Home » Editorial

Defendemos os golfinhos, primeiro, acima de tudo, sempre

6 setembro 2013

Os Guardiões da Enseada não vão deixar Taiji até a matança acabar. Foto: Sea Shepherd

Comentário pelo fundador da Sea Shepherd, Capitão Paul Watson

Este é o planeta Terra, apesar de eu vê-lo como o planeta Oceano. Quando você olha para ele a partir do espaço, você não vê as fronteiras artificiais. Você vê um planeta. Todas as coisas estão ligadas, e quando uma espécie é reduzida, somos todos reduzidos. Houve uma discussão que a pressão “estrangeira” é contraproducente em Taiji, no que diz respeito à matança de golfinhos. Existe uma opinião de que este é um problema japonês e requer uma solução japonesa.

Eu discordo. Os golfinhos não são de propriedade japonesa. Apenas os espanhóis se opõem às touradas? Só os chineses se opõem à remoção das barbatanas de tubarões? Só os canadenses se opõem à matança de focas? O governo canadense protestou contra as manifestações estrangeiras contra a matança de focas, nas duas últimas décadas. No entanto, duas décadas antes disso, a oposição ao fim da matança de focas era exclusivamente canadense. Brian Davis deu início nos anos sessenta, Peter Lust entrou na década de setenta, eu mesmo aderi, em meados dos anos setenta. De 1964 até 1977, o governo canadense ignorou os protestos canadenses. Então, em 1977, eu trouxe Brigitte Bardot para os blocos de gelo e o movimento decolou.

O primeiro-ministro do Canadá, Pierre Trudeau, ficou irritado com esta intervenção estrangeira, mas ele nunca respondeu a nós, ele respondeu a ela. De repente, a matança de focas se tornou internacional, e o Canadá começou a sentir a pressão. Se não fosse a mídia e os protestos internacionais, nada teria sido alcançado. O Canadá recebeu mais manifestações de protesto pelo correio contra a matança de focas, do que o número de pessoas que vivem no Canadá, e como um canadense, felicito todas as mensagens estrangeiras, de protesto e intervenção.

E, finalmente, foi o Parlamento Europeu respondendo à pressão europeia que resultou na proibição de produtos derivados de focas na Europa, um movimento que praticamente destruiu as operações de caça comercial de focas no Canadá.
Não houve uma única legislação de conservação ligadas às pescas, baleias ou golfinhos no Japão, elaborada sem pressão externa. Lutamos contra o Japão em relação às redes de deriva, e foi uma proibição internacional de redes de deriva que forçou o Japão a cumpri-la. Lutámos contra o Japão sobre a caça e, recentemente , o cidadão médio japonês não sabia nada sobre caça às baleias no Oceano Antártico, mas pode-se afirmar que praticamente todos no Japão estão cientes disso agora. Controvérsia recebe publicidade, e publicidade cria a consciência e sensibilização, que motiva a pressão política, externa e interna.

As Ilhas Faroé não vão parar de matar baleias-piloto por conta própria, e os japoneses não vão parar de matar golfinhos por conta própria, nem os namibianos vão parar de matar focas ou os chineses vão parar de matar tubarões. Defender os golfinhos dos pescadores cruéis, ou de alguém querendo matá-los, é o nosso negócio. É um assunto de todos. Vamos voltar a 1978, o americano Dexter Cate estava em uma colina com vista para Iki, ilha perto da aldeia de Katsumoto.

Abaixo, em um porto raso, os pescadores locais tinham amarrado redes prendendo centenas de golfinhos, que em breve seriam moídos e transformados em fertilizantes e rações de suínos. “Esses pescadores estavam lá apenas para fazer um trabalho”, disse Cate. “Eles não consideram assassinato, mas eu sim. Eu sabia que tinha que fazer algo.” Então, em uma noite de tempestade, em fevereiro, Cate remou para a baía em um caiaque inflável. “Eu soltei três redes onde eles estavam presos”, lembra ele. “O último nó estava muito apertado, e eu tive que cortar o nó.” Ainda assim, o trabalho de sua noite ainda não havia terminado Assustados e desorientados, muitos dos golfinhos nadaram sem rumo nas águas agora ensanguentadas, incapazes de encontrar o caminho para o mar. “Eu entrei na água e tentei encaminhá-los para fora”, Cate lembra. “Eu fiquei na ilha durante toda a noite, colocando golfinhos encalhados de volta na água”.

