Editorial

Charlie e os atuns de corpo quente

Comentário pelo Capitão Paul Watson

editorial_110629_1_2_Charlie_and_the_hot-blooded_tuna_blues_(SA5870)Desculpe Charlie, mas nem você será mais rejeitado! Com um preço médio de US$70.000 na cabeça do atum azul, até os dias do pobre Charlie já estão contados. Esse magnifico e único peixe está sendo sistematicamente caçado para satisfazer a insaciável demanda por sua carne, primariamente no Japão, mas também em sushi bars por todo o mundo, de Peru a Paris, Tókio a Toronto, e em todos os locais entre eles.

Populações de atum azul, o único peixe de corpo quente no mar, e o equivalente aquático do leopardo, sendo o nadador mais veloz do mundo, estão sendo reduzidas em uma taxa alarmante. Ainda assim, o atum azul permanece praticamente desprotegido, com uma forte resistência política e econômica impedindo que ele seja listado entre as espécies em perigo de extinção, já que é muito mais lucrativo quando está em um prato. Eu chamo isso de economia da extinção, porque a carne desses grandes peixes se traduz em grandes quantidades de dinheiro, e o lobby da indústria pesqueira é contra dar uma folga para essa espécie altamente ameaçada, porque cada peixe vale mais que um automóvel de luxo.

A economia da extinção funciona assim: corporações se apossaram de grande parte da indústria pesqueira, e para essas corporações é uma questão de investimento de curto prazo para ganhos a curto prazo. O que, por sua vez, significa maximizar o lucro no curto prazo, para o benefício dos acionistas, maximizando a exploração. No caso do atum-azul, isso significa que quanto mais peixes capturados e congelados rapidamente em armazéns refrigerados, ou mantidos em celas flutuantes, mais o suprimento da espécie irá diminuir em seu ecossistema natural marinho. Diminuição significa escassez, e escassez somada à demanda se traduz em um aumento no preço do peixe em celas flutuantes e armazéns. Se as companhias conseguirem armazenar corpos suficientes, e o peixe for levado à extinção comercial ou biológica, o valor dos corpos em sua posse aumenta substancialmente. Assim, o peixe que já é vendido por US$70.000 irá inevitavelmente duplicar ou triplicar de preço dentro dos próximos anos – a não ser que sejamos bem sucedidos nos nossos esforços para protegê-lo.

Durante anos, a pesca do atum azul tem sido uma mina de ouro, e como em todas as outras minas de outro, a indústria está à beira de quebrar, depois de esgotar sua principal reserva. Isso é ruim para o planeta e para pescadores locais, mas muito bom para os acionistas das corporações que exploram os oceanos e aproveitam os lucros. Eles não possuem nenhum interesse garantido na sobrevivência da indústria ou da espécie. Seus interesses estão em lucros de curto prazo, que podem ser reinvestidos em outros setores, variando de eletrônicos para entretenimento à exploração de petróleo e gás.

“Desculpe Charlie” foi por muito tempo o slogan publicitário usado por uma produtora americana de atum para promover a venda de atum enlatado. Ela se focava em um (aparentemente perturbado e suicida) atum com baixa auto-estima chamado “Charlie”, que era obcecado por ser fisgado, morto, enlatado e servido para humanos. Independentemente do que Charlie fazia em seus esforços auto-destrutivos, nunca era o suficiente, porque só matavam os melhores atuns, e Charlie era considerado muito inferior para seus anzóis. Charlie era sempre descrito como um grande conhecedor de vinho e comida, livros e artes. A respeito disso, a companhia de venda de atum dizia, “Desculpe Charlie, não queremos atum com bom gosto, queremos atum com um gosto bom”. Por algum motivo, essa campanha publicitária sobre o desejo de um atum de ser fisgado, mutilado e morto era tão popular que o termo “Desculpe Charlie” permanece parte da cultura americana até hoje.

Bem, nenhuma das companhias de venda de atum estão dizendo “Desculpe Charlie” atualmente. Até os peixes de corpo quente dos oceanos estão com alta demanda, e cada um deles tem um preço sobre suas cabeças de pelo menos US$ 70.000. Aliás, alguns atuns azuis forma vendidos no mercado de peixes no Japão por mais de US$ 300.000!

Em março de 2010, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção(CITES, na sigla em inglês) recusou-se a listar o atum azul como uma espécie em perigo por causa da pressão do Japão, China e Líbia. Neste ano, os Estados Unidos também se recusaram a listar o atum azul como em perigo de extinção. A decisão não foi baseada em ciência, mas em propinas e política.

O único órgão internacional no mundo que tem como responsabilidade a proteção do atum azul é a Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT, na sigla em inglês), e esse é um grupo composto por companhias que pescam atum. Em 15 de novembro de 2010, a ICCAT se reuniu em Paris e estabeleceu a cota para 2011. Contra todas as recomendações científicas, a ICCAT autorizou que a temporada de pesca ocorresse entre 15 de maio e 15 de junho de 2011, exatamente no meio do período de procriação do atum azul, e em sua área de postura de ovas. Por que? Porque eles são uma presa mais fácil naquela época e local.

A Sea Shepherd Conservation Society pediu cota zero, enquanto a maioria das organizações não-governamentais pediram uma cota de não mais de 6.000 toneladas. Ainda assim, a ICCAT estabeleceu uma cota de 12.900 toneladas. A cota vem sendo gradualmente diminuída a cada ano por causa da diminuição no número de peixes; a cota do ano passado foi de 13.500 toneladas.

editorial_110629_1_1_Charlie_and_the_hot-blooded_tuna_blues_(GS2553)A Sea Shepherd retornou ao Mar Mediterrâneo de novo nesse ano, e apesar de termos sido bem sucedidos em dissuadir e impedir tentativas de montar redes nas águas da Líbia, onde toda a pesca estava proibida, nós ficamos frustrados com a inabilidade de se provar legalidade nas operações em outros locais.

Em suma, os inspetores da ICCAT são uma piada. Nós vimos pouquíssimas evidências de inspeções, descobrimos diversos navios sem inspetores a bordo, e um dos inspetores falando conosco não percebeu que nós podíamos ouvir pescadores ao fundo dizendo-lhe o que falar. Eles também não sabiam que nós tinhamos tripulantes que falavam árabe. Não nos surpreendemos quando perguntamos quantos peixes havia dentro do compartimento de carga, e o inspetor hesitou e então ouvimos pescadores “informando” a ele o número de peixes no barco, e que todos eram de tamanho legal.

Quando nos aproximamos de um grupo de barcos e perguntamos sobre o inspetor que viajava com eles, fomos atacados por furiosos pescadores com estilingues armados com pedras e parafusos de metal. Eles começaram a atacar o Steve Irwin e nossa tripulação, e tentaram travar nosso propulsor com uma corda. Uma resposta um tanto estranha para pescadores supostamente legais contra um grupo que somente intervém ativamente em atividades ilegais. Nós facilmente dissuadimos a atuação deles retornando o fogo com bombas fétidas e nosso canhão de água. Nós permanecemos na área até que um inspetor da ICCAT chegasse. Imediatamente, sem inspecionar a carga, o inspetor disse que tudo era legal no navio. Isso nos deixou imaginando o porquê de toda aquela hostilidade se eles estavam obedecendo a lei. Eles certamente agiram como se estivessem escondendo alguma coisa.

Veja bem, a ICCAT tem um plano de recuperação do atum azul que apresenta 60% de chance do peixe se recuperar em oito anos, até 2020. Como o Presidente da Sea Shepherd disse, “alguém entraria em um avião que tivesse apenas 60% de chance de chegar no seu destino sem cair?”

Quando a Sea Shepherd lançou a Operação Fúria Azul em 2010, foi com o entendimento que o peixe seria listado como espécie em perigo de extinção, e tudo que precisaríamos fazer seria procurar e localizar os pescadores ilegais. O que não esperávamos era que os pescadores ilegais montassem um sistema que faz com que seja impossível determinar se alguém está dentro da legalidade ou não.

Nós também fomos acusados de preconceito por tentar interferir no que os japoneses se referem como sua “culinária cultural”.

Em 2010 nós inspecionamos inúmeras gaiolas cheias de atuns vivos sendo rebocadas de volta para cercados de armazenamento em Malta, na Líbia e na Tunísia. Eles estavam, na maior parte, protegidos pela marinha francesa, libanesa e maltesa, e tinham inspetores da ICCAT a bordo, como suposta prova de que suas atividades eram legais. Por fim, encontramos uma operação que não tinha um inspetor a bordo, e que se recusou a apresentar qualquer tipo de documentação. Portanto, cortamos suas redes e libertamos aproximadamente 800 dos peixes presos, sendo condenados por todos, desde o Greenpeace à ICCAT. Aparentemente apenas os pescadores tradicionais de Malta apoiaram nossos esforços, declarando que a indústria pesqueira estava destruindo suas operações tradicionais de pesca para subsistência.

Além da pesca ilegal, sobrepesca legal e poluição, o atum azul também foi severamente impactado pelo derramamento de petróleo da British Petroleum, que resultou no derramamento de milhões de galões de petróleo tóxico e na liberação de dispersantes no Golfo do México, a região onde o atum azul deposita suas ovas.

Deveria haver uma moratória sobre a exploração do atum azul para permitir que seus números se recuperem. Mas com esse preço enorme em sua cabeça, uma moratória parece improvável. O fato é que, a não ser que uma moratória seja imposta, o atum azul será extinto. Como resultado dessa extinção completamente evitável, várias coisas irão acontecer. O mundo será privado de um dos peixes mais singulares do oceano; o preço do peixe nos armazéns irá subir rapidamente; as companhias e os restaurantes de sushi irão aproveitar o benefício de curto prazo dessa diminuição; os pescadores ficarão sem emprego e provavelmente culparão os conservacionistas pelo desemprego; ecossistemas oceânicos ficarão ainda mais fora de equilíbrio; e a “culinária cultural” humana irá escolher outra espécie para arrastar para seus pratos e erradicar enquanto defendem sua chacina sem misericórdia, com acusações de racismo contra qualquer um que tente proteger tal espécie.

Desculpe Charlie, mas aparentemente o atum azul é simplesmente valioso demais para sobreviver.

Tradução de Marcelo C. R. Melo, voluntário do ISSB.

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