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O super El Niño de 2026

Como os impactos da humanidade deixam o planeta hiper vulnerável à um fenômeno natural
Laura Fagundes – Oceanógrafa, mestre em Oceanografia Biológica e Analista de Comunicação da Sea Shepherd Brasil
As previsões sobre o Super El Niño que deve acontecer neste ano de 2026 são alarmantes. Os impactos dessa anomalia são diversos, tanto para a natureza como para nós, seres humanos.

(Ben Noll/the Washington Post; ECMWF/NOAA)
Primeiramente é importante compreender que o El Niño é um fenômeno natural que vem acontecendo há milhões de anos de forma cíclica. Mas, o tratamento negligente para com o planeta quem vem sendo cada vez mais adotado pela humanidade também tem seu papel nesse processo. A cultura do consumismo acelera todos os processos de produção. Lucro é prioridade, respeitar o planeta, não. Tudo o que produzimos e consumimos, e que intensifica o processo do aquecimento global, já entrega um planeta muito quente para receber esse fenômeno natural que também gera aquecimento. Essa parte sim, é culpa da humanidade. No Brasil, os desmatamentos que ocorrem na Amazônia já entregam uma floresta fragilizada para lidar com as alterações atmosféricas provocadas pelo fenômeno, e isso também é culpa da humanidade.
O El Niño mais intenso registrado foi ocorreu entre 1877 e 1878, quando comparado com o Super El Niño de 2026 é possível destacar a intensidade do evento esperado ainda para este ano.
Neste contexto alarmante, muito se fala pela internet sobre este fenômeno, muitas vezes de forma extremamente simplificada e errônea, descrevendo o processo como “um aquecimento do Pacífico”, sendo que a situação na realidade é bem mais complexa que isso. O El Niño se trata de uma anomalia de aquecimento que ocorre no Oceano Pacífico Tropical. Em condições “normais” ou “neutras”, ventos chamados de alísios transportam calor sentido leste-oeste no Oceano Pacífico tropical, ou seja, sentido América-Ásia próximo a linha do Equador. Esse fenômeno é causado justamente pelo enfraquecimento desses ventos alísios, permitindo que o calor migre no sentido contrário, aquecendo porções do Oceano Pacífico que normalmente apresentam temperaturas mais amenas. Apesar do aquecimento anômalo acontecer apenas em parte do Pacífico, ainda é uma área gigantesca de água que sofre com esse aumento de temperatura. Esse calor é transferido para a atmosfera, alterando padrões de circulação e o regime de chuvas por todo o planeta. Essas alterações desencadeiam uma série de impactos ambientais, sociais e econômicos, podendo comprometer ecossistemas inteiros, afetar a disponibilidade de água e alimentos, intensificar eventos climáticos extremos, facilitar a propagação de doenças e gerar prejuízos para milhões de pessoas.
O El Niño gera aumento na temperatura média global, que é um dos impactos mais preocupantes desse fenômeno. Embora esse aquecimento seja um processo natural e transitório, ele se soma ao aquecimento global provocado pelas atividades humanas, intensificando seus efeitos sobre os ecossistemas. Como consequência, aumentam a frequência e a intensidade de ondas de calor marinhas e terrestres, favorecendo eventos de branqueamento em massa de corais, mortalidade de organismos marinhos, alterações na distribuição e nos ciclos reprodutivos de diversas espécies, redução da produtividade oceânica em regiões de ressurgência, proliferação de florações de algas nocivas e eventos extremos, como secas, incêndios florestais, chuvas intensas e enchentes. Em conjunto, esses impactos comprometem a biodiversidade e reduzem a capacidade de recuperação dos ecossistemas, especialmente em um cenário de mudanças climáticas.
(CATLIN SEAVIEW SURVEY, OCEAN IMAGE BANK)
O processo de branqueamento de corais ocorre por conta do aumento da temperatura da água do mar. É um processo extremamente prejudicial que vem afetando esses animais tão importantes para o ecossistema em escala global.
Quando falamos de um país que tem porte de continente, os impactos são dos mais diversos e vão variar de acordo com a região. Enquanto Norte e Nordeste apresentam queda na precipitação, intensificando períodos de seca, incêndios florestais e escassez de recursos hídricos, no Sul e Sudeste o volume de chuvas aumenta favorecendo enchentes, deslizamentos e transbordamentos de rios. Aqui entram dois pontos em que o ser humano pode ser responsabilizado dentro desse contexto emergencial.
O primeiro é o estado de vulnerabilidade em que a Amazônia se encontra para encarar esse fenômeno. As árvores da floresta amazônica são responsáveis por liberar quantidades massivas de umidade em formato de vapor, processo chamado de “rios voadores”. Por meio deste, são formadas as chuvas que irão cair em diferentes áreas do país, como no Sudeste, onde enchem as represas que garantem luz na grande São Paulo. O desmatamento da floresta amazônica está diretamente associado com a perda de chuvas uma vez que remove as árvores responsáveis por esse serviço ecossistêmico tão importante. Quando a floresta se encontra nessa situação fragilizada causada por esse desmatamento e ainda tem que lidar com aumento de temperatura e secas provenientes de um Super El Niño, todo o processo é intensificado. A flexibilização ambiental força a floresta a passar por essa situação, e justamente o aquecimento causado pelo El Niño vai dificultar a sua recuperação até após os efeitos diretos do fenômeno. Com a floresta mais seca também são intensificadas as queimadas. A fumaça é tanta que em anos anteriores foram registrados diversos problemas respiratórios na população chegando até o Sudeste.

Nível de rios drasticamente baixos durante secas na Amazônia. (Sea Shepherd Brasil)
O segundo ponto fica muito claro quando pensamos na tragédia como a que ocorreu no estado do Rio Grande do Sul no ano de 2024. A previsão desses eventos climáticos extremos chega com meses de antecedência, e ainda sim a política insiste em gastar mais para arrumar depois do impacto do que antes para prevenir este. Despreparo é diferente de acidente, e os prejudicados são muitos.

Museu de Arte do RS durante enchente de maio em Porto Alegre. (Alan Mendonça Furtado/Margs)
Em anos de Super El Niño, ou seja, quando esse fenômeno chega com muita intensidade, os impactos tendem a ser ainda mais severos, especialmente somados aos efeitos da atividade humana, ampliando a vulnerabilidade de milhões de pessoas em todo o mundo. Os efeitos devem chegar ao seu pico entre Outubro e o início do próximo ano, mas vale destacar que o aquecimento pode perdurar por meses, influenciando o mundo inteiro. Esse tipo de processo nos faz lembrar que o planeta em si é muito resiliente e que passaria por essas alterações intensas sem grandes dificuldades se não fossem pelos nossos impactos. O planeta não é mais frágil que nós, humanos, e agora resta apenas nos prepararmos da melhor forma possível e aceitarmos que, sem mudanças de hábito em larga escala, nós vamos seguir ficando cada vez mais vulneráveis a esses fenômenos.
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