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Dois contra a maré?

19 abril 2008

Eu admiro os pescadores, mas caçadores de focas não são como pescadores – eles são iguais a açougueiros.

Eu tenho grande admiração por Paul Watson e o que ele fez com a vida dele.

De algumas formas, eu poderia dizer que nossas vidas foram paralelas – ambos nos sentimos mais em casa com os animais não-humanos deste mundo; ambos somos protetores deles, porque nós vimos como abominavelmente a espécie humana trata outras espécies.
E enquanto eu gravitei das minhas experiências com os índios Inuit para me preocupar com lobos e baleias e me tornei um escritor, ele foi das baleias para os peixes em corais para o atum, e sempre permaneceu um ativista.

Em relação as focas, foi Paul Watson que me mudou.

Eu o conheci a mais de 25 anos atrás nas Ilhas de Magdalen durante um das suas primeiras expedições contra a matança das focas. Eu admiro os pescadores – eles são os homens de adversidade que cuidam da natureza, e a natureza os cuidam – e eu pensei que eu admiraria os caçadores de focas também. Foi assim que eu embarquei com Watson naquele ano, como um observador neutro da caça às focas.

Eu fiquei incrédulo com o que vi. Estes caçadores de focas não eram como pescadores, eles eram iguais a açougueiros. Um verdadeiro pescador leva o que ele precisa para sobreviver; estas pessoas estavam levando uma boa porção amais. O objetivo exclusivo delas era o dinheiro.

Eles não se preocupavam muito se as focas estavam mortas ou não. Eles as abatiam em cima da cabeça, cortavam suas nadareiras e tiravam seus couros enquanto ainda vivas. As autoridades dizem que isto é ficção, que não acontece desta forma.
Mas acontece; isto é a absoluta verdade.

A experiência me transformou completamente: Minha condolência passou dos caçadores para as focas.
E me fez mais íntimo do Paul Watson. Nós mantivemos contato desde então.

Eu o assisti ampliar sua defesa dos “outros seres” até que englobou toda a entidade vivente que cobre a face da Terra. Quando eu escrevi o livro “Mar de Morte” (Sea of Slaughter), eu fui impelido pelo trabalho dele. Estou dedicando meu atual livro a ele, entitulado “Caso Contrário” (Otherwise).

Mas o que eu tento fazer com palavras, ele faz com ação. E ele tem mais êxito. As pessoas podem ler e podem ignorar minhas palavras, eles não podem o ignorar.

Em 1998, embarcamos juntos em seu navio, o Sea Shepherd, para tentar parar a caça às focas. Nós não chegamos perto da caça; fomos perseguidos a cada passo que tomávamos pela marinha particular do Departamento de Pescas canadense, a Guarda Costeira.

Depois desta experiência, ele me perguntou se eu aprovaria se ele mudasse o nome de sua embarcação para o meu nome.

“É claro que sim!” eu disse.

E desde então tem se chamado o Farley Mowat.

Isso me tem feito um participante ativo na luta para salvar a vida nos oceanos.

Nem eu nem Paul Watson temos qualquer problema com aqueles que caçam focas para subsistência, e nada mais que admiração a vida tradicional daqueles que vivem do mar.

Mas esses que administram a caça das focas ficaram ricos empregando homens que fazem alguns cem dólares extras enquanto eles compram a pele e as nadadeiras e ficam rico do lucro.

É exploração inumana de homens como também da natureza – o modo tradicional de vida manipulado por alguns.

Eu admito que estou confuso pela ação do governo. Eu não vejo nenhuma razão financeira para sua defesa persistente desta caça às focas. O custo de mandar a Guarda Costeira, de despachar delegações para conferências ao redor do mundo, deve ser três vezes os lucros atuais da caça. Sendo assim qual o objetivo?

Será que ela continua apenas porque este modo de vida ficou impregnado na cultura e existem demandas de tradição? Era isso que era dito na Espanha em relação a touradas, até que as autoridades foram forçadas a mudar suas posições.

Será que é porque os políticos em Ottawa pensam que ganham votos no Canadá Atlântico?

Bem, eu vivi em Newfoundland durante sete anos e ainda mantenho meus contatos, e é minha experiência que mais da metade das pessoas na província gostariam de ver a caça às focas terminar. Eles não gostam das repercussões, a idéia que eles são vistos ao redor do mundo como assassinos de focas.
Mas a maioria tem medo de falar. Loyola Hearn e Danny Williams, esses “toureiros espanhois”, como eu os chamo, os assustam e os mantem em silêncio. É uma mentira que a maioria das pessoas apoiam a caça.

As autoridades dizem que o Farley Mowat arriscou as vidas dos caçadores de focas ao vir perto demais dos barcos deles. Mas até mesmo as próprias fotos deles mostram que isto não é verdade. Eu conheço o Paul Watson. Em todos seus anos de ativismo, nunca ninguém foi morto ou sequer se machucou em uma das operações dele. Se eu pensasse por um momento que ele arriscaria vidas humanas em defesa das criaturas do mar eu me dissociaria dele. Não, o único perigo vem do governo que se recusa em fiscalizar regulamentos de segurança dos caçadores de focas e em seus próprios barcos.

Eu posso assegurar aos canadenses que o Farley Mowat não violou nenhuma lei canadense, e nem mesmo entrou em águas canadenses. As pessoas a bordo sabiam que o Sr. Hearn tinha a sua marinha esperando para os abordarem se eles o fizessem. Eles ficaram fora do limite de 12 milhas náuticas, mas isso não parou o Sr. Hearn. Eu acredito saber o porque disso.

Eles subiram a bordo o navio e os forçaram a retornar ao porto para manter-los longe até a temporada da caça ter chegado ao fim. Pessoas descobrirão isso no tempo devido. Eles verão os registros de posicionamento eletrônicos que o governo apreendeu, e perceberão que cometeram um erro. Mas até lá será tarde demais, e mais cem mil focas estarão mortas e seus couros retirados.

O ato ocorrendo no Estreito de Cabot poderia ser esperado de um país de terceira, uma ditadura, mas não de uma democracia como o Canadá.

Eu estou envergonhado com esta atitude.

Observações: Loyola Hearn é Ministro canadense das Pescas; Danny Williams é Premier do Canadá.
Editorial por Farley Mowat, Presidente Honorário da Sea Shepherd Conservation Society e autor do livro e depois filme “Os Lobos Nunca Choram” (1983).
De Globo e Correio. Toronto, Ontário, Canada: 16 de abril de 2008. pg. A.19

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