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Paul Watson, o “bom pirata”

4 maio 2016

A “Time Magazine” elegeu-o como um dos grandes heróis da ecologia do século XX e o “Guardian” distinguiu-o como uma das “50 pessoas que podem salvar o planeta”.

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“A maior prioridade da minha vida sempre foi acabar com a matança de baleias e golfinhos em todo o planeta”, escreveu há poucas semanas no seu Facebook. Paul Watson, 65 anos, é o rosto da Sea Shepherd, uma ONG que se dedica à proteção dos oceanos.

Há mais de 40 anos que o ambientalista canadiano luta pela defesa do ecossistema marítimo. E é destemido nos seus propósitos: já afundou deliberadamente uma dezena de navios baleeiros e mandou muitos mais para o estaleiro. Ao longo de quatro décadas e mais de 200 missões envolveu-se em centenas de confrontos, sabotagens, navios abalroados, batalhas navais épicas. Foi ameaçado de morte, agredido por caçadores de focas, processado e preso. Tudo em nome da defesa das baleias, dos golfinhos ou das focas. Agora está na lista vermelha da Interpol e vive exilado em França.

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Paul Watson foi um dos fundadores da Greenpeace em 1971. Participou em algumas campanhas mas acabou por sair, em 1977, desiludido com a falta de ação dos seus colegas. E estes, por seu turno, achavam-no demasiado radical.

Na verdade, ele não acredita em manifestações ou protestos. Paul Watson prefere ação directa, partir para a luta, ir para o mar tratar do assunto e combater quem agride os oceanos. Foi para isso que ele fundou a Sea Shepherd em 1977. “Nós não somos uma organização de protesto, somos uma organização de intervenção”, sempre disse. Uma das suas primeiras missões foi elucidativa da sua estratégia: em 1979 veio a Portugal e afundou dois navios em nome da defesa da baleia.

Seguiram-se muitos outros e não mais abandonou o seu combate. Hoje, a Sea Shepherd tem uma frota de nove navios e milhões de adeptos em todo o planeta.

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Numa conversa por Skype com o JN, Paul Watson sublinha: “Tudo o que fazemos é ser uma organização contra a caça furtiva e que vai atrás de atividades ilegais”. Ou seja, a Sea Shepherd não é um bando de arruaceiros que anda por aí a divertir-se com contendas navais. “Nós defendemos o cumprimento das leis. Existem leis e essas leis não são cumpridas”, explica-nos. “E a Sea Shepherd faz com que os outros cumpram as leis”. “Nós nem sequer devíamos estar a fazer isto. Os governos é que deviam. Mas se não o fazem, fazemos nós”, já afirmou anteriormente.

Para além dos afundamentos de navios, as suas estratégias de luta envolvem perseguições a alta velocidade, choques e abalroamentos, sabotagem e destruição do material de pescadores, cortes de redes ou o bloquear de hélices de navios. Tais métodos levaram-no a ser muito criticado, começando pela própria Greenpeace e passando por governos como o do Japão, que o acusam de ser um “eco terrorista”. Paul Watson não acha piada a essa acusação. “Um eco terrorista é alguém que aterroriza o meio ambiente e eu não trabalho para uma Shell ou uma Monsanto”.

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Paul Watson tem perfeita noção de que a Sea Shepherd chateia muita gente. “Tornámo-nos peritos nisso”, escreveu há uns meses.”E isso até é bastante simples de conseguir: basta dizer a verdade e confrontar as pessoas, as grandes empresas e os governos responsáveis pela sistemática e gananciosa exploração do meio ambiente e da natureza”. Para mais, ele marimba-se para as críticas. “Nunca tive a intenção de ganhar um concurso de popularidade”. E lembra que está ao serviço dos animais marinhos e não dos homens.

Paul Watson não quer saber do que pensam dele – foca-se mais nos resultados: nos últimos dez anos, por exemplo, acredita que salvou a vida a mais de 6 mil baleias. E em quase 40 anos as missões da Sea Shepherd nunca provocaram mortes ou feridos.

Aliás, os voluntários só entram nos navios da Sea Shepherd depois de assinarem um documento em que se assumem preparados para a dar a própria vida para salvar uma baleia. E as regras são duas: não se atacam pessoas (mas o material de pesca ilegal pode e deve ser atacado) e não se negoceia com o inimigo. Neste momento estão 150 voluntários nos navios da Sea Shepherd. Há mais de cinco mil interessados em lista de espera.

A sua organização é financiada por dezenas de milhares de doações particulares e conta com o apoio de nomes como o Dalai Lama, Mick Jagger, Sean Penn ou bandas como os Red Hot Chili Peppers ou Smashing Pumpkins.

A sua determinação e carisma também suscitam enorme fascínio em muita gente rendida a um certo romantismo de pirata defensor dos oceanos.

Em Portugal também tem apoiantes. O portuense Pedro Teixeira de Sá é um deles. É mergulhador e publicou recentemente o livro “Aventuras subaquáticas”. Promete doar as receitas das vendas à Sea Shepherd que, na sua opinião, “é uma espécie de Amnistia Internacional dos oceanos”. “O Paul Watson é o sucessor legítimo do Jacques Cousteau no exemplo, na coragem, na estratégia e no empenho que coloca nas batalhas que trava”, diz ao JN. Para o mergulhador português, o ambientalista canadiano “tem a classe do Sinatra, a coragem do Lennon e o espalhafato do Morrison”. “É um cocktail perfeito e o homem certo para liderar a luta ao inimigo dos mares, que é inimigo de nós todos”, remata.

