Atualização de Otsuchi, Japão – 11 de março de 2011

Por Scott West

Nosso caminho para sair de Otsuchi

Nosso caminho para sair de Otsuchi

O dia começou tão normal quanto pode ser quando você está trabalhando em expor e parar o maior abate de cetáceos no planeta. Na noite anterior três novos Guardiões haviam se juntado a nós: Marley, Carisa, e Mike. Nós seis nos dirigimos para a cidade para verificar se algum dos barcos arpoadores tinha saído nas condições de vento atuais. Dois tinham saído. Também nos reunimos com a polícia local, que estava esperando por nós.

Depois de um dos barcos retornarem com uma carga de peixes pequenos, começamos a levar os novos Guardiões para uma excursão na área. A polícia nos seguiu e assim os três veículos desfilaram em torno do porto. Nós nos aproximamos da luz em uma área do cais no porto central. Havíamos sentido vários terremotos e tremores desde que estivemos aqui. Eu vivi na área da Baía de San Francisco por vários anos e isto foi diferente de tudo que eu já havia experimentado. Os veículos começaram a pular, e era difícil ficar em pé. Eu sugeri que saíssemos dali, e ninguém precisou ser convencido disso. Os trabalhadores estavam correndo para fora do cais e se dirigiram para a muralha tsunami. A polícia, que havia parado no único lugar que poderíamos passar, estava apontando freneticamente para que todos pudessem atravessar as portas na muralha tsunami.

Conseguimos passar. Estes muros e portões são estruturas enormes que parecem ter sido construídas para suportar um bombardeio militar. Estendem-se bem alto no ar e contornam a área do porto da cidade inteira. Sabíamos de uma pequena estrada que abraça a costa rumo ao sul da cidade de onde podíamos ver a área de processamento de golfinhos. Fomos para lá. Conforme dirigíamos ao longo do interior da muralha, os enormes portões estavam sendo fechados e baixados. Muitas pessoas estavam executando essas tarefas com determinação. Continuamos em frente e logo fomos acompanhados por um caminhão de bombeiros e dezenas de veículos com cidadãos locais.

Não demorou muito para que a água fosse sumindo do porto e, em seguida, reaparecesse. Aprendemos com os bombeiros a esperar para ver vários ciclos de maré baixa e alta. A água, em seguida, rapidamente voltou ao porto e subiu até inundar todas as áreas ao lado da muralha. Isso aconteceu muito rapidamente. Voltou ao mar novamente, desta vez quase se transformando em lama. Em seguida, o retorno da água foi maior que o interior, e criou uma parede de água negra. Desta vez a água subiu ainda mais e chegou ao topo das paredes. Ela continuou subindo acima das colinas e preenchendo os vales e fendas. Várias vezes isso aconteceu e se repetiu.

Otsuchi, Japão, 12 de março

Otsuchi, Japão, 12 de março

Enquanto a escuridão se aproximou, ficou claro que não íamos ser capazes de sair daquela colina. Ambas as extremidades da rua foram bloqueadas por escombros e depois descobrimos que as estradas desapareceram. Os bombeiros e moradores caminhavam ao longo dos morros para ver o que eles poderiam descobrir sobre seus entes queridos. Os telefones celulares foram inúteis neste momento. Isso deixou nós seis sozinhos na estrada com uma jovem de outra cidade, que estava de passagem. Então começou a nevar. A neve se misturava com as cinzas dos muitos incêndios nas colinas e nos edifícios danificados. A fumaça estava nos sufocando.

Nós sete nos refugiamos em nossos carros. Uma vez que a neve parou, fizemos um balanço da nossa situação. A água ainda estava baixando e subindo no porto abaixo. Restos constituídos por casas, carros, tanques de petróleo, embarcações, equipamentos de pesca e pertences pessoais estavam girando em torno da luz fraca. Vimos pelo menos um corpo na praia. Mais tarde, descansou no que restou de uma árvore.

De repente, em meio a essa confusão, ouvimos uma mulher gritar por socorro. Com o crepúsculo, nós poderíamos ver a sua forma em meio a pedaços de detritos flutuantes. Andamos para encontrar cordas e tentamos em vão conseguir um barco. A mulher japonesa que estava com a gente chamou a mulher. Então Mike correu de volta até a estrada para comandar o carro de bombeiros. Ele o trouxe aonde estávamos. Com o seu rádio, fomos capazes de notificar as autoridades da situação da mulher. Nenhuma ajuda veio.