Pela manhã, ele havia libertado entre 200 e 300 golfinhos. Em seguida, os pescadores voltaram para suas redes. “Eles estavam com raiva”. Cate passou três meses na prisão aguardando julgamento. Ele foi considerado culpado de obstrução comercial, recebeu uma sentença de seis meses de suspensão, e foi deportado de volta para sua casa, no Havaí. Dexter Cate estava trabalhando com o Fund for Animals, com sede nos EUA. Antes disso, ele foi cofundador junto comigo do Greenpeace Havaí. “Foi muito importante”, disse ele , “que as pessoas reconheceram que a verdadeira questão não é pescador versus golfinho, nem a América versus Japão. A questão é a forma como nos relacionamos com nosso ambiente. Estamos explorando nossa terra e os nossos recursos. A menos que mudemos nossos caminhos, nós podemos dar um beijo de adeus em nossos netos”.

As ações de Dexter, juntamente com imagens dramáticas e explícitas do cineasta Hardy Jones, levaram a matança de golfinhos para a atenção do mundo e, portanto, também para o Japão. Apesar disso, Dexter foi acusado de ser um estrangeiro indesejável. Patrick Wall libertou golfinhos novamente em 1981 e foi preso. Eu mesmo fui à ilha Iki em 1982, e graças aos esforços combinados de Cate, Wall, Jones e eu, fomos capazes de negociar um fim para o abate. Na época, uma comissária de bordo japonesa, da Air France, foi a nossa tradutora. Quando ela chegou, ela foi levada pela polícia. Ela disse para cuidarem de seu próprio negócio. Ela me disse mais tarde que a única razão para que ela pudesse enfrentar as autoridades japonesas, era o fato de viver na França, e poderia ignorá-los.

A realidade é que, dentro do sistema japonês, é difícil questionar a autoridade, sem consequências. É por isso que a equipe japonesa em nossos navios cobrem seus rostos, exceto os expatriados. Em 1975 , quando eu e outros trabalhamos com o fotógrafo Eugene Smith para ajudar a promover o seu ensaio fotográfico dramático em Minamata, sobre a intoxicação por mercúrio, ajudei a organizar apresentações no Canadá, juntamente com David Garrick e Taeko Miwa. Smith não era japonês, mas ele expôs Minamata para o mundo, e destacou que o governo japonês fez muito pouco para ajudar as vítimas de Minamata. Ele também disse que não foi bem recebido no Japão, foi brutalmente espancado por trabalhadores químicos japoneses que as lesões contribuíram para sua morte prematura.

Se não fosse por Eugene Smith e sua esposa Eileen, o horror de Minamata teria sido varrido para debaixo do tapete e esquecido. Em 2003, eu mandei Brooke MacDonald, uma tripulante e fotógrafa da campanha da Antártica 2002/2003 para Taiji . “Veja se alguma coisa está acontecendo lá”, eu disse a ela. E lá, a partir de um ponto de vista desobstruído, ela tirou fotos que dentro de alguns dias circularam o mundo. Estas fotografias e um vídeo são, indiscutivelmente, a melhor documentação que já foi feita em Taiji, porque não havia obstáculos. Quando eu vi as fotos, eu mandei uma tripulação para lá, e Ric O’Barry se juntou a nós. Allison Lance e Alex Cornelissen mergulharam na Enseada, cortaram as redes e libertaram 15 golfinhos. Eles foram presos, e passaram quatro semanas na prisão, e foram libertados quando eu paguei a multa de 8.500 dólares.

O advogado de Tóquio que eu contratei para defendê-los ficou chocado quando soube o que estava acontecendo em Taiji, e me disse muito claramente, “Eu admiro a sua paixão, mas isso é algo que nenhum japonês nunca vai fazer”. Quando eu perguntei por que, ele respondeu: “É muito incomum desafiar o status quo aqui”. Brincando, eu disse, “Miyamoto Musahi fez”, referindo-se ao herói lendário samurai japonês do século 17. Ele sorriu e disse, “e é por isso que Musashi é um herói único”. E assim, Ric O’Barry vendo a dificuldade que a libertação dos golfinhos representaria, sentiu que o ativismo de libertação direta seria rapidamente sufocado, e seria restringido o acesso a Taiji completamente, e por isso adotou a estratégia de monitorar e documentar a matança. Ele, então, juntou-se a Louis Psihoyos, e juntos produziram o documentário vencedor do Oscar ,”The Cove”.