Chamam-lhe amiúde “o bom pirata” – e ele parece gostar do epíteto. A bandeira da Sea Shepherd até é uma adaptação da clássica dos piratas. Inclui um golfinho e um cachalote para simbolizar a morte infligida aos mamíferos marinhos. Há ainda o tridente de Neptuno (o Deus do mar) e o cajado do pastor porque a missão é “proteger os rebanhos do mar”.

Ao longo do século XX foram mortas pelo menos 2.9 milhões de baleias nos mares do planeta. O número deverá ser ainda maior porque existirão muitos casos que nem sequer foram registados. A caça comercial da baleia é proibida desde 1986, altura em que entrou em vigor uma moratória internacional. Hoje, a caça às baleias é mantida por quatro países: Japão, Noruega, Islândia e Dinamarca.

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O Japão é provavelmente o maior inimigo da Sea Shepherd. Os japoneses caçam baleias aproveitando uma tolerância da Comissão Baleeira Internacional que permite a captura do cetáceo em nome das pesquisas científicas. É isso que o Japão alega mas tal não passa de uma fachada – e isso até já foi decretado pelo Tribunal Internacional de Justiça e pela Comissão Baleeira Internacional. A caça ocorre normalmente entre dezembro e finais de fevereiro nos mares do sul e é aí que a Sea Shepherd enfrenta os baleeiros japoneses. A frota de Paul Watson abalroa os navios inimigos, tenta bloquear-lhe as hélices, impedir o reabastecimento de combustível ou obstruir as rampas por onde são puxadas as baleias mortas. O Japão diz que Watson é um “eco terrorista”. E quer vê-lo atrás das grades.

Os confrontos entre a Sea Shepherd e os baleeiros japoneses que têm ocorrido na última década até já deram origem a uma série televisiva de grande popularidade nos Estados Unidos: “Whale Wars”. O programa, que mostra o dia a dia da tripulação da Sea Shepherd, já chegou a ser considerado como “o único reality show com substância”.

O Japão é ainda alvo do repúdio mundial pela tradicional matança do golfinho na ilha de Taiji, uma prática denunciada pela Sea Shepherd desde 2003. O massacre de golfinhos foi exposto a uma escala ainda maior em 2010, quando o filme “The Cove” ganhou o Oscar de melhor documentário.

A matança de golfinhos em Taiji recorre ao chamado “drive hunting”, um método que consiste em juntar uma série de navios em redor de um grupo de cetáceos e provocar ruídos debaixo de água de maneira a criar um muro de som que assusta e confunde os bichos para progressivamente conduzi-los até à costa e aí aprisioná-los, com uma rede, numa determinada área para assim começar a matança. O método é igualmente utilizado no outro lado do planeta onde também ocorre outra das grandes lutas da Sea Shepherd: a matança de baleias-piloto e golfinhos nas Ilhas Faroe.

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As Ilhas Faroe são uma região autônoma da Dinamarca e situam-se no Atlântico Norte, entre a Escócia e a Islândia. “É o mais perigoso e cruel local do planeta para os cetáceos”, considera Paul Watson. Todos os anos celebra-se uma tradição na qual baleias-piloto ou golfinhos são esventrados vivos por centenas de pessoas com arpões e facas. A sinistra tradição provoca imagens impressionantes: o sangue dos animais pinta o mar de vermelho. “É um espetáculo macabro”, comenta Watson, que acusa a Dinamarca de conivência e cumplicidade ao enviar os seus recursos militares para defender a matança e prender os ativistas da Sea Shepherd.

Watson traça um paralelismo entre a comunidade japonesa de Taiji e a população das Ilhas Faroe. “São ambas um embaraço para a espécie humana e partilham o mesmo luxo doentio de matar famílias inteiras de seres vivos inteligentes e socialmente complexos. Ambas alegam o direito cultural em exterminar golfinhos. E ambas derramam sangue para os oceanos, enchem o ar com os gritos de morte dos golfinhos e ainda têm a ousadia de chamar terroristas a todos aqueles que se opõem a estas chacinas”.

A Sea Shepherd atua ainda um pouco por todo o mundo na defesa de tartarugas, tubarões, focas e muitas espécies ameaçadas ou alvo de pesca ilegal. Tem cada vez mais apoiantes e em setembro chegará mais um navio.

Paul Watson foi detido na Alemanha em maio de 2012 e dois meses depois soube que iria ser extraditado para o Japão. Cortou o bigode, enfiou uma peruca e fugiu de carro até à Holanda onde um navio o esperava. Atravessou o Atlântico e depois o Pacífico. Esteve 15 meses em parte incerta no alto mar até conseguir ter garantias de poder desembarcar nos Estados Unidos. Hoje vive exilado em França mas continua a dirigir todas as operações. Abandonar a causa “nunca foi uma opção” porque “baixar os braços não faz parte da minha filosofia”. E deixa o aviso: “Jamais abdicarei perante os bárbaros e os burocratas”.

Matéria de Cristiano Pereira
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