Continuamos a nos aventurar por uma muralha onde a água constantemente surgia e a água novamente cobria a mulher. Foi um risco, mas nós pensamos que isso nos levaria mais perto dela. Ela não tinha como manobrar seu tablado e nós não tínhamos como conseguir uma linha para ela. Foi horrível. A neve voltou como uma vingança. Seus gritos de ajuda que vinham e iam como os restos estavam sendo empurrados e puxados pela correnteza rápida da água. Estava escuro como breu neste momento. Nós encontramos os disjuntores para dois refletores de caminhão e tentamos encontrá-la. Dois barcos apareceram ao longe. Demorou quase duas horas para conseguirmos a sua atenção e desviá-la para onde achávamos que a mulher estava. Eles chegaram perto dela, e depois se afastaram novamente. Estávamos em estado de choque, e descrentes. Os destroços então moveram-se rapidamente para dentro da baía. Nós não pudemos ouvi-la mais. Avisamos um dos barcos que estava se movendo nos escombros e só pudemos esperar que o barco a encontrasse.

A temperatura estava pairando em torno de zero. Foi uma longa noite agitada, com nós sete amontoados em dois carros pequenos. Felizmente, tínhamos tanques cheios de gás e capazes de acender os aquecedores de vez em quando. Tínhamos também algumas barras de cereal e água conosco.

A madrugada trouxe mais tremores residuais, o céu cheio de fumaça, e o retorno dos bombeiros. Eles haviam descoberto um casal de refugiados na floresta também. Nós arrumamos nossas coisas, trancamos os carros, e começamos a nossa caminhada. Na parte inferior do morro, era possível avaliarmos os danos à estrada. Nós não sabíamos onde os bombeiros estavam indo, mas ficou claro que deveríamos segui-los.

Nosso caminho para sair de Otsuchi

Nosso caminho para sair de Otsuchi

O caminho estava intransitável com a lama, a água e os entulhos, então os bombeiros decidiram que iriam subir a colina. Esta é uma colina muito íngreme, quase vertical. Vários de nossos pertences foram abandonados na subida. Finalmente, chegamos no topo de um pequeno vale que se abria para o mar. Cada casa desta aldeia havia sido destruída. Encontramos uma fogueira de boas-vindas e nos foram oferecidos arroz e sopa das panelas aquecidas sobre as madeiras retiradas dos destroços. A generosidade do povo não podia ser exagerada. Com a destruição e a morte ao seu redor, um futuro incerto pela frente, partilharam conosco a pouca comida que tinham. Enquanto começaram a salvar materiais do entulho tornou-se claro para nós que eles estavam montando um acampamento para um longo período. Nós não queríamos ser um fardo, e por isso decidimos seguir. Os bombeiros nos incentivaram a ficar, porque eles sabiam o que vinha pela frente. Agradecemos, lhes demos um par de toalhas e cobertores que tínhamos, e seguimos em frente.

Cenários de filmes apocalípticos não são nada comparado com a destruição que encontramos enquanto fizemos lentamente o nosso caminho. Otsuchi era uma cidade razoavelmente grande. Ainda é, mas tudo desapareceu. Entre o tsunami, o terremoto, danos e incêndios, não há mais nada. Foi uma viagem difícil fisicamente, com becos sem saída e perigosas travessias. Foi também uma jornada emocionalmente difícil. A extensão da miséria é indescritível. Nós finalmente chegamos em uma área queimada e pisamos em cima de uma estrada. A devastação ainda estava ao nosso redor mas nós estávamos acima da maioria dos detritos. A maioria das pessoas que nós vimos estava em choque.

Sem saber a extensão dos danos em todo o Japão, esperávamos encontrar representantes dos Estados Unidos e embaixadas canadenses esperando por nós. Abordamos alguns policiais e começamos a aprender muito sobre como estávamos por nossa conta. Tínhamos escolhido um hotel bem no interior para melhor nos escondermos das autoridades. Nosso destino se tornou o nosso hotel em Tono. Tono está há cerca de 32 quilômetros de Otsuschi, mas por causa das montanhas, demora cerca de 90 minutos para alcançá-lo, quando tínhamos um carro. A polícia disse que as estradas estavam obstruídas e que não poderíamos chegar a Tono. Pegamos nossas mochilas e começamos a andar. Obviamente, passamos por mais destruição ao longo do caminho. Andamos vários quilômetros antes de conhecermos o homem mais surpreendente. Na sua cidade destruída, ele assumiu a tarefa de encontrar caronas para Tono. Não havia nenhum lugar para alugar um carro, porque as locadoras de carros ficavam em grandes cidades costeiras que tinham sido destruídas. Mas ele encontrou dois veículos para nos levar alguns quilômetros a mais para o interior. O casal em um dos carros tinha perdido tudo e ainda estava disposto a ajudar este grupo de estrangeiros. Fomos levados para uma pousada e pedimos para permanecer. O homem saiu, mas voltou novamente com uma mulher e seu furgão. Sua loja em Otsuchi havia sido destruída, mas com grande calor e dignidade, ela nos levou acima da montanha para Tono.