Este foi um filme produzido por ocidentais, mas não há dúvidas de que o governo japonês assistiu e tomou conhecimento quando foi indicado e ganhou o prêmio de melhor documentário. Com grande relutância, decidimos nos abster de novas libertações de golfinhos e seguir a estratégia de Ric. E acreditamos que é uma estratégia que pode funcionar, mas não vai funcionar durante a noite. É por isso que nós temos chamado de Operação Paciência Infinita. Assim, após o sucesso de The Cove, a Sea Shepherd retornou a Taiji para continuar a estratégia iniciada por Ric, para monitorar e documentar dentro dos limites restritos da lei japonesa.

Mas nós adicionamos algo que não tinha sido feito antes, e que era ter uma equipe em Taiji, dia após dia, continuamente observando e documentando todos os movimentos dos assassinos. Os Guardiões da Enseada são impopulares com os pescadores japoneses? Claro que são. Ficaríamos desapontados se não fôssemos. Esperamos que os pescadores e seus apoiadores nos demonizem. Nós não esperamos que os nossos aliados abracem essa demonização. Não vou citar nomes ou apontar qualquer grupo. Eu me recuso a permitir que os assassinos de golfinhos e os seus apoiadores levem a Sea Shepherd a ser divisível. Nós simplesmente não vamos fazer isso.

Gostaria de abordar uma crítica que recebo: ele não tem o direito de levar os Guardiões da Enseada, porque ele mesmo nunca foi a Taiji. Eu não sei por que essa crítica foi levada a público, mas o fato é que eu não sou e nunca fui um líder Guardião da Enseada. E a razão pela qual eu nunca fui a Taiji, é porque nunca fui autorizado a entrar em Taiji pelo governo japonês. A atual líder dos Guardiões da Enseada é Melissa Sehgal, e ela é perfeitamente qualificada. Ela é apaixonada, determinada, de cabeça fria, experiente e eficiente. Eu acho que é um pouco machista os críticos em Taiji ignorar ou negar a verdadeira liderança por uma mulher, batendo em alguém que acha que é o líder, porque ele é do sexo masculino. Eu não chamo a atenção para os Guardiões da Enseada em Taiji . Eu nunca fiz isso. Melissa Sehgal faz. Esta é a posição dos Guardiões da Enseada da Sea Shepherd:

1. Os Guardiões da Enseada não vão deixar Taiji até a matança terminar.
2. Os Guardiões da Enseada agirão focados no seu principal objetivo: fim do massacre de golfinhos.
3. Os Guardiões da Enseada irão cooperar com todas as outras organizações que se opõem ao abate, tanto estrangeiras como nacionais.
4. Se qualquer organização deseja distanciar-se dos Guardiões da Enseada, serão respeitados, sem comentários.
5. Os Guardiões da Enseada vão agir dentro dos limites da lei japonesa.
6. Os Guardiões da Enseada acolhem e incentivam a participação dos cidadãos japoneses.
7. E, o mais importante, os Guardiões da Enseada nunca vão abandonar as verdadeiras vítimas desse horror, os golfinhos inocentes e indefesos impiedosamente abatidos por um pequeno punhado de indivíduos que trazem vergonha para toda a nação japonesa.

Dolphin Project, Earth Island, Save Japan’s Dolphins, Surfer for Cetaceans e FLIPPER. Desejamos a todos estes grupos todo o sucesso, e agradecemos tudo o que fizeram e estão fazendo. A força de qualquer ecossistema encontra-se na diversidade e na interdependência. Estas são as leis da ecologia, e são as mesmas dos movimentos sociais. Diversidade e interdependência. Diversidade em táticas, estratégias, opiniões, perspectivas e imaginação. Devemos ser interdependentes para alcançar o sucesso, ou como o maior samurai lendário uma vez escreveu: “O caminho duplo da caneta e espada. Educação e confronto”.

All Contents Copyright © 2017 Sea Shepherd Conservation Society.

produzido por GPS Digital
EnglishFrançaisDeutschPortuguêsEspañol