Editorial

Golfinhos são poupados da onda de morte na costa do Japão

Comentário pelo Capitão Paul Watson

Foto: Sea Shepherd

Foto: Sea Shepherd

O terremoto e o tsunami de 11 de março foi uma tragédia terrível para a nação japonesa. Milhares de mortos, milhares de feridos e centenas de milhares de desabrigados. Foi um desastre natural que trouxe a nação de joelhos e inspirou o resto do mundo para vir em auxílio das vítimas no Japão.

Nossa equipe Guardiões da Enseada estava lá e documentou o surgimento da água negra, que devastou tudo em seu caminho. Eles viram uma cidade inteira destruída diante de seus olhos em poucos minutos.

Eles estavam lá porque a cada ano, esta cidade, juntamente com algumas outras, envia barcos arpão para o mar para abater golfinhos; cerca de 15.000 a 20.000 anualmente.

Esta onda anual de morte infligida sobre os golfinhos indefesos ao largo da costa japonesa foi interrompida, pelo menos neste ano, uma vez que estas cidades se esforçam para reconstruir-se.

Eu não acredito que em uma natureza discriminatória, e eu descarto a crença de que o karma infligiu este horror sobre o povo do Japão. Não há lógica em tal crença. O Japão, como Christchurch na Nova Zelândia, localiza-se em uma fratura grande na crosta da Terra, e é a conseqüência de se viver na beira do fogo.

Há algumas pessoas que sustentam a posição de que o povo japonês teve o que eles mereciam por causa de seu abate cruel anual de baleias e golfinhos. O problema dessa crença é que nem todo mundo no Japão está envolvido com a matança de golfinhos e baleias, ou destruindo o atum-azul. O outro problema é o simples fato de que a natureza não discrimina.

O governo japonês, no entanto, pode realmente ser culpado pela tragédia do colapso do reator nuclear. Desde o desastre, o governo do Japão tem mostrado um incrível nível de incompetência com os encobrimentos e mentiras sobre a situação do povo japonês e para o mundo.

O tsunami japonês teve o efeito de interromper, pelo menos neste ano, a caça de boto-de-dall, na costa nordeste do Japão.

Boto-de-dall. Foto: Marinebio.org

Boto-de-dall. Foto: Marinebio.org

O início de novembro marcou o início da usual massacre anual do Japão ao boto-de-dall, o maior abate do mundo de quaisquer espécies de cetáceos. O oceano ao largo da costa de Iwate, no nordeste do Japão, normalmente, seria manchado de vermelho nessa época do ano com o sangue destes botos indefesos. Mas não este ano.

O tsunami devastou a frota de caça aos golfinhos, e ainda não se recuperou. Barcos assassinos de golfinhos foram jogados como brinquedos pelas praias e pelas ruas de cidades costeiras.

Todo ano até agora, esta matança de botos massacrou mais de 16.000 gentis botos-de-dall. A população destes animais inteligentes caiu drasticamente ao longo das últimas décadas, sem controle sobre o número de mortos por pescadores japoneses.

Tanto quanto nós simpatizamos com o povo do Japão, nós temos que reconhecer que a destruição desta frota assassina de botos-de-dall é uma conseqüência muito positiva deste desastre natural.

Por outro lado, o Ministério japonês da Agricultura, Florestas e Pescas aproveitou esta tragédia horrível humana para alocar 2,28 bilhões de yens do orçamento para a reconstrução após o tsunami e terremoto para garantir a “execução estável” da temporada 2011 da Pesquisa de Baleias da Antártida, que alegam que irá estimular a restauração e a revitalização da região baleeira ao longo da costa nordeste.

Durante as últimas duas décadas, os pescadores japoneses abateram mais de 300.000 botos-de-dall. O massacre levou ao consumo de dezenas de milhares de toneladas de carne de golfinho tóxica por parte do público japonês.

Em 1972, de acordo com recomendações da Organização Mundial de Saúde, o Ministério da Saúde do Japão definiu os limites de consumo humano para a quantidade de metilmercúrio em produtos do mar. Estranha e convenientemente, baleias e golfinhos, que anualmente excedem os níveis máximos permitidos, foram excluídos destes limites de segurança.

Um estudo publicado por cientistas japoneses em agosto de 2005 forneceu evidências de que a concentração de metilmercúrio média ao longo de todas as amostras de carne de boto-de-dall colhidas foi de três vezes e meia o limite recomendado.

Pesquisas médicas estabeleceram uma forte ligação entre o mercúrio em produtos de cetáceos e uma variedade de doenças humanas e condições médicas, incluindo a doença de Parkinson, a arteriosclerose, a supressão do sistema imunológico e a hipertensão. Ameaças às crianças incluem autismo, Síndrome de Asperger, e Transtorno de Déficit de Hiperatividade.

Assim, além de salvar a vida de cerca de 16.000 golfinhos neste ano, o tsunami pode ter tido também o efeito de salvar a vida de um grande número de japoneses que, de outra forma, continuam a comer a carne tóxica de baleias-piloto.

Parece que o tsunami de 11 de março interrompeu, pelo menos temporariamente, a onda violenta de morte da costa do Japão, que derrama sangue quente para o mar.

Para os golfinhos na costa do Japão, o tsunami parece ter sido uma bênção. Podemos apenas esperar que os barcos assassinos de golfinhos não sejam reparados e reconstruídos, mas, infelizmente, o dinheiro do fundo de ajuda pelo tsunami e terremoto está sendo usado para ajudar a reconstruir a indústria baleeira japonesa e assassina de golfinhos.

Isto não é o que as pessoas no resto do mundo tinham em mente quando enviaram doações para ajudar as vítimas do desastre. É de fato um tapa na cara a todos os que doaram generosamente, e é uma demonstração vergonhosa de ingratidão por parte do governo japonês.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do Instituto Sea Shepherd Brasil.

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