Na mídia

Piratas bons dos mares

go-out

Linha de frente

“As árvores somos nós”, já dizia o hit do Youtube. E é isso também que dizem, de diferentes formas, os 10 ativistas que encabeçam os projetos de meio ambiente mais bacanas em andamento hoje no Brasil. Nas páginas a seguir, eles falam dos vilões e das soluções para as questões ambientais brasileiras. E você tem tudo a ver com isso

Por Heloísa Ribeiro Colaboração Sylvia D. Estrella

Áreas costeiras

ONG: Sea Shepherd Brasil (ISSB)
linha-de-frenteExiste desde 1999, é sediada em Porto Alegre (RS) e entre seus principais patrocinadores e parceiros estão ou já estiveram Petrobras, Chevron, Texaco, Devon Energy, Agencia Global Comm de Propaganda e Publicidade, lojas Gang, Tropico Surf Shop, Ashoka Empreendedores Sociais, Fundação O Boticário de Proteção a Natureza, Ministério da Justiça, Ibama, Projeto Baleia Jubarte, Tamar, UFRGS e PUC/RS.

Projeto: Práticas de Pesca e Cultivo Ambientalmente Responsáveis

Ocupação intensa, pesca predatória e falta de saneamento são apenas alguns dos fatores que destroem ecossistemas marinhos da nossa área costeira e afetam baleias, golfinhos, corais e tartarugas marinhas. É nessa área que a Sea Shepherd atua. A ONG foi fundada em 1977, pelo ativista canadense Paul Watson, que foi um dos criadores do Greenpeace, mas depois partiu para a ideia de outra organização, mais ativista e combativa, que lutasse pela proteção dos mares do mundo. Todos na Sea Shepherd são voluntários, que ficaram conhecidos como “piratas dos mares” depois de afundarem 11 navios baleeiros ilegais e barrarem pesqueiros ilícitos. São mais de 30 anos de atuação efetiva: nos anos 1970, contra os baleeiros piratas japoneses; na década de 1980, contra a captura de golfinhos em redes de pesca de atum na América Central; nos anos 1990, como Guarda Costeira nas Ilhas Galápagos. Nos últimos cinco anos, a luta é contra navios baleeiros japoneses, que agem na Antártica, e russos, que navegam pelo Pacífico. No Brasil, a ONG existe desde 1999, com total autonomia da matriz norte-americana, e é responsável por belos projetos, como o Práticas de Pesca e Cultivo Ambientalmente Responsáveis, finalista do prêmio Empreendedor Social Ashoka & Mckinsey em 2005.

ATIVISTA: DANIEL VAIRO

Há 17 anos, o brasileiro Daniel Vairo, 34, começou como voluntário ativista da matriz internacional da Sea Shepherd em Santa Monica, Califórnia. “Mas já embarquei para a Noruega e Canadá, entre outros lugares, sempre para participar de ações contra a matança de focas, baleia e golfinhos”, completa ele, que em 1999, junto com o primo, o biólogo Alexandre Castro, conseguiu trazer a ONG ao Brasil. “A Sea Shepherd Brasil é a única filiada que tem total autonomia financeira e administrativa” diz.

GO OUTSIDE: O que é a organização e como ela funciona?

Daniel: A Sea Shepherd Brasil é uma organização não-governamental ativista que tem o ideal de defender a costa brasileira. Administramos uma série de projetos e campanhas, entre elas a de proteção a baleias e golfinhos, e o salvamento de aves marinhas quando ocorrem desastres ecológicos na costa do país. Como o perfil da ONG é ser ágil e ter uma resposta rápida, as campanhas se estruturam de acordo com a necessidade do momento. Já projetos como o Práticas de Pesca e Cultivos Ambientalmente Responsáveis visam qualificar tecnicamente as comunidades tradicionais de pesca e maricultura, promovendo a inclusão social, gerando renda e ampliando a oferta de pescados e produtos com valor agregado. Em 2007, voltamos à bacia de Campos para capacitar ONGs e comunidades de pescadores de 15 municípios do litoral do Rio de Janeiro, preparando-os para as primeiras ações de proteção e recuperação dos ecossistemas costeiros, como por exemplo salvamento de animais frente a um eventual derrame de óleo.

Qual o impacto e os resultados que a campanha vem obtendo?

Abrimos o primeiro processo do país contra a pesca predatória, em 2001. Foi uma ação conjunta com a polícia militar do Rio Grande do Sul. No ano passado, conseguimos a condenação desta empresa pesqueira, que recebeu uma multa de quase um milhão de reais e terá que adaptar as redes de pesca para que as tartarugas não se enrosquem, além de oferecer educação ambiental aos empregados. Nestes dez anos no Brasil, aproximadamente 10 mil pessoas se envolveram direta ou indiretamente com nossas ações. No cotidiano da instituição, temos um grupo de 10 voluntários envolvidos em projetos de pesquisa, captação de recursos, planejamento, divulgação, ações jurídicas. Outro tipo de voluntariado, fundamental para o nosso trabalho, é o de empresas e instituições que colocam seus profissionais à disposição da causa, a exemplo de agência de propaganda Toro, que nos auxilia na criação de campanhas publicitárias. O Adriano Echeverria, um dos sócios, se mobilizou depois de ver a matança de 83 golfinhos que caíram numa rede de pesca no Amapá. Os olhos e dentes desses animais viraram artigos de bijuteria, e a carne foi utilizada como isca na pesca de tubarão. Processamos os donos das embarcações, que podem ser condenados a três anos por  golfinho morto, e ganhamos uma ação contra o Ibama, que nos sonegou informações importantes neste caso, e acabou tendo que nos pagar uma indenização de R$ 500. Temos conseguido bons resultados na diminuição de caça à baleia nas costas brasileiras, articulando debates como o que levou à criação do Santuário de Baleias e Golfinhos do Brasil, em fins de 2008*. Também oferecemos cursos de salvamento de animais e aves marinhas em casos de derramamento de petróleo.

Quais os principais problemas dessa área?

O maior desafio da Sea Shepherd e das ONGs ambientalistas, em geral, é preencher os espaços das políticas públicas que não conseguem conciliar crescimento social e econômico com preservação do meio ambiente. Esta falha gera um imenso contingente de pessoas que não acreditam em seu próprio potencial, e passam a esperar tudo ou a culpar os outros, quando a verdadeira transformação passa pelo papel de cada um, por meio de pequenas iniciativas. Mas o principal problema é a falta de fiscalização. O governo federal ainda tem um projeto para criar o Ministério da Pesca, que tem como um dos objetivos dobrar a frota pesqueira, o que é um absurdo. É preciso estabelecer um limite à pesca. Não se pode apenas pensar na rápida geração de lucro.

Quais são os vilões que mais comprometem as áreas costeiras?

Os governos, especialmente aqueles motivados exclusivamente por fins econômicos,  têm desrespeitado protocolos, acordos e intenções de proteção ao ambiente natural. Nossa resposta a estas políticas descomprometidas com o futuro do planeta é a ação concreta e obstinada em defesa daqueles que não têm assento nos parlamentos, convenções e tantas reuniões que ocorrem mundo afora: os animais marinhos. Um dos maiores exemplos do conflito entre preservação e crescimento econômico é o esgotamento dos estoques pesqueiros da nossa costa, explorados indiscriminadamente ao longo de séculos. A pesca não é livre, muito pelo contrário. Não se pode pescar na época de reprodução dos peixes, e a lei muitas vezes impõe um tamanho mínimo para o animal bem como uma quantidade máxima de espécies a serem capturadas.

Como o leitor pode atuar nessa área, de forma prática?

Uma das maneiras é se filiar ao Sea Shepherd, visitando o seashepherd.org.br, frequentando nossos cursos ou tornando-se voluntário da nossa ONG. Uma atitude mais concreta é o apoio à nossa campanha de defesa dos tubarões, que visa conscientizar a população para a importância e a fragilidade desses animais – são mortos anualmente mais de 100 milhões desses peixes no mundo, e 43% das espécies estão ameaçadas de extinção, principalmente para o fornecimento de barbatanas ao mercado asiático. O público pode promover o selo da campanha que está no site, ficar atento a restaurantes que sirvam derivados à base de tubarão e denunciar. Qualquer cidadão pode fotografar embarcações ilegais de pesca – esse registro já nos ajuda a compor um auto de infração.

*Errata: “O Instituto Sea Shepherd Brasil tem a consciência que desde 1986 não existe no litoral brasileiro a caça comercial a baleia. E através de sua participação no Conselho Gestor da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca e apoio às campanhas contra a caça à baleia na Antártica, colabora para o debate público a favor da criação do Santuário de Baleias do Atlântico Sul.”

Fonte: http://gooutside.terra.com.br/edicoes/48/artigo133556-1.asp?o=r

Back to list