Eu não posso começar a descrever a quantidade de bondade e generosidade mostrada a nós neste dia. Isso confirma a minha crença de que os japoneses são calorosos e gentis. As atividades dos matadores de golfinhos em Taiji e dos matadores de toninhas de Iwate são aberrações, e absolutamente não são a regra. Há muita esperança de que vamos ver o fim das matanças e que o Japão será o líder que deve ser na conservação marinha.

Falando em Taiji, soubemos hoje que o tsunami chegou lá também. Os barcos de pesca e barcos dos matadores fugiram no mar para escapar da onda. Ninguém pensou nos golfinhos presos nas redes no porto. Seis vezes a água recuou e voltou, mas não inundou a cidade. Seis vezes, os golfinhos em cativeiro foram esmagados contra as pedras e gritaram em agonia. Pelo menos 24 golfinhos morreram. Qualquer agricultor libertaria os animais, quando confrontados com um incêndio. As almas dos matadores de golfinhos estão sem luz.

Pelos oceanos,
Scott West

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Casa flutuando próximo às ondas do Tsunami, note a dimensão das ondas em relação à casa

Casa flutuando próximo às ondas do Tsunami, note a dimensão das ondas em relação à casa

 

 

Crédito das 3 últimas fotos: Mike XVX

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.

Equipe da Sea Shepherd, Guardiões da Enseada, estão vivos e ilesos

Scott West

Scott West

Após mais de 24 horas desde o último contato, o Diretor de Investigações da Sea Shepherd, Scott West, pôde telefonar para sua esposa Suzanne e relatar que toda a equipe dos Guardiões da Enseada da Sea Shepherd estão vivos e ilesos.

Precisaram abandonar seus dois carros na cidade portuária devastada de Otsuchi, onde passaram a noite em uma colina. A cidade inteira foi destruída ao seu redor. Ao saírem, verificaram que as estradas foram completamente arrasadas, e passaram por inúmeros cadáveres em meio a pilhas de escombros. Em determinado ponto ontem avistaram e ouviram uma mulher na água gritando por socorro, mas ela foi levada para o mar antes que pudessem fazer alguma coisa para salvá-la.

A equipe de ativistas foi à Otsuchi para documentar a matança das Toninhas de Dall. Todo ano, os pescadores abatem 20.000 dessas criaturas gentis. Eles tinham acabado de filmar um barco de pesca retornando de uma caçada quando viram a água no porto recuando tendo com isto imediatamente se dirigido para terreno alto. Da hora do terremoto ao tsunami em Otsuchi se passaram cerca de oito minutos.

Os Guardiões estavam bem no meio do tsunami mais devastador que já atingiu o Japão, e estão todos vivos e bem.

Scott West só foi capaz de enviar essa mensagem rápida, pois seu celular estava com a bateria no fim:

“Estamos todos os 6 seguros e fora do Otsuchi. Agora em Tono no hotel, sem Internet, água ou comida. Até que o iPhone fique sem bateria. – Scott”.

Traduzido por Carlos “CROW” Francisco, voluntário da ISSB.

IMATA deve incluir assassinos de Taiji em sua lista negra

A Associação de Treinadores de Animal Marinhos (IMATA, em inglês) divulgou na sua página do Facebook que se opõe à pesca de news_101111_1_02_dead_dolphinsanimais realizada pelos japoneses, e que “condena a matança desumana de golfinhos e outros cetáceos nas pescas japonesas”.

Keisuke Futura, do Parque Aquático Suma, estará participando da Conferência da IMATA em Boston, em 05 de dezembro. O Parque Aquático Suma recebeu golfinhos diretamente de Taiji em 03 de outubro deste ano.

Esta declaração da IMATA não tem credibilidade alguma, a menos que a sua “lista negra” inclua todos os funcionários e treinadores dos aquários e parques temáticos que tenham comprado ou que pretendam comprar golfinhos de Taiji.

Se Keisuke Futara está autorizado a participar da conferência da IMATA em dezembro, é um sinal claro de que a IMATA apoia o massacre de golfinhos em Taiji. Palavras sem ação são inúteis.

news_101111_1_01_IMATA_must_blacklist_Taiji_dolphin_killersOs treinadores de golfinhos que se dedicam à tortura e matança de golfinhos são o problema. Se eles pararem de comprar os golfinhos de Taiji, o massacre vai acabar.

Qualquer membro da IMATA que participa desta conferência, juntamente com estes treinadores desprezíveis de locais como o Parque Aquático Suma, é cúmplice no assassinato dos golfinhos.

Os ativistas precisam protestar nesta conferência em Boston. Ativistas de todo o mundo precisam deixar a IMATA saber que um comunicado à imprensa não exime a sua culpa. Eles continuam sendo culpados por se associarem com os instrutores sádicos que participam do show de horrores em Taiji.

Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB