguins” (nadando com pinguins), para aqueles que se lançam ao mar ao chegar no território austral num salto nas gélidas águas. Então além da sua seriedade nas missões, restava espaço para o bom humor. Tínhamos uma convivência saudável à bordo do navio.

Capitão Paul Watson

9. Durante suas viagens, trabalho e lazer, você percebe um reconhecimento da Sea Shepherd pela sociedade em geral?
Vejo que a ONG já possui grande visibilidade nos Estados Unidos e Austrália, por conta do programa Whale Wars, que colabora imensamente na difusão do trabalho realizado pelo Paul Watson. Desde 2010, na primeira campanha do atum no Mediterrâneo, vejo que esta começando a gerar maior interesse na Europa e na América do Sul.

10. Quais seus projetos futuros? Como anda a vida profissional?
Meu projeto atual esta na publicação de dois livros: um em formato de diário de bordo, onde compartilho os dois anos de experiência ao lado do Paul Watson; o outro é um material fotográfico com todas as belezas e lutas realizadas na Antártida nas duas campanhas as quais fiz parte, a Waltzing Matilda e No Compromise. Estou em processo de busca de editoras interessadas no material. Além dos projetos literários e artísticos, também estou realizando palestras, fazendo parte de seminários, onde assim posso contar minhas histórias nos sete anos de ativismo com as ONG Sea Shepherd, Greenpeace e à bordo do Papaya, veleiro que morei durante três anos. Além das causas ecológicas, vejo a importância extrema de estar envolvida também com causas sociais. Educação se tornou palavra chave, por isso trabalhei em projetos socioambientais com os índios amazonenses, dentre outros trabalhos onde retratei a pobreza extrema em países com urgência social e também ambiental como o Sudão e Iêmen.

Para conhecer mais o trabalho de Bárbara Veiga, acesse o site barbaraveiga.com

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